os moliceiros têm vela (139)


os silêncios essenciais

encontros e desencontros

encontros e desencontros

do começo
só o que te contarem
o fim
nunca o poderás contar

no entanto
nascer e morrer
são os momentos
mais importantes da tua vida

nada mais és que o intervalo
entre dois silêncios essenciais

"a vida é arte do encontro e há tanto desencontro por aí" vinicius de moraes

“a vida é arte do encontro e há tanto desencontro por aí” vinicius de moraes

(torreira; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (94)


quero-te barco

olhar é viver

olhar é viver

que vejas para além
da ilusão

que sejas não a gota
sequer a teia
mas um barco
onde navegar seja seguro
não por instantes
mas sempre

que te não iludas
com falsas pérolas de água
presas em malha fina
tecida por habilidosos
fabricantes de armadilhas

de teias se tecem vidinhas
videirinhas no amarinhar
dias acima gente abaixo

quero-te barco
mesmo se antevisto
onde navegar seja seguro

não fiques preso na teia, sabe porém vê-la

não fiques preso na teia, sabe porém vê-la

(torreira; 29/08/2015)

postais da ria (93)


é indizível o que sinto

entre a palavra e a imagem o sentir

entre a palavra e a imagem o sentir

falar de ti é ainda dizer-me
continuar a ser
pelas tuas mãos ainda por

deixar-te a memória do tempo
a beleza dos dias onde fui
é dar-me-te para me seres mais

é indizível o que sinto

tudo o que te possa dar é pouco, o pouco que conquistares é muito

tudo o que te possa dar é pouco, o pouco que conquistares é muito

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (130)


o mais é vento

o

o “marco silva” a terminar a regata em primeiro lugar

“há 45 anos que não fazia um barco”

(mestre firmino tavares)

ao fazer-se o barco
refez-se o homem

construiu-se um tempo outro
de outros saberes e fazeres
cresceu nos olhos uma luz diversa
o brilho adormecido há 45 anos
vi neles barcos serem de novo filhos
paridos com o amor e a arte de mãos hábeis

fazem-se os homens como os caminhos

o barco navega agora
pulsam dentro dele dois corações
oiço-os bater sempre que a vela se enfuna

a ria sorri um sorriso largo de espuma
e eu fico na margem a reaprender o sonho

o mais é vento que passa

a terceira vitória consecutiva, com três barcos diferentes. bravo! arrais marco silva!

a terceira vitória consecutiva, com três barcos diferentes. bravo! arrais marco silva!

(ria de aveiro; regata da ria; 2015)

NOTA: na galeria municipal, na torreira, está patente, até dia 2 de agosto, a exposição “a ria no coração”, patrocinada pela câmara municipal da murtosa, e que documenta fotograficamente a construção do moliceiro “marco silva”. as fotografias são da autoria de abel cunha, antónio lousada e rui cruz.

os moliceiros têm vela (127)


vou dormir

como se num sonho

como se num sonho

deixem-me dormir
seja qual for o motivo não
me acordem

estou cansado de viver
olhos abertos dia e noite
cansado de ser só olhos

quero sonhar
sonhar o que podia ter sido
recordar apenas o que mereceu
ser sonhado
e nunca passou do sonho

deixem-me dormir
quero as janelas abertas
muita luz pelo quarto
senti-la dentro de mim
ser eu por momentos

deixem-me sonhar de olhos fechados
ter de novo a ingenuidade da criança
para quem o mundo é um brinquedo
e todos são companheiros de brincadeira

deixem-me dormir
não ser por alguns momentos
esta coisa ambulante
um corpo agoniado de tantos dias

deixem-me sonhar
nem que seja só hoje
o sonho desconhece o tempo
porque é todo o tempo

vou dormir

tempo de moliceiros

tempo de moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2009)