à conversa com mestre joaquim raimundo (pai) 2


mestre joaquim raimundo, foto de natalie serra, editada por ahcravo gorim

mestre joaquim raimundo, foto de natalie serra, editada por ahcravo gorim

À CONVERSA COM MESTRE RAIMUNDO (entrevista de sérgio paulo silva)

continuação

…………..

– A costeira da Espanhola.

– Pois, lá atrás, a gente parou ali um bocado à sombra, nas árvores, arrumadinhos até vir pessoal…vinha muito pessoal de Salreu naquele tempo buscar o moliço ò cais de Estarreja. Agora aquilo não custou nada, foi mais uma voltinha. Mas eu pagava, mas o homem não quiz nada. Vi lá vir um lavrador e eu fui disse “ fazia favor”, pedia, a gente trazia sempre uma corda a mais, dava-me aqui um esticãozinho lá até cima. Engatou-se-lhe a corda ò cabeçalho do nosso pinheiro, do nosso lado, à traseira do carro dele, as quatro sempre a andar por ali a cima. Aquilo também era… elas chegavam a arrancar com pinheiros também grandes mas aquele era demais, era pesado a mais. O mais, depois de estar na estrada, depois para cá, não havia mais subidas, não havia mais nada, era sempre a andar por aí abaixo. E de lá de Salreu, de Soutelo também era sempre a descer para baixo, não havia novidade. E quando ia buscar dois pinheiros, dois bordos, também era sempre só uma junta porque p’rós bordos do barco do barco é preciso sempre dois pinheiros, um pr’ás cintas, uns chamavam cintas, outros bordos, do lado, que é onde se caminha por cima deles, não é verdade?, e um para o lado de dentro rachado ao meio dava as duas dragas, chamavam-se dragas e os de fora chamavam-se bordos. Também rachado ao meio. Levavam três fios certos de alto a baixo, de cada lado, porque as pontinhas começavam só com esta grossura e quando chegasse ao meio já tinham esta grossura porque você vê andar a fazer uma estrada para andar a passear por cima a botar à vara. Ia engrossando, engrossando e depois começava outra vez a diminuir.

– E esses pinheiros, como não havia moto-serras, como é que vocês os serravam?

– Nada, nada. Eram serradores de Pardilhó. Havia lá muitos serradores, muitos. Não era só para Pardilhó. Havia lá muitos, muitos nem serravam porque a construção naval, naquele tempo os artistas de Pardilhó iam lá muito pr’ó Barreiro, lá para aqueles lados que era para…esquece-me agora o nome…

– Setúbal?…

– Não. Também Setúbal. Porque o transporte dos vinhos e lenha era tudo exactamente como aqui. Não havia camionetas. Era tudo transportado em barcos. Aqui eram os barcos mercanteis, sal, lenha e… lá para cima, para a Ponte da Rata, Àgueda, carregavam lenha e vinham descarregar aqui aos cais e de depois os carros das vacas a carregar um carro de cada vez para os armazéns, achas mais ou menos deste tamanho. Depois cada um ia comprar as suas achas. Naquele tempo não havia gaz, era tudo a lenha, não havia gaz, já está a ver a lenha que se gastava e depois, o que eu ia para dizer, e lá eram os tais varinos e fragatas, chamava-se varinos e fragatas que rem desenhados para ser um barco de mar, eram então construídos por essa gente de Pardilhó. Eles faziam-se muitos em Pardilhó também. E depois saiam pela barra e iam pelo mar, sempre, até entrar na barra de Lisboa. Também iam daqui muitos feitos…

– Feitos aqui em Pardilhó?

– Em Pardilhó, muitos…

– Tanto Varinos como Fragatas?

– …Como Fragatas. Muitos!…

– Quantos estaleiros é que havia em Pardilhó?

– Ai disso é que eu não sou capaz de dizer, de Fragatas, agora assim dos estaleiros mais piquenos, dos nossos, havia poucos. Para barcos moliceiros e mercanteis a Murtosa é que era o fixe…

– Era o forte.

