chuva na janela


foto de sofia carvalho -http://www.facebook.com/scarvalho2

deixa-me ficar assim

como se o tempo

não

como se tu

sempre

como se eu

ainda

 

o sorriso

o sorriso,

guardo-o para

a primavera

quando trouxeres o

malmequer no cabelo

as searas nos olhos

a maçaroca nos dedos

 

deixa-me estar assim

deixarei que me olhes

e sejas tu também

por momentos

o eu que vê

 

marlene murta …. lembras-te?


marlene murta.

 

como são férteis estes dias
repartidos entre mar e areia
faina e repouso

apetece-me cantar
e lançar ao mar
as mágoas que as arcas
no inverno guardaram

venham barcos
homens redes bois
venham ondas vento
venha, se o houver, peixe

hoje estou feliz
e vou correr na areia
encharcar-me de mar

estou de novo
pronta a não partir
para vê-los voltar

verão


sobre o mar o dia cai

o verão lateja-me nas veias

o corpo reverbera em vermelho e azul

sinto um aconchego de conchas junto ao pescoço

e apetece-me morrer aqui em pleno agosto

 

estou cheio de vida

ofereço-te tudo o que o mar pode dar

porque já não sei distinguir entre mim e o mar

são peixes dourados estas mãos que te acariciam o rosto

e de água este corpo que te aguarda em ondas sucessivas

 

o verão lateja-me nas veias

em cada jarro de vinho bebo

o ritmo pontuado por violas e flautas

 

madrugada dentro o orvalho humedece o desejo

e caminho ao encontro do sol que me espera sobre a areia

 

o verão lateja-me nas veias

e agora já posso morrer porque estou cheio de vida

 

ti miguel bitaolra


abraço ti miguel

o bordão
agora apoio
do corpo cansado

o saco de plástico
os cigarros e o isqueiro
resguardados

o homem do mar
o ti miguel bitaolra
amigo de muitos anos
senta-se agora
na cadeira
da ti rosa
onde o mar escorre
e a companha se junta
para falar da safra
do futuro
do passado
beber um copo
jogar dominó
uma sueca

continuar viva

do vazio


 

era inverno em mim

incomensuráveis espaços diminutos

vazias casas inóspitas prisões inescapáveis

pesadelos diurnos de percursos circulares

acesas noites gélidas de sonos episódicos

invertebrado tempo de inumeráveis dias

antiquíssimo bater de horas

ressoando em torres ancestrais

palidez lunar de fantasmas seculares

meticulosamente se constrói

o vazio