não consigo
ficar assim como se
sem saber que
existir sem ser
pairar sobre tudo
sobretudo pairar
ficar assim como se
sem saber que
não consigo
(ria de aveiro; torreira)
os silêncios essenciais
do começo
só o que te contarem
o fim
nunca o poderás contar
no entanto
nascer e morrer
são os momentos
mais importantes da tua vida
nada mais és que o intervalo
entre dois silêncios essenciais
(torreira; regata do s. paio; 2014)
quero-te barco
que vejas para além
da ilusão
que sejas não a gota
sequer a teia
mas um barco
onde navegar seja seguro
não por instantes
mas sempre
que te não iludas
com falsas pérolas de água
presas em malha fina
tecida por habilidosos
fabricantes de armadilhas
de teias se tecem vidinhas
videirinhas no amarinhar
dias acima gente abaixo
quero-te barco
mesmo se antevisto
onde navegar seja seguro
(torreira; 29/08/2015)
é indizível o que sinto
falar de ti é ainda dizer-me
continuar a ser
pelas tuas mãos ainda por
deixar-te a memória do tempo
a beleza dos dias onde fui
é dar-me-te para me seres mais
é indizível o que sinto
(ria de aveiro; torreira)
o mais é vento
“há 45 anos que não fazia um barco”
(mestre firmino tavares)
ao fazer-se o barco
refez-se o homem
construiu-se um tempo outro
de outros saberes e fazeres
cresceu nos olhos uma luz diversa
o brilho adormecido há 45 anos
vi neles barcos serem de novo filhos
paridos com o amor e a arte de mãos hábeis
fazem-se os homens como os caminhos
o barco navega agora
pulsam dentro dele dois corações
oiço-os bater sempre que a vela se enfuna
a ria sorri um sorriso largo de espuma
e eu fico na margem a reaprender o sonho
o mais é vento que passa
(ria de aveiro; regata da ria; 2015)
NOTA: na galeria municipal, na torreira, está patente, até dia 2 de agosto, a exposição “a ria no coração”, patrocinada pela câmara municipal da murtosa, e que documenta fotograficamente a construção do moliceiro “marco silva”. as fotografias são da autoria de abel cunha, antónio lousada e rui cruz.
vou dormir
deixem-me dormir
seja qual for o motivo não
me acordem
estou cansado de viver
olhos abertos dia e noite
cansado de ser só olhos
quero sonhar
sonhar o que podia ter sido
recordar apenas o que mereceu
ser sonhado
e nunca passou do sonho
deixem-me dormir
quero as janelas abertas
muita luz pelo quarto
senti-la dentro de mim
ser eu por momentos
deixem-me sonhar de olhos fechados
ter de novo a ingenuidade da criança
para quem o mundo é um brinquedo
e todos são companheiros de brincadeira
deixem-me dormir
não ser por alguns momentos
esta coisa ambulante
um corpo agoniado de tantos dias
deixem-me sonhar
nem que seja só hoje
o sonho desconhece o tempo
porque é todo o tempo
vou dormir
(murtosa; regata do bico; 2009)