– Era o forte. Lá era fragatas, navios, varinos… Fazia-se muita coisa lá.

– E depois, esses serradores serravam as tábuas…

– As tábuas… Ainda tenho três serras. Tinha cinco mas duas também já foram, também para Ílhavo, para o museu. Eu também serrava. Cavername. Eu sei serrar. Cavacar de toda a maneira, enxó, plaina, tudo. Ainda aí tenho ferramenta. Empranchava-o, tínhamos uma prancha grande para o homem andar de pé a puxar pela serra, tinha macaco para levar os paus, os pinheiros lá para cima, tinha umas forcadas muito seguras, pranchão, a prancha era muito segura, firme, não corria nem para um lado nem para o outro…..trilhada com um cadeado, uma panca…

– Depois as tábuas tinham que secar quanto tempo?

– Era conforme. De verão secavam muito menos tempo. É…

– Mas deixavam-nas a secar dum ano para o outro?

– Não. A gente ia secando e….olhe, eram postas assim, para se segurar em arco assim, você põe isto assim, não põe?, você faz um arco nisto, nem para um lado, nem para o outro.

– Pois. Estando direito, cai. Estando em arco já não cai…

– Está a ver aqui do muro da minha eira sempre ao comprido, sempre com o estaleiro até lá…

– Mas depois ficavam com essa arqueação ao sol…

– Não! Não! Ui, depois de secas era uma pilha dentro do estaleiro que às vêzes… a gente acautelava-se, serrava-se bastante material para depois de inverno ter material para trabalhar. Era cada pilha delas assim depois punha-se como eu explico. Ficavam todas direitinhas. Só se fosse vigas, por exemplo, uma coisa grossa. Mas se fosse grossa já num arcavam. Eram dezoito milímetros pr’ós barcos, moliceiros e mercanteis, e centímetro e meio pr’ás bateiras, finas.

– Eucalipto não levavam, nem carvalho, nada disso…

– Não. Não. Carvalho ainda cheguei, mas também esse era raro encontrar-se. Para cavername também ainda dava.

– Só para cavername?

– Só para cavername. Agora eucalipto… isso torcia tudo, isso não presta.

– Os barcos moliceiros tinham todos o mesmo tamanho?

– Tinham. Agora são mais piquenos. Vinte e uma caverna, todos mais ou menos do mesmo tamanho.

– E o que é isso da vara de pontos?

– Ah o pau de pontos! Aí é que estava o barco!

– Quem é que inventou isso?

– Já era desde sempre. Aí é que estava o barco, naquela medição toda. Aí é que estava o barco, num pauzinho aí com metro e meio, nem tinha, nem tinha metro e meio. O dos moliceiros e mercanteis e os outros mais pequenos, eram mais pequeninos ainda. Para caçadeiras pequeninas, da caça, calhei de fazer caçadeiras só para uma pessoa, muito levezinhas, com pauzinho assim, aí está a medição toda, da altura, da largura do fundo, tudo, está a perceber? A tal tábua da armação, assim ao comprido, com uma linha recta no centro e depois já se media os espaços das cavernas, lá estava um sinalzinho que a gente media, vinte e uma cavernas, depois o forcado da ré, o forcado da proa, uns cortesinhos…e depois a largura começava, por exemplo, a aumentar, por exemplo aqui um sinalzinho, um cortezinho aqui, e outro aqui, ia-se andando assim, compreende?, comparação: isto era a caverna, a primeira caverna da pro……já tinha lá o traçozinho das cavernas. Media-se isto. Passava-se outro sinalzinho, segunda caverna, passava-se a outro, terceira, isto é uma comparação, quarta, até meio do barco mais ou menos. Assim que chegasse, já não tinha mais risco nenhum, virava-se o pauzinho, começava, outro, a diminuir, a diminuir, a diminuir, ia-se a fazer isto, quer à proa quer à ré. E a altura do bordo à mesma.

