a cp e a publicidade enganosa


andar de comboio é uma forma económica, prática e “descansada” de viajar, principalmente quando se trata de uma deslocação sem pressas e em que o que interessa é o destino.

porque precisava de ir e vir a lisboa, no mesmo dia, sozinho, pensei de imediato no comboio. ainda por cima um amigo diz-me que comprando o bilhete com 5 dias de antecedência a cp fazia desconto de 40% em alfas e intercidades. maravilha!

perguntei a um revisor se podia comprar os bilhetes na net e a resposta foi afirmativa e eloquente, avançando mesmo com mais promoções. como estou fora de coimbra e longe de uma estação de caminho de ferro, tinha o meu problema resolvido.

entrei na página dos “comboios de portugal” https://www.cp.pt/passageiros/pt-, onde estou registado, e tratei de iniciar o processo de compra antecipada. encontrei os horários que queria, estavam “quase” – e isso já é estranho – todos com 40% de desconto – confirmava-se a informação.

passei à fase de pagamento e ….. nada de descontos. fiz várias simulações, experimentei dias e comboios e não dava.

resolvi então telefonar para o nº de telefone, chamada de valor acrescentado, para pedir esclarecimentos sobre o que me estava a acontecer. ao fim de alguns, poucos, minutos, a resposta veio clara “ há um problema no site, mas não se preocupe, compre os bilhetes, faça um print screen e depois apresente uma reclamação à cp”. maravilha, não é? desliguei.

confirmei que comprando o bilhete hoje tinha direito a desconto e fui à estação mais próxima – a vontade de ver tudo esclarecido fez-me esquecer a deslocação – chegado à bilheteira, disse ao que vinha e os comboios que pretendia tomar. que sim senhor, havia descontos mas para a ida só num comboio e para a vinda também só num e em primeira. disse que não era assim que estava publicitado na página da cp e a resposta foi: “ não sei o que lá está, mas é assim, quer?”. claro que quis, poupei algum, nem que fosse para o gasóleo e fiquei a saber que

a página da cp é mesmo virtual”

reproduzo o que me parece relevante para esclarecimento de quem possa vir a ser enganado como eu.

antecipada_gCompra antecipada – 40% desconto

Viaje com desconto em Alfa Pendular e Intercidades, para todos os destinos.

O Alfa Pendular e o Intercidades oferecem-lhe o ambiente ideal para viagens em trabalho ou em lazer. As suas viagens tornam-se mais rápidas, confortáveis, seguras e agora ainda mais económicas. Compre o seu bilhete com antecedência de 5 dias e beneficie de 40% de desconto, para todos os destinos e em todas as classes.

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Bilheteira

1 Passageiro(s) – 2ª Classe / Turística
Data Partida Chegada
Ida: 2015-06-21 Coimbra-B Lisboa – Oriente
Volta: 2015-06-21 Lisboa – Oriente Coimbra-B
Pesquisa Seleção de Serviço Opções Passageiro Escolha de Lugar Pagamento Bilhetes
Escolha as opções de viagem para o(s) percurso(s) indicado(s) e selecionar algumas opções referentes ao seu lugar.
Ida:       Coimbra-B > Lisboa – Oriente
Serviço Partida Chegada Duração Preço Promoção
AP Nº 180 06:47 08:22 01:35 €22,80 € 10,50
AP Nº 130 07:47 09:22 01:35 €22,80 € 14,00
IC Nº 510 09:22 11:22 02:00 €19,20 € 12,00
IC Nº 620 10:00 11:52 01:52 €19,20 € 12,00
IC Nº 720 11:58 13:52 01:54 €19,20 € 12,00
AP Nº 124 12:47 14:22 01:35 €22,80 € 14,00
IC Nº 522 13:58 15:52 01:54 €19,20 € 12,00
AP Nº 132 14:47 16:22 01:35 €22,80 € 14,00
IC Nº 514 15:22 17:22 02:00 €19,20 € 12,00
IC Nº 722 15:58 17:52 01:54 €19,20 € 12,00
AP Nº 186 16:47 18:22 01:35 €22,80 € 14,00
AP Nº 126 17:47 19:22 01:35 €22,80 € 14,00
IC Nº 524 17:58 19:52 01:54 €19,20 € 12,00
AP Nº 128 18:47 20:31 01:44 €22,80 € 14,00
IC Nº 20532 19:00 20:52 01:52 €19,20 € 12,00
AP Nº 134 19:47 21:22 01:35 €22,80
IC Nº 518 20:22 22:22 02:00 €19,20 € 12,00
IC Nº 526 20:58 22:52 01:54 €19,20 € 12,00
AP Nº 136 21:47 23:22 01:35 €22,80
Volta:       Lisboa – Oriente > Coimbra-B
Serviço Partida Chegada Duração Preço Promoção
IC Nº 511 08:39 10:37 01:58 €19,20 € 12,00
IC Nº 721 09:39 11:31 01:52 €19,20 € 12,00
AP Nº 182 10:09 11:43 01:34 €22,80 € 14,00
IC Nº 523 11:39 13:30 01:51 €19,20 € 12,00
IC Nº 513 13:39 15:37 01:58 €19,20 € 12,00
AP Nº 133 14:09 15:43 01:34 €22,80 € 14,00
IC Nº 525 15:39 17:30 01:51 €19,20 € 12,00
AP Nº 135 16:09 17:43 01:34 €22,80 € 14,00
AP Nº 127 17:09 18:43 01:34 €22,80 € 14,00
IC Nº 621 17:39 19:30 01:51 €19,20 € 12,00
AP Nº 184 18:09 19:43 01:34 €22,80 € 14,00
IC Nº 517 18:39 20:37 01:58 €19,20 € 12,00
AP Nº 137 19:09 20:43 01:34 €22,80 € 14,00
IC Nº 723 19:39 21:28 01:49 €19,20 € 12,00
AP Nº 129 20:09 21:48 01:39 €22,80 € 10,50
IC Nº 527 22:09 00:00 01:51 €19,20 € 11,00
  Os bilhetes adquiridos com promoção são revalidáveis e não reembolsáveis.

como se pode ver TODOS têm desconto de 40%. convido-vos a simular e a ver o que vos acontece. eu já aprendi que há mais uma empresa em que não posso confiar escolhi a ida em intercidades e o regresso em alfa e vejam o que deu…. um espanto o resultado! desconto onde moras tu?

Bilheteira

1 Passageiro(s) – 2ª Classe / Turística
Serviço Data Partida Chegada Duração
Ida: IC Nº720 2015-06-21 Coimbra-B 11:58 Lisboa – Oriente 13:52 01:54
Carruagem 21; Lugar(es): 112   –   Intercidades, 2ª Classe
Volta: AP Nº127 2015-06-21 Lisboa – Oriente 17:09 Coimbra-B 18:43 01:34
Carruagem 3; Lugar(es): 51   –   Alfa, Classe Turística
Preço: € 38,00

“O Moliço” por Jaime da Catrina


…………………..

nota prévia:

o nº 7 da revista “terras de antuã”, editada pela câmara municipal de estarreja, tem um selecção maravilhosa de textos sobre a ria de aveiro. por 6 euros apenas, fica-se com um documento precioso.

um dos documentos publicados é “O Moliço”, de Jaime da Catrina, publicado no jornal “Concelho de Estarreja”, em 1991, e republicado por Paulo Silva. não resisti e digitei todo o texto/testemunho de Jaime da Catrina, que a seguir publico.

parece-me difícil reencontrar um documento de vida com esta qualidade e escrito por alguém que “andou ao moliço”.

ahcravo gorim

……………………..

