retrato com moliceiros

de grande tem a terra
o cemitério a saudade
o silêncio
as casas vazias muitas
para retornos breves
a ausência
há moliceiros a vogar na ria
nunca o longe foi tão perto
sonhei um dia ser ave
vieram depois os que sabiam
das palavras exactas
dos nomes das coisas e falaram
ensinaram-me a ver
as cores e o por dentro delas
escutei-os no recato da margem
vi como as aves
reescreviam com as asas
na superfície das águas
a palavra voo
sonhei um dia ser ave
(ria de aveiro; torreira)
é
recuso as palavras redondas
nascidas
de bocas onde muitas línguas
só conheço o caminho agreste
parco de sombras
linha recta entre hoje e o devir
prefiro a fresca água das fontes
às bebidas finas das mesas grandes
onde banquete é fome de muitos
recuso os cemitérios de vivos
não é fácil nem difícil
é
(ria de aveiro; regata da ria; 2014)