à conversa com mestre joaquim raimundo (pai) – 3


mestre joaquim raimundo cedida pela filha, natalie serra

mestre joaquim raimundo cedida pela filha, natalie serra

À CONVERSA COM MESTRE RAIMUNDO (entrevista de sérgio paulo silva)

continuação

……

– E era isso que conservava o barco, era só para isso?

– Era para conservar, pois.

– Mas só punham isso, não punham mais nada?

– Bem, na construção dava-se sempre antes de começar a pôr o tabuado, depois de ter as cavernas todas, dava-se sempre, que isso em geral eles até pagavam por fora, sempre, também era uma bagatela, um bocado de pingue de carboril misturado com azeite de peixe.

– Azeite de peixe?

– De carapau, daquele que usava naquela altura para pôr no breu, no breu preto e no breu fino, levava azeite de peixe senão era muito seco, não se podia dar…..se pusesse demais pegava-se às mãos, e se fosse de menos era muito seco, o escopeiro, o escopeiro que era o pincel, era feito de lã, de lã de carneiro…

– Ainda hoje se usa isso.

– Pois, pois. Para poder dar o breu, pois. Que eles agora já uso mais os….eu já tenho visto barcos pintados aí, barcos novos, os moliceiros, já não põem o breu, o pez louro, fino. Pinto-os à tinta, agora por cima, para caminhar, tanto na proa, para andar em cima, como nos bordos, tem que ser desse breu e com uma farinhazinha, farinha de madeira, de pinheiro, para não escorregar.

– Serrim…

-Sim, pois, para não escorregar. A gente guardava sempre no verão. Isso não faltava aí, para ter seca de inverno. Os serradores faziam muita farinha.

– E as pinturas? Quando você era miúdo já existiam as pinturas nas proas dos barcos?

– Já, já, isso já vinha do tempo do meu visavô, isso já vinha de toda a vida. Que os barcos antigamente eram muito mais baixos de proa. Não eram tão bonitos. Depois foram indo, foram indo, então o meu avô já foi indo, depois o meu pai mais, e eu ainda mais mas depois também chegou uma certa altura que eu disse : agora está aí, não pode haver melhor, não pode ser mais bonito. Mesmo os donos diziam “ Oh Sr. Joaquim, mais um bocadinho, eles também pediam, não é

– E porque é que os próprios que os utilizavam no moliço queriam que eles fossem mais altos de proa?

– Pois não sei. Para ser mais bonitos ou sei lá…

– Mais bonitos ou para andar melhor à vara?

– Por acaso até quanto mais arrebitados fosse mais custava a subir para botar à vara, quanto mais arrebitados fossem mais se subia, lá para cima.

-Você tem aqui no seu livro de registos, você tem que guardar isto sempre,…

– Pois, eu guardo.

– Isto foi quando começou a trabalhar por conta própria?

– Foi, pois.

– Desde pequeno…não estão aqui aqueles que fez a trabalhar com o seu pai…

– Ah, pois não. Desde o primeiro, quantos eu ajudei a fazer? Ui, ui !…

– Diz aqui: “Principiei em Abril de 1933”…

– E trinta e três…

– E começou a fazer um barco mercantel de 25…..para João…

– João da Albina. Dois contos e seiscentos.

– Custou naquele tempo.

– Pois, um barco mercantel. Que era quase sempre aproximadamente o dobro dum moliceiro. Hoje um moliceiro custa 1.500 contos, que é o que o meu sobrinho tem feito; eram agora precisos 3.000 contos para um barco mercantel.

– Depois fez a seguir um de 27. Isto de 27 o que é?

– Vinte e sete cavernas, era maior. Havia de vinte e cinco e vinte e sete.

– Para Agostinho Tróia.

– É verdade, tinha vindo da América.

– 2.800…

– É verdade, tinha vindo da América no tempo da crise, não havia trabalho e ele mandou fazer um mercantel, que era a arte dele.

– E depois fez um barco moliceiro para José Ribau…

– É verdade, também tinha vindo da América no tempo da crise.

– 1.550…

– Já ia a subir, já…

– Já estava a subir. Ia muito devagarinho. Ia muito lentamente.

– A seguir fez outro e levou mais cem escudos, naquele tempo…! Para Manuel Carlos.

– Também veio da América. Veio muitos, muitos nessa altura, não havia lá trabalho e eles vieram embora.

– Uma bateira mercantela. Não é a mesma coisa que um mercantel…

– É mais ou menos o mesmo feitio, mas não é… já não tem os bordos de andar por cima. Isso era para a Torreira. Levava uma falca alta, depois não se podia andar por cima porque tinha mais ou menos esta grossura, não se podia andar por cima dela, depois levava umas pranchas ò través e umas tábuas ò comprido para eles andar. Por dentro da falca é que caminhavam.

-Uma caçadeira de 10 para António Maria Amador…

– Dez cavernas.

– Cento e noventa escudos…

– Pois.

– Era como essas bateiras que se usam agora?

– P’rá pesca.

– P’rá pesca?

– P’rá pesca essas bateirinhas pequenas, cento e noventa escudos.

– E depois vai por aqui fora. Qual foi o seu record assim a trabalhar por ano?

– O que eu fiz mais foi 13 moliceiros, se não estou em erro, 3 mercanteis e 5 bateiras.