– A altura do bordo também era o pau?

– Pois, lá está, as marquinhas todas, as duas da ré que era as duas cavernas da ré, começava sempre às duas, era o forcado, tinha uma altura, o forcado que é donde a gente se assenta, a guiar o leme, chamo o forcado…tem dois, tem um pequenino e tem o grande. E depois as duas da ré, ainda me lembro…..assim o pau, depois às seis, depois às dez, a contar da ré a eito, depois às dez e depois às seis, da proa, contando da proa, não, às oito, às oito, da proa e depois às cinco, que era a última, que é donde tem o batente da proa, o batente onde tem a porta, aí é que era a última altura, que daí a gente já tinha…bem, eu ainda não disse tudo, não era só o pau dos pontos. O Pau dos pontos tinha as medidas do coiso mas depois as formas, as formas, os moldes, tinha o molde das cavernas, tinha a roda da proa, da roda da ré, tinha dos forcados, tinha…tinha do batente, como eu disse agora até ao forcado da proa, uma forma como daqui quase acolá ao canto, e depois do forcado da proa o resto acolá, sempre a revirar para ir ligar à proa, aquele bocadinho, outra forma pequenina, parece que ainda…..Estava, o barco, a embarcação estava no pau dos pontos e nas formas. Assim como as outras bateiras e tudo. Cada um tinha as suas formas. Dos mercanteis já não serviam para os moliceiros, nem os moliceiros serviam para os mercanteis.

– O moliceiro já não obedecia ao pau dos pontos; obedecia então a outras medidas?

– Igualzinho. Cada barco ou cada bateira tinha o seu pau dos pontos e as suas formas, os seus moldes, como quiser chamar.

– Mas o pau dos pontos dos moliceiros não era igual…

– Todos diferentes, todos. Uma caçadeira da caça outro, uma bateira solheira outro, uma bateira para Lisboa outro, uma bateira pr’ó Carregado, fazia-se muito, o meu pai, eu cheguei lá ir, a primeira vez tinha quatorze anos fazia-se muita bateira pr’ó Carregado, pr’ó sal, naquele tempo, antes de Vila Franca, sabe onde é o Carregado mais ou menos? P’ra Salvaterra, pr’a Setúbal, fez-se muita bateira pr’a Setúbal também, aqui. Todas diferentes conforme a pesca. Tanto no tamanho como no feitio, umas mais altas da ré do que da proa. As de Setúbal eram mais altas da ré do que da proa, está a ver?, muito largas e muito altas, levavam muita aparelhagem, muito pesada, e depois que lhe pusesse a aparelhagem dentro elas já ficavam logo natural. A roda andava para cima, a proa andava para cima porque, se não fosse assim tão altas da ré e tão largas, punham-lhe as redes dentro e ela ficava logo com a ré metida pela água dentro e proa muito arrebitada. Era conforme as artes. Até só aqui para a ria de Aveiro já………era a solheira, era a peixeira, era não sei quê mais, tudo diferente.

– Tudo diferente conforme a pesca…

– Pois conforme a arte. Quem vinha encomendar é que dizia “ quero uma bateira prá solheira ou prá peixeira ou prá branqueira “ , três pelo menos…

– Olhe lá uma coisa: a pintura. Depois vocês pichavam o barco todo? Era todo coberto a piche?

– Não! Não! Nada de piche! O breu, o breu fino, pez louro dos lados e preto na cinta, era o que lhe dava na cinta, cá no bordo do lado, são bordos dos lados e ia acolá até ao golfião, até às pinturas, ia até às pinturas.

….. a continuar

à conversa com mestre joaquim raimundo (pai) -1


o trabalho que aqui se vai divulgar, resulta de uma entrevista realizada por sérgio paulo silva e publicada na revista “terras de antuã”, nº7 – cuja divulgação foi autorizada pelo autor-, e fotografias cedidas pela filha natalie serra.

mestre joaquim raimundo

mestre joaquim raimundo

À CONVERSA COM MESTRE RAIMUNDO (entrevista de sérgio paulo silva)

Entrevista feita ao construtor naval Joaquim Maria Henriques, Mestre Joaquim Raimundo, no final de 1995, tendo o Mestre, na altura, 85 ou 86 anos.