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foto retirada da revista “Terras de Antuã”, nº7

O Moliço

por Jaime da Catrina

in “Concelho de Estarreja, 1991” e “Terras de Antuã, nº7

Li no último número deste jornal (Fevereiro de 1991) que a Câmara Municipal de Estarreja, através da sua Divisão de Acção Social e Cultural, vai realizar de 8 a 16 de Junho do corrente ano a “ II Semana Cultural do Moliceiro”.

Muito se tem falado e escrito nos últimos tempos acerca do ex-líbris desta região, mas pouco se tem dito sobre a razão da sua existência. O moliço. Sim, porque se não houvesse moliço não haveria os moliceiros. Ora eu já algum tempo que trazia em mente fazer a descrição pormenorizada de como se faz uma “maré de moliço” e parece-me que esta será a altura mais apropriada para o fazer. Talvez poucas pessoas saibam que eu andei ao moliço. É verdade. Nos anos de 1941, 1942, 1943, frequentando eu o 3º, 4º, 5º ano dos liceus, passei as férias grandes ao moliço. A “safra” abria a 25 de Junho e encerrava a 25 de Outubro. Apanhava portanto quase todo o período das férias grandes escolares. Alguns, especialmente da zona das Gafanhas, tiravam licença até mais tarde e mantinham-se na apanha até ao fim do ano, mas para esses a tarefa era mais suave, porque só iam ao moliço com vento, mas para nós, os moliceiros cá do norte, era mais duro porque começávamos a tarefa de madrugada e apanhávamos todo aquele período da manhã em que o vento não soprava, isto é, fazia “calmaria” e portanto era preciso fazer andar o barco empurrando à vara “a dar de mamar ao pau” corno se dizia na gíria dos moliceiros e isto tornava o trabalho bastante pesado. Foi no ano de 1937 que tudo começou. O meu padrasto, homem analfabeto e boçal, que fora emigrante nos Estados Unidos da América onde arranjara alguns dólares, como não sabia fazer mais nada, mandou construir um barco moliceiro ao “Ti” Firmino Tavares, que lhe custou 4.500$00. Depois do barco pronto, falou ao “Ti” Joaquim Mau, um indivíduo que morava no Bunheiro, ali para os lados de S. Simão e que por sinal não tinha um único pelo na cabeça, sendo até conhecido pelo careca, para lhe fazer as velas.

Suponho que só esse artesão e um outro na Murtosa, sabiam fazer este trabalho. Encomendou-se a lona necessária às Ferreiras da Silva que a mandaram vir do Porto e o homem esteve em nossa casa durante duas semanas a fazer as duas velas. A vela grande e uma outra mais pequena para ser puxada à proa, quando o vento o permitisse. Se a memória não me falha o artista ganhava 5$00 por dia e comer. Aparecia de manhã cedo mal o sol acabava de nascer, “matava o bicho” com dois copitos de aguardente e estendia a lona na eira que era o seu “atelier”. Depois de cortar o pano em várias partes que ele sabia como ninguém, seguia-se a tarefa de coser essas partes urnas às outras. O homem calçava uma espécie de luva de lona, sem dedos e sem punhos e que lhe cobria a mão em toda a volta. Na altura da palma da mão, tinha pregado à lona uma roda de madeira com cerca de 2,5 cms de diâmetro, que lhe servia de dedal. Quer dizer… Era com essa roda de madeira, colocada no sítio da palma da mão, que ele empurrava a agulha. O fio utilizado era o fio do Norte.

Só nessa altura é que eu entendi, porque é que nesta região, esse fio era conhecido pelo nome de “fio de Vela”, exactamente por ser utilizado para cozer as velas. O “Ti” Joaquim trabalhava enquanto conseguisse ver e só regressava a casa já de noite, depois de cear.

Passadas duas semanas, o “careca” deu a tarefa por concluída, levando para casa 60$00 da quinzena e com a certeza as saudades duns bons “mata-bichos”, duns jantares e dumas merendas acompanhadas duns bons “meios-cortilhos” e dumas caldeiradas bem azeitadas, porque como a minha mãe tinha loja, era bastante generosa a “regar” estas refeições.

Para não me tornar fastidioso e “roubar” mais espaço útil ao nosso Jornal, no próximo número relatarei então, como se faz uma “maré de moliço”.

Aparelhado o barco com todos os apetrechos, vamos então iniciar-nos na apanha do moliço. Nos primeiros três anos, o meu padrasto trabalhou sozinho à proa, isto é, a empurra o barco à vara. À ré, aos ancinhos trabalhava um “camarada” de nome Domingos Carolo que morava no Bunheiro, ali para os lados do Covão. Neste período, eu não participei nesta tarefa, porque era ainda uma criança, tinha apenas 10 anos. Por esse motivo, durante as férias grandes ia trabalhar para a redacção deste Jornal, ajudar na sua composição e feitura.

Quando fiz o exame do 3º ano do Liceu de Aveiro, já então com 13 anos, o prémio que recebi, foi ir para o moliço. Confesso que na altura não gostei nada, mas mais tarde reconheci que foi uma experiência muito enriquecedora na minha vida. Para aqueles que não sabem nada destas andanças, começo por esclarecer que não se podia trabalhar na ria como quem vai ajudar o pai nos trabalhos agrícolas. Era necessário estar documentado. Para tanto, ia à Capitania do Porto de Aveiro requerer um “passe” que me era concedido apenas por uma “safra” que, como já disse começava em 25 de Junho e terminava em 25 de Outubro. Este “passe” era renovado todos os anos. A minha mãe, que na sua mocidade havia sido costureira, preparou-me um colete com uma almofada em cada um dos peitilhos, para ali encostar o topo da vara e não ferir tanto os ombros. Mesmo assim cheguei a fazer chaga no ombro esquerdo, que era o lado que eu mais utilizava.

Então, alta madrugada, muitas vezes às duas e três horas, conforme as exigências da maré, lá íamos nós para o moliço. Algumas vezes, depois da ceia, íamos dormir para o barco. Também para me proporcionar uma maior comodidade, minha mão fez um colchão de sacos de serapilheira que encheu com palha de centeio e devo confessar que era muito agradável dormir naquele “berço” embalado pelas mansas ondas do cais e ouvindo o marulhar das ondas a bater na proa. Quando a maré era propícia, toca a levantar e vá de levar o barco à vara para o rio largo até encontrar sítio onde houvesse moliço. Normalmente esta tarefa era feita pelos dois camaradas e deixavam-me ficar mais um bocadito no “berço”. Chegados ao local onde o moliço abundava, era ai que entrava em acção. O camarada dos ancinhos deixava a vara e vinha para a ré. Aí, colocava as forcadas e as tamancas no vão dos bordos do barco, uma de cada lado. Eram nestas forcadas e tamancas que se fixavam as hastes dos ancinhos para apanhar o moliço. A forcada, como o próprio nome indica, era constituída por um ramo de pinheiro com dois galhos em forma de garfo e aparelhada de tal modo que, quando introduzida no vão dos bordos ficava com os dois galhos um pouco fora de borda e voltados para a ré. A tamanca era uma peça, também de madeira de pinheiro, em forma de L cuja parte mais comprida era introduzida no vão dos bordos, ao lado da forcada e a parte mais curta, que também saía um pouco fora dos bordos, tinha uma pequena reentrância em semi-círculo voltada para a forcada. Pousada num e noutro bordo do barco havia uma toste que era onde o camarada dos ancinhos se movimentava. O homem ia a um lado e entalava a haste do ancinho entre a forcada e a tal reentrância da tamanca, ao mesmo tempo que enterrava o ancinho no moliço. Desta forma a haste podia partir, mas nunca saía dali. Depois ia ao outro lado e procedia do mesmo modo, com outro ancinho, enquanto nós, eu e o meu padrasto, (os camaradas da proa) fazíamos andar o barco empurrando à vara e arrastando os dois ancinhos enterrados no moliço. Era exactamente nesse deslizar do barco arrastando os ancinhos, que estes iam arrancando o moliço. Confesso-vos que esta tarefa de fazer andar o barco com ancinhos enterrados, era realmente muito dura. Como eu tinha menos força do que o meu padrasto, espetava a vara mais ao largo, enquanto ele a colocava ao comprido com o bordo e desta forma conseguíamos um equilíbrio que mantinha o barco sempre na mesma direcção.

