à conversa com mestre joaquim raimundo ( pai) – conclusão


mestre joaquim raimundo "o velho"_foto de sérgio paulo silva

mestre joaquim raimundo “o velho”_foto de sérgio paulo silva

À CONVERSA COM MESTRE RAIMUNDO (entrevista de sérgio paulo silva)

….

conclusão

…..

– E eu, e é verdade, ele ainda havia………estaleiros mais importantes, navios para o bacalhau, na Gafanha.

– (M) Os Mónicas.

– Os Mónicas, de norte a sul…

– (M) E traineiras. E fez uma caravela, que a gente foi ao bota-abaixo e ela virou-se, uma caravela muito importante, e ele a chorar, aquele homem !, porque ele sabia que ela ia cair, mas o engenheiro…

– Os mestres sabe mais!

– (M) os mestres sabe mais c’ós engenheiros!

– Têm a práctica.

– (M) Têm a práctica, sabem.

– Pousava pouco na água. E depois, aquela ré muito puxada, muito alta, embora…

– (M) Só esteve para aí um segundo…

– E depois ela foi abaixo. Nunca botou um navio abaixo, pois não? No fim aquilo está tudo engraxadinho, corre a corda abaixo, corta-se-lhe a corda, ela aí vai. Ela chegou, esteve direita um bocadinho, foi daqui muita gente do Bico, naquele tempo, muito marítimo, fomos de barco. Num faltavam barcos…

– (M) Aquilo era uma festa que Deus me livre!

– …uma caravela! Esteve um bocadinho, pronto… Num morreu ninguém. Foi muita gente dentro. Se não estavam lá os botes da capitania…Estava lá tudo, estavam os do Estado…

– Isso em que ano foi?

(Hesitam os dois)

– Foi no tempo do Salazar.

– (M) Nós eramos novos…

– Depois, depois repararam-na outra vez. Foi puxada……um lastro, um peso, um lastro muito pesado, muito pesado para ela se segurar, para ela se poder segurar, que aquilo era uma obra prima, não era como esta que foi agora….muito pesado, como se costuma dizer, que a cabeça pesava mais c’ós pés, caiu p’ró lado.

– (M) Deitou-se!

– Era muito linda, era!

-(M) Foi pr’aí há sessenta anos, que os meus filhos eram pequeninos. O meu filho tem 63 e estamos casados há 65. Deve ter p’raí!…

(Fim da gravação)

ESTAS ENTREVISTAS

Estas entrevistas carecem dum pires de palavras. A que ao escritor Manuel Mendes, faz parte do seu livro Os Ofícios que foi publicado em 1967 na Seara Nova. Foi o estarrejense Olívio Amador que ma assinalou, oferecendo-me a obra.

Sabendo que Manuel Mendes nos tinha deixado há já bastantes anos e da extinção da Seara Nova, tentei junto da Soc. Port. De Autores localizar herdeiros. Como resposta disseram-me que desconheciam o autor! Ainda lhes referi o belíssimo livro que ele tinha escrito, a biografia de Aquilino, escrita em tempos adversos, mas nem assim… Tentei então junto do Engº Aquilino Ribeiro Machado mas, já doente, não me respondeu, sucedendo o mesmo com Urbano Tavares Rodrigues.

Quanto às que eu próprio fiz, faziam (fazem ) parte de um projecto antigo em que tive a ilusão de escrever sobre a Ria, os moliceiros e quanto a eles se ligava.

Volvidos tantos anos de limbo, tenho a lamentar a pobreza de equipamento de que dispunha e não as ter melhorado, na altura, insistindo, massacrando os Mestres. Mas eu trabalhava, ocupava-me, quer na fábrica, quer em casa, demasiadas horas por dia e debatia-me com muitas camisas-de-força que me castravam sonhos e vontades. Mesmo assim alguma coisa terá ficado que poderá aproveitar a quantos se interessem por estas coisas.

Na sua leitura, mesmo que desatenta, salta aos olhos que faço perguntas palermas, umas; perguntas que denotam forte ignorância, outras. Mas obedeciam todas ao mesmo propósito, de levar a água aos moinhos que eu queria.

