os dias do tempo
os dias do tempo
não os sei
não os conto
os dias do tempo
digo-tos em surdina
para que os cantes
para que os sonhes
para que sejas
o que eu
nunca fui
(murtosa; regata do bico; 2010)
da aprendizagem

o poeta menor
sentou-se na soleira
do poeta maior
na pedra fria da porta
colheu as pegadas do mestre
procurou palavras sentires
saberes da escrita
que admirava e não atingia
o poeta menor
levantou-se da soleira
do poeta maior
e tinha o rabo gelado
nada mais aprendera
que a frieza da pedra
(ria de aveiro; regata da ria; 2010)
dia da poesia
alguns sabiam as letras
de ouvido
o nome seriam poucos
a escrevê-lo
foram poetas e partiram
sem cadernos
com as mãos e a vontade
de vingar
onde oportunidades houvesse
homens e mulheres
crianças ainda
calejados de fome
com sede de futuro
escreveram o nome
da terra negada
na geografia do mundo
é deles o poema sem palavras
escrito em línguas desconhecidas
que fizeram suas
é deles o dia
são eles a poesia