Enquanto nós, à proa, íamos “arrastando” o barco, à ré, o camarada dos ancinhos ia levantando ora um, ora outro, conforme iam ficando cheios e sacudia-os dentro do barco, movimentando-se, como disse, através da tal toste, que servia de ponte entre os dois bordos. A meio do trajecto, metia na boca uma “bocada” de broa e um pedaço de cebola crua. Às vezes, normalmente quando a mulher recebia a quinzena do leite, esta “ementa” era enriquecida com sardinhas fritas empurradas com uma “pinada” de vinho, a beber pela garrafa, quando nós lho dávamos.

No tempo dos figos, as sardinhas e a cebola eram substituídas por aqueles frutos e assim, o homem fazia muitas marés de moliço comendo apenas boroa com figos.

Nós à proa, era mais “à rica”. Assim ale do pedaço de boroa, não faltava a “talhada” de “brinça”, ou uma chouriça cozida, das de casa ou de conserva, peixe frito, etc…etc…, e muitas vezes para mim, a minha mãe lá mandava uma talhada de queijo, ou um punhado de azeitonas. Claro está que nunca faltava a garrafa do “tinto” de que o camarada da ré também compartilhava. Estas “iguarias” eram pousadas nos bordos do barco, junto à proa e quando nós ali passávamos com a vara embirrada no ombro, abaixados e com os pés “fincados” na proa do barco, metíamos na boca uma “bocada” de boroa e de conduto, repetindo esta operação na varada seguinte e tantas vezes até darmos cabo do “manjar”. De repente o homem da ré gritava: – Alto que caímos em “lampela”, isto é: caímos num sítio onde já não havia moliço e os ancinhos só traziam lama e lodo.

Então o homem pousava os ancinhos dentro do barco e agarrava-se à vara e lá iam à procura de outro sítio onde houvesse moliço. Durante este trajecto mais ou menos curto eu aproveitava para escoar a água que se havia juntado nas cavernas, escorrida do moliço. Se acontecia encontrarmos uma mouteira boa e vasta, então abalizava-se, isto é, espetava-se uma vara em cada extremidade da mouteira, não só para identificar e para que o barco não saísse daquela fartura, mas também para indicar aos outros moliceiros que aquele sítio, enquanto estivesse abalizado, tinha dono e portanto os outros não se podiam aproximar. Ali, os ancinhos vinham sempre cheios de moliço e era ver a maré num tal crescer. Em pouco tempo começavam os bordos do barco, especialmente ao meio, a ficar ao nível água. As “falcas” eram umas tábuas aí com 20 cm de altura, que tinham pregadas duas pernas de madeira que se introduziam no vão dos bordos fazendo assentar a “falca” naquela tira de lona e que tapava o barco da proa até meio e do meio até à ré, isto é, protegiam o barco naquela zona mais baixa do moliceiro, evitando que a água entrasse. Claro, com aquela abundância de moliço em breve tínhamos a maré feita. Nestas condições, isto é, com esta fartura fazia-se a maré aí em 3 horas, 3 horas e meia, porque normalmente, uma maré de moliço, demorava, a fazer 4 horas, 4 horas e meia e até 5 se as coisas corriam mal. Estas mouteiras só se conseguiam encontrar no princípio da safra e raras vezes porque em pouco tempo ficavam todas desvastadas.

Maré feita, ancinhos dentro e toca a levantar a vela porque aquela hora já soprava uma “ramalhosa” como eles diziam. Então o arrais sentava-se ao leme e lá vínhamos direitos à ribeira onde o lavrador que encomendou a maré do moliço, tivesse mandado descarregar.

Durante o trajecto lá ia comendo mais um naco de boroa, enquanto nós, à proa, íamos escoando alguma água que juntava nas cavernas e dando cabo do resto do farnel. Se o vento não era forte o arrais lá me deixava vir ao leme e isso dava-me um gozo dos diabos. Chegados à ribeira, toca a descarregar a maré numa das margens e para isso colocava-se uma toste pousada no bordo do barco e em terra. Um dos camaradas ia passando o moliço com um engaço, do barco para a toste, enquanto o outro, também com um engaço, o tirava da toste e o ia empilhado em terra, numa pilha com a base às vezes de forma de um quadrado de 2 metros de lado, outras vezes com a base em forma de rectângulo e com cerca de 60 cms de altura. Depois de descarregado o barco e feita a pilha do moliço, havia que a identificar.

Então, se o lavrador que encomendara a maré, sabia ler, espetava-se um pau com um papel onde se havia escrito o nome do comprador. Se o encomendador era analfabeto, então a baliza já podia ser um ramo de tramagueira ou de qualquer outro arbusto, uma pedra, um pau espetado ou ainda 3 ou 4 engaçadas de moliço, colocadas num dos topos da pilha, formando um alto. Estas balizas dependiam um pouco das que tinham as outras marés que estavam ali à volta, havendo sempre o cuidado de se arranjarem balizas diferentes conforme a imaginação sugerida naquele momento.

Por fim procedia-se à lavagem do barco, lançando-se “escodouros” de água para dentro dele e depois com um “lambaz” que era uma espécie de esfregona feita de tiras, limpava-se toda aquela lama até o barco ficar limpinho como um Salão. De regresso a casa passava-se por casa do comprador a identificar-lhe a maré e a dizer-lhe qual a baliza que lhe tínhamos colocado.

Dia após dia, de madrugada, lá voltávamos à mesma faina. Às vezes, quando havia necessidade de fazer duas marés no mesmo dia, íamos dormir para a proa do barco. Nesses dias, procurávamos fazer as marés o mais rápido possível e então tudo o viesse nos ancinhos era aproveitado, isto é, tanto fazia vir moliço como lama, ia tudo para dentro do barco. Por isso, nesses dias em que tínhamos de fazer duas marés, saiamos da ribeira muito cedo, e no percurso até ao rio largo, íamos metendo para a ré do barco alguns braçados de junco, cortado com uma gadanha que andava sempre dentro da proa para o efeito, aproveitando os sítios onde o junco tosse mais jeitoso e mais próximo da margem. Chegados ao rio largo, íamos ainda apanhar “arrolado” que era o moliço seco que andava ao de cima da água e que as marés iam depositando nas margens, mas em muito mais abundância na margem sul visto ser do norte a predominância dos ventos. Então, encostávamos o barco à margem e com um ancinho daqueles utilizados nas eiras, íamos juntando esse “arrolado” e amontoando-o à ré. Esta “palha”, juntamente com o junco eram utilizados para empalhar, isto é, para misturar na lama, permitindo que a maré se fizesse mais rapidamente. Como então disse atrás, nestes dias, aproveitava-se tudo e quando os ancinhos só traziam lama, ia-se juntando “arrolado” e junco e a maré era um tal crescer, e assim, por volta das 10 horas, já estávamos a descarregar na ribeira. Descarregado o barco, voltávamos para o rio a fazer a segunda maré, aproveitando o trajecto até ao rio largo para comermos o reforço do farnel.

Aí chegados, já o vento, norte soprava rijo, então enrolava-se a vela por baixo deixando apenas um pequeno triângulo no topo do mastro. Nessa altura montava-se mais dois ancinhos à proa e mesmo assim, apenas com esse triângulo de vela a arrastar os quatro ancinhos o barco atingia uma tal velocidade que em pouco tempo chegava ao “Arrebentão” que ficava ali onde actualmente se situa a Pousada.