Quando bati à porta de sua casa ( situada à direita de quem vai, a seguir à Stª Luzía, Veiros, para a Murtosa e toma a esquerda em direcção ao Bico), o mestre dormia a sesta. Foi acordado por sua mulher que só acedeu porque tinha sido companheira de brincadeira de infância do meu sogro – eram vizinhos, no norte, em Pardilhó – e manteve-se sempre connosco, metendo a sua colherada. No texto é assinalada com (M). As reticências significam suspensão de voz ou palavras imperceptíveis. À data da entrevista já o seu espólio – a vara de pontos, os moldes, etc – tinha sido cedido para o museu marítimo de Ílhavo.

A conversa foi gravada com aparelho rudimentar e acaba abruptamente porque não deu para mais.

– (M) Ele agora está muito esquecido…

– Hã ?

– (M)… de muitas coisas.

– Está muito esquecido mas a gente lembra-o! Mestre Raimundo, olhe cá uma coisa, você quando é que começou a trabalhar?

– De pequeno, de pequeno pois. A gente vinha da escola, naquele tempo não se andava no jogo da bola. Não havia bolas não havia nada. Era casa, fazer algumas coisinhas que a gente trazia da escola, algumas contas, alguma cópia para mostrar ao outro dia ao senhor professor, era o Sr. Alípio Portugal, velhote, mais velho c’ó meu pai ainda…

– O seu pai era desta arte?

– Pois era. Já o meu bisavô. Onde o meu avô trabalhava, o estaleiro era do pai dele já.

– E era aqui neste sítio?

– Não, não. O do meu pai era no fim, daquele lado da Murtosa. O aido tem cem metros de frente aqui. O meu pai comprou a maior parte. Uma pequena parte do lado de lá era da minha…Depois de lá para cá ele comprou. Deu para seis filhos, todos iguais, mil trezentos e tal metros cada um. E esta casa é do meu irmão mais novo, ali. E depois as outras quatro partes ainda não tem casa nenhuma.

– Os seus irmãos não se dedicaram a isto?

-(M) Ninguém, nenhum, nenhum.

– Todos não, menos o Américo.

– O Adelino… O meu José que está no Porto. Também saiu daqui com 24 anos. Depois nunca mais… bem ainda trabalhou na arte, na nossa arte, também mais o meu tio Américo, irmão do meu pai, que era dono do estaleiro que ainda lá está no Bico. Os terrenos do meu ti Américo, o pai do meu pai, do pai do meu pai, ainda lá está no Bico, tocados para dentro assim um bocadinho.

– (M) O irmão do pai dele.

– Sim, irmão do meu pai, que era o meu tio Américo. Esse é que chamou para lá o meu irmão. E tinha o Júlio que já morreu na América, era a seguir a mim dois anos. Eu sou o mais velho. A mais velha era uma irmã. Também já morreu. E já morreu o Júlio e estamos quatro vivos, sou eu e o José no Porto e o Américo e o Adelino na América. E esse Américo atão trabalhava com um cunhado meu, começou com o …foram todos para a mesma arte, foi para carpinteiro. Carpinteiro naquele tempo era carpinteiro e pedreiro. Faziam as duas coisas. Era como o meu cunhado. Ele fazia a casa e fazia o forro, fazia as portas, fazia tudo. Ainda havia pouca carpintaria naquele tempo. E o meu irmão era um artista para madeiras. Isso, cuidado… Esse Américo! Mas também já foi daqui com 24 anos…

– (M) Vinte e dois.

