porque hoje morreu o joão josé santos cardoso

há amigos que não vemos
há muito
há amigos que vemos
todos os dias
há amigos que não veremos mais
mas que nunca deixam de ser amigos
abraço joão josé
(torreira; regata do s. paio; 2014)
a palavra que não quero
espero a palavra
por dentro das palavras
o sorriso demora a regressar
o tempo é nublado muito
não te perdoo o deserto
nem a lama que semeaste
a imagem só é a mesma
para os mesmos olhos
espero a palavra
por dentro das palavras
e não a quero
(ria de aveiro; torreira)
eu só termino em mim
os primeiros passos
não os últimos
as primeiras palavras
a palavra o nome
o herdado
vi o que vias e procurava
outros olhares
mas era sempre o teu
o olhar recto
sou porque foste e me deste
serei porque assim te vi ser
não pelo que me dizes hoje
queria continuar a ouvir-te
mas eu só termino em mim
(torreira; corrida dos chinchorros; 2014)
vive e sonha
nada é tão certo
como a incerteza
sê tu no instante
em que a ave é barco
e os rios correm serenos
por entre margens largas
escuta o rumor do vento
a beleza dos flamingos
vive e sonha
(ria de aveiro; esteiros do bunheiro)
o
o lixo debaixo do tapete
lê tudo ao contrário
as horas da beleza
não são as únicas
horas da realidade
procura os homens
pergunta-lhes o como
quando e para quê
são eles o teu relógio
procura-os nas horas más
esconderam o lixo
por debaixo do tapete
na ilusão de terem limpo a casa
não sejam os teus olhos
tapete novo em chão gasto
dou-te a carne dos dias
para que sintas na boca o sangue
dos que os habitam
reparte-a
(torreira; cais do guedes; verão, 2015)
felicidades
não percas tempo
com os fragmentos
jamais refarás
o que se quebrou
tu já não és tu
nada é o que já foi
nada será o que
podia ter sido
há um começo tardio
para um final próximo
é essa a estória do depois
é tarde muito tarde
longe vão as manhãs
só te resta esperar
e reaprender os dias
felicidades
(torreira; regata do s. paio; 2012)