Depois lá tínhamos de vir a “veliar” que era navegar contra o vento e portanto vínhamos aos zigue-zagues, de margem a margem.

Confesso que nessas alturas tinha um certo receio, pois o vento impelia muita água para dentro do barco e eu lá tinha de passar a viagem de escoadouro na mão, além de que, de vez em quando, lá se via um barco de mastro partido ou até virado de fundo para o ar, sendo necessário prestar-lhe auxílio.

Havia no entanto a situação contrária, que era bem mais agradável. Era quando durante a noite se levantava um vento mais moderado que soprava do sudoeste e a que os moliceiros chamavam de mareiro. Esse vento era muito jeitoso, pois nunca soprava com a intensidade do vento norte e permitia levantar mais um mastro pequeno à proa (o mastaréu) com uma vela também de menores dimensões. Assim, as duas velas, permitiam trabalhar com dois ancinhos à ré e outros dois à proa, embora, nestas alturas, eu tivesse um pouco mais de trabalho, pois apesar de se colocar uma toste no bordo contrário aquele donde o vento soprava, isto é, debaixo do vento, era necessário que eu, com uma vara reforçasse o trabalho da toste, não deixando que o barco descaísse, isto é, se mantivesse na rota certa e direita e esse trabalho era bastante penoso porque, em virtude da colocação da toste e dos ancinhos à proa, o espaço de manobra era mais curto. Os moliceiros gostavam muito deste vento e mareiro, porque lhes permitia fazer as marés mais rapidamente e com menos esforço. No regresso à ribeira, recolhia-se o mastaréu e a vela pequena e o barco deslizava a uma boa velocidade porque navegava a favor do vento, isto é, vinha à popa.

Era nestes dias de “mareiro” que, no regresso à ribeira, como vínhamos a navegar à popa, isto é, a favor do vento, o camarada da ré me permitia vir ao leme a conduzir o barco, enquanto ele aproveitava para substituir alguns dentes partidos nos ancinhos. Como disse no princípio desta crónica, esta tarefa dava-me um grande prazer, vir ali armado em arrais, a dominar o leme e a escota da vela.

Porque ainda não o fiz, aproveito agora para descrever o ancinho utilizado na apanha do moliço. Era um objecto constituído por um travessão de madeira, com cerca de metro e meio de comprimento e 5 a 6 cm de altura, encabado a meio numa haste semelhante à vara do barco e com cerca de 30 dentes também de madeira com 10 a 12 cm de altura. Ora estes dentes, de vez em quando partiam e quantos mais faltassem menos moliço os ancinhos traziam. Era então nestas alturas que eu vinha armado em arrais e que deixava ao camarada da ré um pouco de tempo livre, que ele aproveitava para substituir os dentes partidos, aguçando-os com uma “poda”, ao mesmo tempo que ia preparando outros, sobressalentes, que ficavam de reserva para a primeira necessidade. E assim chegávamos à ribeira onde procedíamos à descarga do moliço da forma como já descrevi anteriormente.

Quando principiei esta crónica disse-vos que não gostei nada de andar ao moliço, embora tivesse reconhecido que foi uma experiência muito rica na minha vida e onde vivi alguns episódios de inesquecíveis, dos quais, não resisto à tentação de relatar um deles que mais ficou gravado na minha memória.

No segundo dia que fui para o moliço, depois de comer o pequeno-almoço, senti vontade de aliviar a tripa. Olhei à volta do barco e não deparei com qualquer lugar que me parecesse apropriado para o fazer. Então dirigi-me ao meu padrasto e disse-lhe: – Eu queria fazer caca. O homem riu-se e sempre a rir dirigiu-se ao camarada da ré. – Ó Domingos, temos que voltar para trás que o rapaz quer ca… a bordo. O outro riu-se ainda mais e respondeu: – Ah, ele agora tem que aprender a ca… a bordo. Fiquei um pouco chocado com a linguagem e olhei para o meu padrasto com uma certa angústia. Ele então, vendo a minha atrapalhação, disse-me: – Arreia os calções e faz aí para o rio. Abaixei-me no bordo do barco, com os calções arreados e meio envergonhado e em pouco tempo fiquei aliviado.

O meu padrasto, que se encontrava no outro bordo do barco, atravessou a proa e veio pousar junto de mim um punhado de arrolado. Percebi-lhe a intenção e lá limpei o cu àquela “palha”, ante o riso dos dois camaradas, acabando eu também por rir de gosto. Nos dias que se seguiram, era raro aquele em que não via um cu a reluzir em cima dum bordo dum barco. E pronto, está a maré feita.

Quando me propus escrever esta crónica, foi minha intenção e só essa, dar a conhecer às gerações vindouras desta região ribeirinha e até a algumas pessoas da minha geração como se processava, em pormenor a apanha do moliço a bordo do barco moliceiro, uma actividade desaparecida e que jamais recomeçará nos moldes em que então se processava.

Se consegui aquilo a que me propus, fico deveras satisfeito e altamente recompensado.

quem dera camões se engane


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ESPREITA AQUI – um livro para quem gosta dos moliceiros
acabei de receber e ler, com prazer, os 3 últimos livros de Sérgio Paulo Silva, editados pela Câmara Municipal de Estarreja, dedicados aos painéis dos moliceiros, à arte xávega e ao mercantel

são livros sem quaisquer pretensões de sabedoria, mas em que o amor às coisas da terra se sente em cada página. são 3 declarações de amor em forma de piquenos livros.

o livro dedicado aos painéis dos moliceiros “Espreita Aqui” para além de um breve texto introdutório, recolhe 140 imagens de painéis, com uma impressão de muita qualidade. por apenas 10 euros, pode ser encomendado à Câmara Municipal de Estarreja, que suporta os portes. comprem-no que é memória de amor.

………….

uma nota sobre os livros e um executivo de que gosto cada vez mais

………….

não haverá muitas semanas recebi de Paulo Silva um email, anunciando a publicação dos livros, de que retiro as seguintes linhas:

“Há uns 3 anos, aos bocadinhos, ora no Guedes com o café da manhã, ora na esplanada da Alice esperando que minha mulher aparecesse para irmos para a praia, escrevi três livrinhos que não são mais que a minha memória e o meu olhar para algumas coisas nossas. Foram mostrados na Biblioteca de Estarreja ……..

A coisa para mim não era viável porque, devido ao nº de fotos, seria forçosamente superior às minhas posses. Mas agradou à vereação da CME que tentou a via da Fundação Madureira (gerida em parceria com a CMM). Não deu porque a CMM não avalizou. Ora, a CME avançou a solo. E finalmente estão aí. ……..

Chamam-se O Burro de Carga, sobre o barco mercantel; Espreita Aqui, sobre os painéis dos moliceiros e, finalmente, A Memória Fugidia da Areia, sobre a “nossa” arte xávega. Tudo, repito, não mais que a minha memória e o meu sentir……“

(nota: os sublinhados são meus)

é com tristeza que verifico que o executivo da câmara municipal do coração da ria se recusou a colaborar nestas publicações. a Torreira não deve pertencer à Murtosa, os moliceiros são barcos de outras terras e os mercantéis haja quem se preocupe com eles.

continuo a perguntar pela pátria do moliceiro e como bate o coração da ria. a resposta vem a cada nova notícia.

nem a pátria tem arrais à altura, nem o coração está em grande estado.

camões escreveu, no seu tempo, que “um fraco rei faz fraca a forte gente “, quem dera camões se engane.

cada cavadela uma minhoca (1)


galiza, onde os moliceiros e as companhas?