– Também foi para a América. E o meu irmão mais novo, atão esse meu cunhado morreu com trinta e sete anos, morreu muito novo, e o mais novo também andava com ele mas, depois que ele morreu, ficou com o pai em casa, não foi para outro mestre, dedicou-se à nossa arte até ir para a América. Nunca trabalhou por conta dele até. Só eu é que me estabeleci. O meu pai deixou-me fazer aqui o estaleiro onde está agora ali a garagem. Mais tarde deixou-me fazer a casa também. O estaleiro foi o primeiro. Vivi lá dezasseis anos em casa do meu pai. Agora está ali o terreno. A casa ficou para a minha irmã, deitou aquilo tudo abaixo, tinha lá uma casinha pequena que ele mandou fazer para mim quando eu me casei. Ainda vivi lá dezasseis anos, lá é que eu ganhei esta casa. Primeiro o estaleiro, a oficina… naquele tempo, ainda me lembro, gastei cinco contos a fazer o estaleiro, barracão, e depois mais tarde a casa, ao fim de dezasseis anos.

– Portanto você aprendeu a arte com o seu pai…

– Pois, pois, então com quem havia de ser?

– Desde a primeira tábua…

– Pois, pois… nem todos. Eu… o meu pai também já os pintava. Construía os barcos e pintava-os. Vê aquelas pinturas? Ali a ré dos barcos, à popa dos barcos, igual àquilo, mais ou menos. Aquilo foi o meu filho que pintou.

– (M) Ele foi mais o Magalhães, chegou mais um artista de Avanca, também um artista pintor. Esse era lavrador.

– Era o Sueco. Foi a Lisboa pintar um barco que foi para Paris e ganhou o primeiro prémio.

– (M) Esse era um barco de mar.

– Um barco de mar prás conserveiras, representar as coserveiras de Portugal.

– Portanto você tanto fazia bateiras como barcos de mar…

– Não, de mar não cheguei a fazer mas se fosse preciso fazer…A construção era igualzinha. Foi pintá-lo. Foi um barco que eles compraram aqui em S. Jacinto, usado.

– (M) Fizeram uma casa dentro.

– Repararam-no bem, aquilo era um hotel lá dentro! E depois foi pintado de novo. Faz de conta que o barquinho era novo. E foi então inçar um grande artista para pintura, esse homem de Avanca. Não construía mas pintava, só pintava os barcos. Esse até andava ò moliço, sabia andar, apanhava moliço e tudo. Mas era um pintor, um artista, cuidado com ele

– Como é que se chamava esse artista de Avanca?

– Sueco, Manuel António Sueco.

– (M) Era muito velho.

– Ele já era velho e então ele nem me conhecia bem mas via as minhas pinturas nos barcos e assim e disse “ olhe, eu só vou se ….primeiro foram falar com ele, foi um homem aqui de Aveiro

– (M) Foram uns que vieram de Lisboa

– E ele disse “ eu só vou se vocês forem falar com fulano” – se eu fosse com ele, que então que ia. Era assim de certa idade e então lá fui de bicicleta para Pardilhó, deixei a bicicleta em casa do meu sogro, fui a pé por Pardilhó lá chamar por casa dele, combinado e lá fomos para a Estação de Avanca, é verdade, para Lisboa…

– Olhe uma coisa, como é que nasce um barco moliceiro?

– Como é que nasce? Duma tábua, chamam-lhe a tábua da arqueação.

– Primeiro é duma árvore.

– Sim.

– Vocês com que madeira trabalhavam?

– Pinheiro manso.

– Só pinheiro manso?

– Não. Pinheiro manso pró cavername

– Pró cavername…

– E o outro também dá para o cavername e para tábuas. Porque o pinheiro manso não dá para o tabuado.

– Ai o pinheiro manso não dá para o tabuado?

– Pois, porque é cheio de rancas, não sabe o que é?, o pinheiro manso é tudo cheio de rancas. Está ali um na beira da estrada, eu estou ali a vê-lo, é tudo cheio de rancas para um lado e para o outro. Isso é bom é para dar cavernas

– Para dar cavernas…

– Para dar cavernas e braços. Cada caverna leva um braço.