– Num ano só?

– Só num ano.

– Mas tinha pessoal a trabalhar por sua conta…

– Pois tinha, tinha. Mas nunca tinha muitos operários, nunca tive mais que três operários, fora serradores. Esses trabalhavam pr’ós estaleiros todos . Eu não era capaz…eu não era capaz de sustentar um serrador.

– Pois!

– Serrava as tábuas e depois iam para os outros, esses serravam para quem tivesse necessidade, pr’ó meu pai, pr’ós outros, pr’ós fregueses.

– Depois ainda trabalhou em 1959. É o último ano que tem aqui de registo.

– É. Depois fui para a América em 60.

– Em sessenta…

– O trabalhar foi aqui. Lá foi só oito anos e meio.

– E depois, quando voltou, nunca mais pegou na arte…

– Não! Não!

– Acabou porquê?

– Pois. Então eu vinha da América outra vez agarrar-me à arte?! Desmanchei o estaleiro, mandei fazer a garagem para pôr o carro.

– E agora já não tem nenhum. Aqui à sua beira havia tantos estaleiros e não há um único!

– É verdade, havia ali um, logo ali à direita quem bate na estrada que vem de Estarreja à Murtosa.

– Pardelhas?…

– Esta estrada que vai dar ali saída da …

– Santa Luzia?…

– Quem corta para a esquerda, que ainda lá está um neto, filho duma prima minha, que é o Àlvaro, está lá com um café…

– Tem uma loginha, tem um café…

– Exactamente. Lá era o estaleiro do avô dele, o irmão do meu pai, José Raimundo.

– Porque é que lhe chamam Raimundo se você não é Raimundo de Graça?

– Já, já… e vem do meu bisavô que esse era Agostinho Raimundo de nome. E depois chamavam José Luís Raimundo ao meu avô, que ele era José Luís Henriques. O Raimundo era de alcunha, não é…

– Ah! Raimundo é alcunha…

– Porque Henriques há muitos. E na Murtosa se perguntar por Joaquim Raimundo sou só eu. Era o meu pai e eu e o meu filho. Eram três. Agora estou só eu. E Henriques, há muitos Henriques, Joaquim Henriques lá para Pardilhó ou……fica tudo de boca aberta, não são capazes de dizer que sou eu. Se for Joaquim Raimundo isso no concelho todo num há, tudo me conhece, tudo, tudo, pelas Quintas, pela Torreira, às vêzes eu tenho de perguntar quem eles são porque eu não os conheço, gente nova.

– Então e a maior parte desta gente que aqui está, que foram seus clientes, estes que estão aqui registados no livro, esta gente já quase…

– Agora desde piqueno eu quantos barcos eu ajudei a fazer e a pintar, ui Jesus! Até aos 23 anos.

– E aquele símbolo na ré do barco?

– É no leme.

– É no leme. Cada construtor tinha a sua divisa?

– Pois. O meu pai era um triângulo completamente. Muito fácil. Ou pintado de vermelho ou de verde. O pessoal, os marítimos olhavam para o barco e já sabiam que era do Joaquim Raimundo. O meu tio Júlio, esse herdou o do meu avô.

– Essas divisas ou se faziam ou herdavam-se?

– Atravessou o, o … pelo que o meu avô deixou de trabalhar, num podia, e o meu tio Júlio, que era a seguir ò meu pai, ficou lá sempre em casa. Levava, por exemplo, um…através…um leme assim, e assim, mais ou menos, assim isto, pintado em branco, e depois aos cantinhos verdes e vermelhos, verdes e vermelhos, cada um estudava a sua. E depois eu lembrei-me da minha, para ser diferente de todas, desenhei esta, que era a mais bonita de todas. Que depois mais tarde que até eu deixei de fazer, até os Garridos de Salreu também, que havia lá dois, principalmente um que fazia moliceiros, José Luciano Garrido, não se recorda?

– No esteiro?

– Sim, não se recorda?

– Não. José Luciano Garrido, não me lembro. Ainda lá vivem Garridos no esteiro…

– Pois, é família.

– Pois, ainda têm, ainda hoje vendem lá sal…

– É família!

– Ainda têm negócios antigos…

– Ele tinha um filho na Venezuela também, que foi para a Venezuela, que chegou a estar aqui comigo, mais um rapaz de Salreu que está aqui casado com uma parenta minha. Vem cá todos os anos do Brasil, que é filho…

– (M) Ele chama-se José Nunes da Silva.

– E o pai era empregado nos caminhos de ferro, ainda é vivo. Até foi operado à vista já aqui há anos e vem estar, agora não sei que ele agora é frio, mas à tarde no cruzeiro, assentar-se ali com uns amigos…

– (M) Está lá, está! Que ele mora lá diante, um bocado.

– Lá diante, para baixo…

– (M) Conhece um filho dele que está no Brasil? A sogra dele era minha prima…É dono daquele prédio, à direita.

– Somos muito amigos, como irmãos. Ele vem cá todos os anos. Para embarcações de ria era o meu, era o número um. Não é por ser meu pai. E era! Depois eu é que o ultrapassei. Fui o único. Ainda fazia melhor que ele. Ele ia ficando mais velhote e…

– (M) Ele morreu novo, também. Morreu com 71 anos.

divisa do mestre raimundo

divisa do mestre raimundo

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s