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o zé rito quando o mastro quebrou no final da regata da ria, em 2014

não há muito tempo, dei uma volta pela página da câmara municipal da murtosa na internet
http://www.cm-murtosa.pt/ e, logo na entrada, nas notícias, encontrei a seguinte referência:

Murtosa destacada na imprensa galega 

http://www.cm-murtosa.pt/templates/genericdetails.aspx?id_object=7551&divname=116s154s4&id_class=4

e a imagem da notícia lá estava, mas lê-la era impossível. contrariamente ao costume neste tipo de publicações, a sua divulgação é acompanhada pelo link da página onde a notícia pode ser lida. mas, numa murtosa moderna isso não se faz: mostra-se um boneco ilegível, diz-se onde foi feita a publicação (escreve-se o nome) e pronto. missão cumprida.

como fiquei satisfeito com a notícia e insatisfeito com o facto de não a poder ler, fui atrás dos jornais em causa: “Faro de Vigo” e “La Opinión – A Coruña”. depois de muito navegar e alguma imaginação encontrei.

Faro de Vigo: http://mas.farodevigo.es/especiales/turismo-galicia-2015?id=2177

La Opinión – A Coruña : http://mas.laopinioncoruna.es/especiales/turismo-galicia-2015?id=2177
http://ocio.laopinioncoruna.es/planes/fin-semana/pla-1878-marea-tradiciones.html

lê-se e entende-se muito bem, custa é a compreender.

é publicidade paga e quem paga tem o dever de exigir, eu, que durante alguns anos dirigi uma revista de âmbito nacional, sei muito bem como funciona este mercado: pago um anúncio e tenho direito a uma página, as condições acordam-se. tudo bem. é investimento e a murtosa merece e precisa.

não sabia, e fiquei a saber é que as comunidades piscatórias da murtosa, são o bunheiro e a torreira, entendem o bunheiro? então e a murtosa? onde ficam o bico e o chegado? foram anexados pelo bunheiro?

fala-se no moliceiro, mas nem uma imagem, uma referência às regatas da ria……

não se fala nas companhas, mas na bandeira azul do monte branco. imaginem se os galegos apanham a maré vazia…..

sabiam que a enguia é a espécie mais popular da pesca na ria? há quantos anos?

numa época em que o turista procura a diferença, a murtosa oferece os espectáculos das companhas, “o mar a trabalhar”, e as 3 regatas anuais de moliceiros que tantos turistas procuram. nem uma palavra sobre isso.

não sei quanto gastou o executivo, mas muito ou pouco, foi mal gasto. se o dessem para ajudar a manter a tradição dos moliceiros à vela …… se o dessem …..

é assim que bate o coração da ria, mal

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o executivo já parte com o mastro neste estado, que esperar dele?

(só uma nota final, não sou a oposição ao executivo camarário, essa função pertence a quem se diz ser, sou apenas um cidadão atento e que gosta da terra e das tradições que lhe couberam em herança)

cada cavadela, cada minhoca


na página da internet da câmara municipal de murtosa encontrei, há dias, esta notícia:

o mestre zé rito a trabalhar (foto da página da cmm)

o mestre zé rito a trabalhar (foto da página da cmm)

Moliceiro em reparação no Museu – Estaleiro da Praia do Monte Branco na Torreira

Quem, por estes dias, visitar o Museu-Estaleiro da Praia do Monte Branco, na Torreira, Murtosa, terá a oportunidade de apreciar o trabalho minucioso de reparação de um barco moliceiro, pelas mãos hábeis do Mestre José Rito. Para além deste trabalho, o Mestre José Rito encontra-se, igualmente, a construir duas novas bateiras.
O Museu-Estaleiro da Praia do Monte Branco, propriedade da Câmara Municipal da Murtosa, é um espaço peculiar de conhecimento e valorização das artes de construção de embarcações tradicionais, assumindo-se como um verdadeiro museu vivo do património marinhão.
No âmbito do protocolo, formalizado em 2009, com a Câmara Municipal, o Mestre José Rito – o único que, actualmente, exerce de forma permanente a arte da construção de moliceiros e bateiras, na área do Concelho da Murtosa – ocupa o espaço do estaleiro, onde executa o trabalho de construção e reparação de barcos, e, mediante a solicitação de escolas e grupos organizados, dá a conhecer os vários aspectos associados à arte que exerce. O Museu-Estaleiro está, de igual modo, aberto a todos aqueles que queiram observar os processos de construção e reparação das embarcações.”

fim de citação ver em:

http://www.cm-murtosa.pt/Templates/GenericDetails.aspx?id_object=7515&divName=116s154s4&id_class=4
ora cá está uma boa notícia que eu divulgo com todo o gosto – não estranhem por favor.

convido, todos os que puderem, a fazerem uma visita ao estaleiro e verem o mestre zé rito a trabalhar, nunca é tempo perdido, fazem-se boas fotografias e aprende-se com quem sabe.

agora só algumas notas – para não estranharem

não pensem que vão ver o mestre a fazer a recuperação do moliceiro dentro do estaleiro – aliás a foto não engana a esse respeito. e não vão ver por uma razão muito simples: não pode.

vão vê-lo a trabalhar no exterior, porque o estaleiro não tem dimensões suficientes para que nele caiba um moliceiro, só dá para bateiras. é um estaleiro virado para o futuro, fala-se de moliceiros mas não se constroem.

registem, dentro do estaleiro, a forma como foi aproveitada a luz natural e nunca mais se esquecerão daquilo de que é capaz a inteligência humana, quando posta ao serviço da ecologia na arquitectura….

quanto ao moliceiro que vão ver em reparação, desenganem-se se pensam que é um barco para navegar na ria, em substituição dos dois que foram vendidos para o turismo de amputados em aveiro. não, é um amputado do turismo de aveiro que veio para ser reparado.

esperanças?

assim se preserva o moliceiro naquela que é a sua pátria, depois queixem-se

o ciclomoliceiro


o cartaz do encontro

o cartaz do encontro

de 6 a 12 de julho, de 2014, decorreu, na murtosa a “X Semana  Europeia do Cicloturismo”.

segundo os dados fornecidos pelo município estiveram presentes 1300 cicloturistas de 12 países, instalados em tendas e roulotes num “mega centro logístico, na Torreira, com mais de 65.000 metros quadrados, que englobou o parque de campismo da Torreira e a área localizada a poente deste.

todos os dias os cicloturistas saíam da torreira, pela rotunda norte, quem vem do mar, para efectuarem o programado para esse dia. houve somente um dia livre.

como se pode ver no cartaz do evento, mesmo ao cimo, um moliceiro. Importante notar que foi o único que os cicloturistas viram durante a sua estadia.

todas as manhãs passei na rotunda, olhei para a ria e …. não havia um moliceiro sequer, varado ou a navegar, para “cicloturista ver”.  nem no dia livre, em que muitos vi a passearem de bicicleta na torreira e em torno da ria, houve qualquer evento com moliceiros.

penso que não foi por não ter havido intenção, mas sim por falta de verbas, outra justificação não encontro, mas mesmo essa difícil de compreender.