– Cada caverna leva um braço…

– Pois. Pois, por exemplo, isto é o fundo e aquí arranca-se a pinheira e a raiz faz o costado mas falta um braço dacolá para fazer outro cortado. Chama-se um braço.

– Então o pinheiro manso é para fazer o cavername…

– O cavername e o outro também dá cavername mas não é tão bom para cavername. Não dá tanto. Sim e para o tabuado. Eles agora faz os barcos, os poucos que os faz. Tenho um sobrinho em Pardilhó, não sei se a minha mulher já lhe disse que faz barcos moliceiros, um sobrinho, filho dum irmão da minha mulher que já morreu, o Salvador. Mas as tábuas são emendadas, para ser serradas na fábrica, as três tábuas, a da quilha, uns chamam-lhe da quilha, outros a tábua da armação, para armar o barco, que era a do centro que ia da roda da ré à roda da proa, era sempre inteira e dos lados, as duas dos bordos, onde levava os bordos encostados, também as duas inteiras, as três tábuas. Depois as outras levava mais duas por baixo, a encher o costado, nessa fazia ir inteiras como a meio ou mais que meio, uma em três partes, outras só duas ou assim conforme. Isso já não tinha importância nenhuma. As três é que eram sempre inteiras.

– E essas tábuas inteiras eram feitas de que madeira também?

– Pinheiro. Primeiro bravo. Serradas aqui. Eu ia transportá-las às vêzes lá para S. Martinho da Gândara, perto de Oliveira de Azeméis, Loureiro, por aí, Albergaria-a-Velha, Albergaria-a-Nova, a gente comprava pinheiros… era onde os havia.

– Mas tinham que ser pinheiros muito velhos para dar…

– Velhos e sãos, não ser pôdres e depois a transportá-los com carreiros da Póvoa, tinha carreiros da Póvoa aí. Ainda está aí um vivo, acho eu. Só se ele morreu há pouco tempo, Chico Alegria, que é manco, que é logo a primeira casa depois que se passa aquela vilage nova, à esquerda.

– Mas os carros de bois, como é que transportavam assim aqueles pinheiros tão grandes?

– Com dois carros.

– Ah, era com dois carros!

– Pois, um atrás e outro à frente.

– Pois era… Não, quando era um pinheiro só uma junta chegava.

– Uma junta chegava…

– Até havia sítios às vêzes que os que…depois de estar na estrada uma junta trazia um pinheiro mas quando eram mesmo grossos…uma vez eu vinha com um de lá, de Salreu, lá de cima de Albergaria-a-Nova ou Soutelo, eu comprava por aí, por todo o lado, e chegamos ali a Estarreja, também já morreu, coitado, Manuel do Avô, já o avô dele carreava para o meu avô, pr’ó meu pai e chegou a carrear para mim também o pai desse carrego. Tinha duas vacas que agarravam muito bem, puxavam muito bem mas chegou-se ali ao Antuã, aquela subida ali apicada, direito acima…

……..

(continua)

