gente somos
neste país ainda
pagantes seres
de vacas sagradas
por alguns subidas
a altares impróprios
gente somos
neste país ainda
sobre quem caem
enormes
pedras da tosse
dos mandatários do longe/perto
ergamo-nos então
sejamos de facto
de areia fina
límpidas as águas
onde peixes
moliço
jardins
mesmo no lodoso
fundo de hoje
há ainda espécies
que se recriam
e são alimento
ria de aveiro
mesa posta
a quem
ao rés da água
a beleza sorri
líquida
os homens são ainda
a continuação de
o regresso ao terem sido
velas erguidas desafiam
o vento e a sabedoria de quem
vêm de todos os cais do concelho
onde bateiras ainda
a festa renova-se
nos boleares desafiantes
a ria abre-se de plena
em verdade
em verdade te digo:
é tudo mentira
e é preciso muita lata
saberás de quem falo
que todos falam dessa gente
em verdade
em verdade te digo:
barrigas cheias
belos carros
grandes arrotos
chorudos ordenados
gandas bacanais
um ar de superioridade
bem cultivado
gravata a condizer
com o perímetro do pescoço
(o que até dá jeito)
pensam-se em roma
e gaspar o ser perfeito
(mais um excelente trabalho de Jorge Bacelar)
se histórias contara
quase de fadas seria
epopeias de homens
nascimento e morte
de tantos barcos
contemplação de si
no contemplar de nós
ter a ria no sangue
é ter saudade de não estar
é vontade irrequieta de voltar
(isto não é um poema)
as palavras
são agora
ferramentas de matemática
apreenderam as quatro operações
aplica-as ao teu vencimento bruto mensal
os multiplicadores
encontra-los na proposta de orçamento
e na folha onde se espelha
a transformação em euros
do teu esforço
com eles faz um simples
exercício de cálculo:
determina o quanto vais receber
mensalmente em 2013
isto não é um poema
agradável
o teu achado
também não
é por isso
esta raiva
este ter de te dizer
o lado escuro da luz
é ávido
enorme!
como se o silêncio
poisado
ave feito
nos braços da ria
e os homens sorrissem
só por se saberem
assim aqui
não inventes o poema ele está aí anda pelas ruas desesperado sem abrigo com fome em busca de emprego a idade do aquário e tu peixe borbulhando palavras gastas cansadas de tão não é deste tempo querem-se palavras deste estar aqui agora quando o lado negro da luz é mais visível tresanda
recuso cantar o desejo
sublimado em palavras
no inventar de um corpo
sonho a percorrer
não é este o tempo de
quando tudo escasseia
até o pão da palavra
é ázimo
as ruas estão cheias
de bocas vazias
e tu cantas o corpo
o corpo que, sei lá,
não sabes se terias
trago as pedras da calçada
para o teclado
atiro com elas ao monitor
onde um homem se diz ser de raça
sem que se saiba de que raça é
o raça do homem
que muitas somos
nenhuma a dele porém
o lado negro da luz
é cada vez mais visível:
cortante
duvida
é natural que o sintas
o real começa a deixar de o ser
a beleza é sublime demais
estranho
muito estranho
estranhamento belo
tão estranho
quanto real
tão belo
quanto duro
tão feérico
como viver da ria
é uma existência não existente
uma estranha forma de ser
ave e lavrar a lama
nisto se fazendo gente
pairar sobre as águas
será sonho
mas quem pode evitar
o sonho de voar?
fica na dúvida
guarda-me a teu lado
um lugar
fiquemos assim ambos
sentados sem saber se
é o real que estamos a olhar