é assim na pátria do moliceiro.

ainda hei-de ver um moliceiro com duas rodas e pedais a circular no alcatrão e, então sim, veremos o ciclomoliceiro, inventado na murtosa, a espreitar para a ria com saudades do tempo em que tinha vela e navegava.

modernices murtoseiras e coincidências


da esq. para a direita: manue silva; manuel vieira e zé rito

da esq. para a direita: manuel silva; manuel vieira e zé rito

depois de ter escrito, ontem dia 20 de janeiro de 2015, que na murtosa se deixavam morrer moliceiros – https://ahcravo.wordpress.com/2015/01/20/modernices-murtoseiras/ – e de sobre esta afirmação ter havido, no facebook, quem ironizasse; numa conversa com o Zé Pedro, em torno de comentários a uma foto da regata da ria de 2014, o zé diz-me que os moliceiros do ti manuel vieira (manel valas) estavam vendidos para o turismo de aveiro.

os moliceiros “manuel silva” e “manuel vieira” são mais dois que deixam a vela e vão passar a amputados nos canais de aveiro.

ao longo dos últimos anos têm vindo a ser vendidos moliceiros para o turismo de aveiro, porque os donos não têm capacidade financeira para os manter, nem quem na terra na manda lhes dá qualquer apoio, para além dos prémios das regatas, que não chegam para os custos de manutenção.

já uma vez citei almada negreiros, quando escreve que esta é  “A pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões! “ . se substituirmos “Camões” por “ moliceiros”,  fica um retrato perfeito da região de aveiro “A pátria onde os moliceiros morreram de fome e onde todos enchem a barriga de moliceiros

o tempo passa, mudam os regimes e os mandantes, mas as mentalidades e a mediocridade mantêm-se.

já vi queimar e morrer muito barco nesta terra que se publicita como sendo a “ ria de aveiro um mar experiências” . como diziam os mais antigos, com que aprendi a ser homem, “haja decência senhores, haja decência”

de cabeça e alguns apontamentos aqui ficam alguns dados sobre moliceiros, provavelmente incompletos, a aguardar mais contributos e eventuais correcções de quem tenha mais informação.

Moliceiros tradicionais existentes em 2014

Murtosa

A. Rendeiro
Dos Netos
CM Murtosa
Sermar
Eco Moliceiro

Torreira

Manuel Silva
Zé Rito
Manuel Vieira
Cristina e Sara

Pardilhó

O Amador

Ovar

Pequenito (o único que tem apoio anula da autarquia)

Costa Nova

Pardilhoense (não participa activamente nas regatas, mas acompanha-as)
Marnoto
Inobador

Ílhavo

S. Salvador (não saiu do cais por falta de verba)
Moliceiros vendidos para turismo nos últimos 5 anos

Murtosa

Doroteia Verónica
José António
José Miguel
Reinaldo Belo

Torreira

Ricardo e Sérgio

Ovar

Lameirense
a realidade é esta, o mais podem ser sorrisos irónicos, silêncios cúmplices ou lágrimas de crocodilo, mas são só isso.

para certa gente, o futuro é o esquecimento do passado, infelizes, não sabem que assim se negam a si mesmos e ao próprio futuro.

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(torreira; estaleiro do mestre zé rito)

à conversa com mestre joaquim raimundo ( pai) – conclusão


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À CONVERSA COM MESTRE RAIMUNDO (entrevista de sérgio paulo silva)

….

conclusão

…..

– E eu, e é verdade, ele ainda havia………estaleiros mais importantes, navios para o bacalhau, na Gafanha.

– (M) Os Mónicas.

– Os Mónicas, de norte a sul…

– (M) E traineiras. E fez uma caravela, que a gente foi ao bota-abaixo e ela virou-se, uma caravela muito importante, e ele a chorar, aquele homem !, porque ele sabia que ela ia cair, mas o engenheiro…

– Os mestres sabe mais!

– (M) os mestres sabe mais c’ós engenheiros!

– Têm a práctica.

– (M) Têm a práctica, sabem.

– Pousava pouco na água. E depois, aquela ré muito puxada, muito alta, embora…

– (M) Só esteve para aí um segundo…

– E depois ela foi abaixo. Nunca botou um navio abaixo, pois não? No fim aquilo está tudo engraxadinho, corre a corda abaixo, corta-se-lhe a corda, ela aí vai. Ela chegou, esteve direita um bocadinho, foi daqui muita gente do Bico, naquele tempo, muito marítimo, fomos de barco. Num faltavam barcos…

– (M) Aquilo era uma festa que Deus me livre!

– …uma caravela! Esteve um bocadinho, pronto… Num morreu ninguém. Foi muita gente dentro. Se não estavam lá os botes da capitania…Estava lá tudo, estavam os do Estado…

– Isso em que ano foi?

(Hesitam os dois)

– Foi no tempo do Salazar.

– (M) Nós eramos novos…

– Depois, depois repararam-na outra vez. Foi puxada……um lastro, um peso, um lastro muito pesado, muito pesado para ela se segurar, para ela se poder segurar, que aquilo era uma obra prima, não era como esta que foi agora….muito pesado, como se costuma dizer, que a cabeça pesava mais c’ós pés, caiu p’ró lado.

– (M) Deitou-se!

– Era muito linda, era!

-(M) Foi pr’aí há sessenta anos, que os meus filhos eram pequeninos. O meu filho tem 63 e estamos casados há 65. Deve ter p’raí!…

(Fim da gravação)

ESTAS ENTREVISTAS

Estas entrevistas carecem dum pires de palavras. A que ao escritor Manuel Mendes, faz parte do seu livro Os Ofícios que foi publicado em 1967 na Seara Nova. Foi o estarrejense Olívio Amador que ma assinalou, oferecendo-me a obra.

Sabendo que Manuel Mendes nos tinha deixado há já bastantes anos e da extinção da Seara Nova, tentei junto da Soc. Port. De Autores localizar herdeiros. Como resposta disseram-me que desconheciam o autor! Ainda lhes referi o belíssimo livro que ele tinha escrito, a biografia de Aquilino, escrita em tempos adversos, mas nem assim… Tentei então junto do Engº Aquilino Ribeiro Machado mas, já doente, não me respondeu, sucedendo o mesmo com Urbano Tavares Rodrigues.

Quanto às que eu próprio fiz, faziam (fazem ) parte de um projecto antigo em que tive a ilusão de escrever sobre a Ria, os moliceiros e quanto a eles se ligava.

Volvidos tantos anos de limbo, tenho a lamentar a pobreza de equipamento de que dispunha e não as ter melhorado, na altura, insistindo, massacrando os Mestres. Mas eu trabalhava, ocupava-me, quer na fábrica, quer em casa, demasiadas horas por dia e debatia-me com muitas camisas-de-força que me castravam sonhos e vontades. Mesmo assim alguma coisa terá ficado que poderá aproveitar a quantos se interessem por estas coisas.

Na sua leitura, mesmo que desatenta, salta aos olhos que faço perguntas palermas, umas; perguntas que denotam forte ignorância, outras. Mas obedeciam todas ao mesmo propósito, de levar a água aos moinhos que eu queria.

Ficamos a perceber que os futuros carpinteiros navais ( o que também acontecia em tantas e tão variadas profissões ) iam trabalhar em plena infância e, em vez de receberem um salário, por magro que fosse, ainda tinham que pagar… As biografias de Miguel Torga, de Ferreira de Castro, entre outros, contam-nos como emigraram ainda verdes para o Brasil profundo, para cumprir trabalhos que nada tinham de doce ou de mimoso. Os rapazes pagavam porque estes eram, no tempo, bons empregos, já que os demais eram absorvidos pelas obras e, sobretudo, pela agricultura. Pagavam os pais ou os padrinhos, e tinham que afinar as orelhas e andar ligeiros. “ Para os filhos dos homens que nunca foram meninos…”, dedicou assim o seu Esteiros o escritor Soeiro Pereira Gomes – e estes, os nossos grandes carpinteiros navais, fizeram parte do lote…

Fala-se no pau-de-pontos. Cada Mestre tinha os seus. Cheios de marcas feitas a canivete, tudo correspondendo às diversas medidas requeridas para a construção dos seus barcos. Ao tempo, quem vendia a retalho, tinha um metro de pau. Ia-se comprar panos para fazer roupa e o metro estava marcado no balcão, com dois entalhes feitos a navalha. Mas o pau-de-pontos fala-nos mais fundo. Quem é tinha letras redondas? E metros para medir? Por esses anos dourados dos nossos barcos, a quase totalidade das pessoas envolvidas na sua construção, não sabia ler nem escrever. Metros havia-os, sim, de madeira, desdobráveis, no bolso do Mestre. Mais tarde haveriam de aparecer os mais duradouros, de alumínio e, mais tarde ainda, as fitas métricas mas, já onde ia a construção naval… Fabricantes de móveis, armazenistas, outros, ofereciam-nas como brinde, como outros ofereciam isqueiros ou esferográficas. Ou compravam-se por tuta e meia nas lojas dos trezentos ou nos chineses. Mas, onde ia já a construção naval! A vara de pontos ajustava-se às carências e não dava margem para enganos.