Ficamos a perceber que os futuros carpinteiros navais ( o que também acontecia em tantas e tão variadas profissões ) iam trabalhar em plena infância e, em vez de receberem um salário, por magro que fosse, ainda tinham que pagar… As biografias de Miguel Torga, de Ferreira de Castro, entre outros, contam-nos como emigraram ainda verdes para o Brasil profundo, para cumprir trabalhos que nada tinham de doce ou de mimoso. Os rapazes pagavam porque estes eram, no tempo, bons empregos, já que os demais eram absorvidos pelas obras e, sobretudo, pela agricultura. Pagavam os pais ou os padrinhos, e tinham que afinar as orelhas e andar ligeiros. “ Para os filhos dos homens que nunca foram meninos…”, dedicou assim o seu Esteiros o escritor Soeiro Pereira Gomes – e estes, os nossos grandes carpinteiros navais, fizeram parte do lote…

Fala-se no pau-de-pontos. Cada Mestre tinha os seus. Cheios de marcas feitas a canivete, tudo correspondendo às diversas medidas requeridas para a construção dos seus barcos. Ao tempo, quem vendia a retalho, tinha um metro de pau. Ia-se comprar panos para fazer roupa e o metro estava marcado no balcão, com dois entalhes feitos a navalha. Mas o pau-de-pontos fala-nos mais fundo. Quem é tinha letras redondas? E metros para medir? Por esses anos dourados dos nossos barcos, a quase totalidade das pessoas envolvidas na sua construção, não sabia ler nem escrever. Metros havia-os, sim, de madeira, desdobráveis, no bolso do Mestre. Mais tarde haveriam de aparecer os mais duradouros, de alumínio e, mais tarde ainda, as fitas métricas mas, já onde ia a construção naval… Fabricantes de móveis, armazenistas, outros, ofereciam-nas como brinde, como outros ofereciam isqueiros ou esferográficas. Ou compravam-se por tuta e meia nas lojas dos trezentos ou nos chineses. Mas, onde ia já a construção naval! A vara de pontos ajustava-se às carências e não dava margem para enganos.

Merece também especial atenção a referência aos serradores. Recordemos que estamos a falar dum tempo em que não havia moto-serras e as serrações com Charriots não moravam por cá. Derrubar um pinheiro multisecular não demorava o tempo de se fumar um cigarro, como hoje demora.

O transporte desses pinheiros merece que a nossa imaginação se espraie… Um desses pinheiros, de que aqui vos deixo imagens, viveu incontáveis anos na curva antes de chegar a Albergaria-a-Nova, quando a estrada era de paralelos, na curva onde agora costumam estar putas à pesca de clientes. Medi-o na base: quase nove metros. Deixei para mais tarde melhores medidas mas, duma semana para a outra, desapareceu sem deixar rasto. Daria boas tábuas, do meio, para fazer nascer um moliceiro, aquele bicho… E derrubá-lo? E trazê-lo para o estaleiro? Os Mestres falam-vos disso. Referem trabalhos do, quer dizer, terríveis. Estradas que nem sequer de paralelos eram, quanto mais de macio alcatrão… As fotografias com que auxilio a vossa imaginação foram tiradas ( a que tem duas juntas e onde se percebe a existência duma terceira ) na estrada onde hoje se situam os transportes TJA e obtive-a por gentileza do António Augusto, a quem Arlindo Cunha a tinha cedido; a outra é do Pinhal de Leiria, de Raúl Gomes Lopes, e foi-me cedida pela minha amiga Engª Graça Domingues, da Plimat (Marinha Grande). Nesta, a suportar os toros, vê-se ao fundo uma estrutura a que se chamava, em Salreu, chideiro, palavra que não encontrei no dicionário e que poderá não ser correcta. Nessa minha aldeia todos chamam robacos aos peixinhos do rio quando, correctamente, deviam dizer ruivacos. Coisas… Por vêzes, para aliviar o gado, usava-se amarrar o toro ao cabeçalho do carro, com correntes, puxando os animais pela ponta do toro, não invalidando a utilização do tal chideiro na traseira, onde era mais pesado.

Resta acrescentar que a Caravela, a que se referia Mestre Raimundo, era a Nau Portugal. Nas páginas do Arquivo do Distrito de Aveiro há um precioso trabalho sobre o acontecimento, suportado por várias fotografias. Tudo o mais fala por si. E agora, como para tudo quanto tenho feito, podem-se bem copiar as palavras de D. Francisco Manuel de Mello ( 1608-1666 ) : “ Da infelicidade da composição, erros da escritura e outras imperfeições da estampa, não há que dizer-vos: vós as vedes, vós as castigai.”

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