memórias de amor


 

um silêncio azul povoado de bruma e mãos

os rios inventam o leito

e morrem ao longo das margens

 

não há destino avesso a naus e marinheiros

 

o mar soa por entre os pinheiros

num marulhar de caruma

 

um sabor a sg ventil nos lábios

 

sabes

o desejo nunca cabe num só corpo

e depois

para tanto ser uma pequena tenda basta

 

zé trabalhito: presente!


 

os pescadores não morrem, partem para outros mares (dilvandro)

do mar vim

ao mar regresso

a vida é sal que trago em mim

mar feito corpo

o mar nasce-me nos olhos

onde morrem as lágrimas

 

secas de o não ter

salgadas mulheres em terra

homens no mar

 

é no desespero que se salgam os olhos

 

mar

sal

suor

rede

sal

peixe

raiva

sal

e o mar de novo

 

 

…. do mar !

tenho medo

é de andar de carro

o bordão da regeira da ré


(torreira; companha do murta; 2009)

as mulheres da torreira
sabem do bordão
o peso
carregam-no às costas

como carregam
a lida da casa
as contas da mercearia
o pão para os filhos
o peixe para a janta

a sardinha
arde na brasa
a cavala na panela
as batatas

mais um dia
menos um dia
quem sou eu
para lhes falar do tempo
se só sei ouvir o mar

nem o golpe de asa


outono pessimista, não me lembro quando

“ o golpe de asa “

não me faltou

sequer o tentei

e foi na sombra de mim

que desde sempre habitei

 

serei sempre

o que se perdeu

julgando encontrar-se

o sonho encalhado na berma

o quase…

 

tudo aconteceu ao contrário

de mim

e por aqui fiquei

amparado nos muros toscos

de sobreviver assim

até que…

 

depois

esquecer-se-ão do que fui

e talvez inventem

no eu não ter sido

o que talvez não tenha vivido

 

memória dos bois


 

dos bois a memória

 

 

a faina começa
o boi aguarda que chegue a sua vez

o barco faz o lanço
e regressa à areia
então o chocalho toca
suave

depois é a vez das redes
lento e forte vai puxando
e o chocalho não se ouve
o passo é forte miúdo

súbito as bóias
é preciso ser rápido
para não se perder o peixe
as juntas correm
os homens gritam
todos ajudam a chegar ao saco

então o chocalho canta
uma música única corre pela areia
venha peixe ou não
a música chega à exaustão

(torreira)