Merece também especial atenção a referência aos serradores. Recordemos que estamos a falar dum tempo em que não havia moto-serras e as serrações com Charriots não moravam por cá. Derrubar um pinheiro multisecular não demorava o tempo de se fumar um cigarro, como hoje demora.

O transporte desses pinheiros merece que a nossa imaginação se espraie… Um desses pinheiros, de que aqui vos deixo imagens, viveu incontáveis anos na curva antes de chegar a Albergaria-a-Nova, quando a estrada era de paralelos, na curva onde agora costumam estar putas à pesca de clientes. Medi-o na base: quase nove metros. Deixei para mais tarde melhores medidas mas, duma semana para a outra, desapareceu sem deixar rasto. Daria boas tábuas, do meio, para fazer nascer um moliceiro, aquele bicho… E derrubá-lo? E trazê-lo para o estaleiro? Os Mestres falam-vos disso. Referem trabalhos do, quer dizer, terríveis. Estradas que nem sequer de paralelos eram, quanto mais de macio alcatrão… As fotografias com que auxilio a vossa imaginação foram tiradas ( a que tem duas juntas e onde se percebe a existência duma terceira ) na estrada onde hoje se situam os transportes TJA e obtive-a por gentileza do António Augusto, a quem Arlindo Cunha a tinha cedido; a outra é do Pinhal de Leiria, de Raúl Gomes Lopes, e foi-me cedida pela minha amiga Engª Graça Domingues, da Plimat (Marinha Grande). Nesta, a suportar os toros, vê-se ao fundo uma estrutura a que se chamava, em Salreu, chideiro, palavra que não encontrei no dicionário e que poderá não ser correcta. Nessa minha aldeia todos chamam robacos aos peixinhos do rio quando, correctamente, deviam dizer ruivacos. Coisas… Por vêzes, para aliviar o gado, usava-se amarrar o toro ao cabeçalho do carro, com correntes, puxando os animais pela ponta do toro, não invalidando a utilização do tal chideiro na traseira, onde era mais pesado.

Resta acrescentar que a Caravela, a que se referia Mestre Raimundo, era a Nau Portugal. Nas páginas do Arquivo do Distrito de Aveiro há um precioso trabalho sobre o acontecimento, suportado por várias fotografias. Tudo o mais fala por si. E agora, como para tudo quanto tenho feito, podem-se bem copiar as palavras de D. Francisco Manuel de Mello ( 1608-1666 ) : “ Da infelicidade da composição, erros da escritura e outras imperfeições da estampa, não há que dizer-vos: vós as vedes, vós as castigai.”

à conversa com mestre joaquim raimundo (pai) – 3


mestre joaquim raimundo cedida pela filha, natalie serra

mestre joaquim raimundo cedida pela filha, natalie serra

À CONVERSA COM MESTRE RAIMUNDO (entrevista de sérgio paulo silva)

continuação

……

– E era isso que conservava o barco, era só para isso?

– Era para conservar, pois.

– Mas só punham isso, não punham mais nada?

– Bem, na construção dava-se sempre antes de começar a pôr o tabuado, depois de ter as cavernas todas, dava-se sempre, que isso em geral eles até pagavam por fora, sempre, também era uma bagatela, um bocado de pingue de carboril misturado com azeite de peixe.

– Azeite de peixe?

– De carapau, daquele que usava naquela altura para pôr no breu, no breu preto e no breu fino, levava azeite de peixe senão era muito seco, não se podia dar…..se pusesse demais pegava-se às mãos, e se fosse de menos era muito seco, o escopeiro, o escopeiro que era o pincel, era feito de lã, de lã de carneiro…

– Ainda hoje se usa isso.

– Pois, pois. Para poder dar o breu, pois. Que eles agora já uso mais os….eu já tenho visto barcos pintados aí, barcos novos, os moliceiros, já não põem o breu, o pez louro, fino. Pinto-os à tinta, agora por cima, para caminhar, tanto na proa, para andar em cima, como nos bordos, tem que ser desse breu e com uma farinhazinha, farinha de madeira, de pinheiro, para não escorregar.

– Serrim…

-Sim, pois, para não escorregar. A gente guardava sempre no verão. Isso não faltava aí, para ter seca de inverno. Os serradores faziam muita farinha.

– E as pinturas? Quando você era miúdo já existiam as pinturas nas proas dos barcos?

– Já, já, isso já vinha do tempo do meu visavô, isso já vinha de toda a vida. Que os barcos antigamente eram muito mais baixos de proa. Não eram tão bonitos. Depois foram indo, foram indo, então o meu avô já foi indo, depois o meu pai mais, e eu ainda mais mas depois também chegou uma certa altura que eu disse : agora está aí, não pode haver melhor, não pode ser mais bonito. Mesmo os donos diziam “ Oh Sr. Joaquim, mais um bocadinho, eles também pediam, não é

– E porque é que os próprios que os utilizavam no moliço queriam que eles fossem mais altos de proa?

– Pois não sei. Para ser mais bonitos ou sei lá…

– Mais bonitos ou para andar melhor à vara?

– Por acaso até quanto mais arrebitados fosse mais custava a subir para botar à vara, quanto mais arrebitados fossem mais se subia, lá para cima.

-Você tem aqui no seu livro de registos, você tem que guardar isto sempre,…

– Pois, eu guardo.

– Isto foi quando começou a trabalhar por conta própria?

– Foi, pois.

– Desde pequeno…não estão aqui aqueles que fez a trabalhar com o seu pai…

– Ah, pois não. Desde o primeiro, quantos eu ajudei a fazer? Ui, ui !…

– Diz aqui: “Principiei em Abril de 1933”…

– E trinta e três…

– E começou a fazer um barco mercantel de 25…..para João…

– João da Albina. Dois contos e seiscentos.

– Custou naquele tempo.

– Pois, um barco mercantel. Que era quase sempre aproximadamente o dobro dum moliceiro. Hoje um moliceiro custa 1.500 contos, que é o que o meu sobrinho tem feito; eram agora precisos 3.000 contos para um barco mercantel.

– Depois fez a seguir um de 27. Isto de 27 o que é?

– Vinte e sete cavernas, era maior. Havia de vinte e cinco e vinte e sete.

– Para Agostinho Tróia.

– É verdade, tinha vindo da América.

– 2.800…

– É verdade, tinha vindo da América no tempo da crise, não havia trabalho e ele mandou fazer um mercantel, que era a arte dele.

– E depois fez um barco moliceiro para José Ribau…

– É verdade, também tinha vindo da América no tempo da crise.

– 1.550…

– Já ia a subir, já…

– Já estava a subir. Ia muito devagarinho. Ia muito lentamente.

– A seguir fez outro e levou mais cem escudos, naquele tempo…! Para Manuel Carlos.

– Também veio da América. Veio muitos, muitos nessa altura, não havia lá trabalho e eles vieram embora.

– Uma bateira mercantela. Não é a mesma coisa que um mercantel…

– É mais ou menos o mesmo feitio, mas não é… já não tem os bordos de andar por cima. Isso era para a Torreira. Levava uma falca alta, depois não se podia andar por cima porque tinha mais ou menos esta grossura, não se podia andar por cima dela, depois levava umas pranchas ò través e umas tábuas ò comprido para eles andar. Por dentro da falca é que caminhavam.

-Uma caçadeira de 10 para António Maria Amador…

– Dez cavernas.

– Cento e noventa escudos…

– Pois.

– Era como essas bateiras que se usam agora?

– P’rá pesca.

– P’rá pesca?

– P’rá pesca essas bateirinhas pequenas, cento e noventa escudos.

– E depois vai por aqui fora. Qual foi o seu record assim a trabalhar por ano?

– O que eu fiz mais foi 13 moliceiros, se não estou em erro, 3 mercanteis e 5 bateiras.

– Num ano só?

– Só num ano.

– Mas tinha pessoal a trabalhar por sua conta…

– Pois tinha, tinha. Mas nunca tinha muitos operários, nunca tive mais que três operários, fora serradores. Esses trabalhavam pr’ós estaleiros todos . Eu não era capaz…eu não era capaz de sustentar um serrador.

– Pois!

– Serrava as tábuas e depois iam para os outros, esses serravam para quem tivesse necessidade, pr’ó meu pai, pr’ós outros, pr’ós fregueses.

– Depois ainda trabalhou em 1959. É o último ano que tem aqui de registo.

– É. Depois fui para a América em 60.

– Em sessenta…

– O trabalhar foi aqui. Lá foi só oito anos e meio.

– E depois, quando voltou, nunca mais pegou na arte…

– Não! Não!

– Acabou porquê?

– Pois. Então eu vinha da América outra vez agarrar-me à arte?! Desmanchei o estaleiro, mandei fazer a garagem para pôr o carro.

– E agora já não tem nenhum. Aqui à sua beira havia tantos estaleiros e não há um único!

– É verdade, havia ali um, logo ali à direita quem bate na estrada que vem de Estarreja à Murtosa.

– Pardelhas?…

– Esta estrada que vai dar ali saída da …

– Santa Luzia?…

– Quem corta para a esquerda, que ainda lá está um neto, filho duma prima minha, que é o Àlvaro, está lá com um café…

– Tem uma loginha, tem um café…

– Exactamente. Lá era o estaleiro do avô dele, o irmão do meu pai, José Raimundo.

– Porque é que lhe chamam Raimundo se você não é Raimundo de Graça?

– Já, já… e vem do meu bisavô que esse era Agostinho Raimundo de nome. E depois chamavam José Luís Raimundo ao meu avô, que ele era José Luís Henriques. O Raimundo era de alcunha, não é…

– Ah! Raimundo é alcunha…

– Porque Henriques há muitos. E na Murtosa se perguntar por Joaquim Raimundo sou só eu. Era o meu pai e eu e o meu filho. Eram três. Agora estou só eu. E Henriques, há muitos Henriques, Joaquim Henriques lá para Pardilhó ou……fica tudo de boca aberta, não são capazes de dizer que sou eu. Se for Joaquim Raimundo isso no concelho todo num há, tudo me conhece, tudo, tudo, pelas Quintas, pela Torreira, às vêzes eu tenho de perguntar quem eles são porque eu não os conheço, gente nova.

– Então e a maior parte desta gente que aqui está, que foram seus clientes, estes que estão aqui registados no livro, esta gente já quase…

– Agora desde piqueno eu quantos barcos eu ajudei a fazer e a pintar, ui Jesus! Até aos 23 anos.

– E aquele símbolo na ré do barco?

– É no leme.

– É no leme. Cada construtor tinha a sua divisa?

– Pois. O meu pai era um triângulo completamente. Muito fácil. Ou pintado de vermelho ou de verde. O pessoal, os marítimos olhavam para o barco e já sabiam que era do Joaquim Raimundo. O meu tio Júlio, esse herdou o do meu avô.

– Essas divisas ou se faziam ou herdavam-se?

– Atravessou o, o … pelo que o meu avô deixou de trabalhar, num podia, e o meu tio Júlio, que era a seguir ò meu pai, ficou lá sempre em casa. Levava, por exemplo, um…através…um leme assim, e assim, mais ou menos, assim isto, pintado em branco, e depois aos cantinhos verdes e vermelhos, verdes e vermelhos, cada um estudava a sua. E depois eu lembrei-me da minha, para ser diferente de todas, desenhei esta, que era a mais bonita de todas. Que depois mais tarde que até eu deixei de fazer, até os Garridos de Salreu também, que havia lá dois, principalmente um que fazia moliceiros, José Luciano Garrido, não se recorda?

– No esteiro?

– Sim, não se recorda?

– Não. José Luciano Garrido, não me lembro. Ainda lá vivem Garridos no esteiro…

– Pois, é família.

– Pois, ainda têm, ainda hoje vendem lá sal…

– É família!

– Ainda têm negócios antigos…

– Ele tinha um filho na Venezuela também, que foi para a Venezuela, que chegou a estar aqui comigo, mais um rapaz de Salreu que está aqui casado com uma parenta minha. Vem cá todos os anos do Brasil, que é filho…

– (M) Ele chama-se José Nunes da Silva.

– E o pai era empregado nos caminhos de ferro, ainda é vivo. Até foi operado à vista já aqui há anos e vem estar, agora não sei que ele agora é frio, mas à tarde no cruzeiro, assentar-se ali com uns amigos…

– (M) Está lá, está! Que ele mora lá diante, um bocado.

– Lá diante, para baixo…

– (M) Conhece um filho dele que está no Brasil? A sogra dele era minha prima…É dono daquele prédio, à direita.

– Somos muito amigos, como irmãos. Ele vem cá todos os anos. Para embarcações de ria era o meu, era o número um. Não é por ser meu pai. E era! Depois eu é que o ultrapassei. Fui o único. Ainda fazia melhor que ele. Ele ia ficando mais velhote e…

– (M) Ele morreu novo, também. Morreu com 71 anos.

divisa do mestre raimundo

divisa do mestre raimundo

à conversa com mestre joaquim raimundo (novo) – 1


mestre joaquim raimundo "novo"

mestre joaquim raimundo “novo”

verão de 2012, numa manhã à sombra do estaleiro do mestre zé rito, na torreira, etelvina almeida conversa com mestre joaquim raimundo.

a partir do volume dos “estudos etnográficos” de d. josé de castro, relativo a aveiro, fascículo “moliceiros”, mestre joaquim raimundo fala de barcos – moliceiros, mercantéis, matolas, bichanas, caçadeiras …. – da família, da arte, das gentes e dos tempos, das terras, dos usos…. da vida.

a conversa prolongou-se por largos minutos, este será o primeiro vídeo desta nova série

linhagem do mestre joaquim raimundo “novo”, segundo o próprio:

“Mestre Joaquim Maria da Silva Henriques (Murtosa, 1933, conhecido por Joaquim Raimundo “Novo”), New Jersey, U.S.A.

Mestre Joaquim Maria Henriques (pai, Murtosa,1909/2005,conhecido por Joaquim Raimundo “velho”)

Mestre Américo Raimundo (tio, tinha estaleiro no Bico)

Mestre José Maria Henriques (tio, tinha estaleiro em Veiros – Santa Luzia)

Mestre Júlio Raimundo (tio, tinha estaleiro na rua de Sto. Estevao, Murtosa)

Mestre Israel Raimundo (primo, filho de Júlio Raimundo, ficou com o estaleiro do pai em Sto. Estevão.)

Mestre José Luís Henriques (avô)

Mestre Agostinho Raimundo (bisavô)”

(obrigado a natalie serra, irmã mais nova do mestre joaquim raimundo, pela colaboração)

o vídeo