marca do mestre raimundo

divisa do mestre raimundo, segundo ana maria lopes

a carta


do ricardo para o josé

a protecção do cordão dunar

a protecção do cordão dunar

como está josé? não lhe escrevo por ser seu amigo, mas porque, de certo modo, somos parecidos: eu preparei o meu futuro – desculpe usar o inglês, mas a educação não se esquece e há apalavras que não consigo traduzir – offshore  e você o seu, indoor. já reparou que você inaugurou as obras que agora o acolhem? somos homens de fazer, gostem ou não gostem. você não tem é, desculpe que lhe diga, uma família antiga atrás de si, além de se ter metido em coisa que nós, os que já cá andamos há muito, não metemos as mãos porque pagamos para que o façam: a política. porque é que você não foi para as finanças e quis ser engenheiro, político e depois filósofo e profeta (lembro-lhe que escreveu um livro sobre o que lhe está a acontecer), arranjou, como diz a gentinha, “lenha para se queimar”. tivesse vindo para as finanças e era rico, feliz e livre. olhe para nós, olhe para nós! ainda perguntei aos meus primos se conheciam a sua família ou o seu nome de algum lado, sabe qual foi a resposta que recebi de todos? só sei que nada sei. só uma nota,  nós usamos os motoristas para distribuir bombons, o dinheiro é coisa demasiado perigosa para pôr nas mãos do povo, pelo menos em grandes quantidades. queria desejar-lhe um bom ano e pedir-lhe, por favor, quando sair, tenha ou não tenha razão, nisso não me meto, que atenda o meu telefonema, não se preocupe em saber como sei o número que vai ter, nós financeiros sabemos sempre tudo antes de acontecer. aproveite o tempo em que estiver à sombra para ler alguns manuais sobre funcionamento de mercados e bolsa e deixe-se de filosofias. já viu no que dá? até breve, por aí.

o mar ao fundo à esquerda

o mar ao fundo à esquerda

(praia da torreira; protecção da dunas)

os moliceiros têm vela (9)


em bando na regata da ria de 2013

em bando na regata da ria de 2013

murtosa, novo logo do município: o tempo de pensar

primeiro momento, pensemos em termos gerais sobre o regime em que vivemos, a democracia.

em democracia, através do voto, escolhe-se quem governa, mas quem governa, não escolhe sem se manter alheio aos governados, tenham ou não votado nele. governar, hoje, é tornar-se transparente nas decisões e cumprir a lei – dar o exemplo. é impensável, nos dias de hoje, uma gestão da coisa pública longe dos olhares dos cidadãos – dos jornais, à net, ninguém escapa, muito menos os que mais visibilidade social têm.

não há, por isso mesmo, após o acto eleitoral, uma maioria silenciosa, porque ganhou, e uma minoria calada, porque perdeu. é isto a democracia. as manifestações públicas de apoio e/ou de crítica são a demonstração da vitalidade de uma sociedade democrática, os que pensam que não é assim, vão outros caminhos.

carrinha logo cmm

segundo momento, o como da tomada de decisão. observadas que sejam as disposições legais que balizam o acto em causa, haverá que ter em conta, aquilo. a que se chamam “as boas práticas”. ser legal não basta, convém que seja o melhor – para isso foram eleitos: para fazer o melhor dentro da legalidade.

um exemplo, muito simples, e que é aplicado nos concursos de painéis de moliceiros. com que critérios é formado o júri? quem são os seus membros?  um júri que tenha na sua constituição pessoas com conhecimentos adequados a uma análise estética, por exemplo

terceiro momento, o caso concreto do novo logo do município da murtosa. volto a perguntar: todo o procedimento foi regular? houve a preocupação, tratando-se da imagem do município, de constituir um júri com competências consideradas necessárias para a sua aprovação? já foi aprovado?

quarto momento, do virtual ao real. tinha dito que já não me pronunciaria mais sobre ao assunto, mas entretanto, como não vivo na murtosa, fizeram-me chegar a foto, que anexo, da exibição do logo numa carrinha da câmara municipal. interessante seria saber desde quando? volto à acta de 20 novembro.

onde tudo se sabe, nada se pode esconder.

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(ria de aveiro; regata da ria)

os moliceiros têm vela (7) – mudam-se os tempos ……


moliceiros no s. paio, anos 90

moliceiros no s. paio, anos 90

farão para aí uns dois anos, pelo verão, fazia eu o meu passeio pela beira ria quando, no areal em frente ao estaleiro do mestre zé rito, dou pelo domingos da grila a fazer uma caldeirada de enguias.

ele e um grupo de amigos tinham ido fazer uns lanços de chincha, para fazer uma caldeirada que, agora ao lume, perfumava aquele pedaço de praia remoçada.

de repente vieram-me à memória os tempos em que ia com a família, para a ilha do amoroso, fazíamos uns lanços de chincha e havia sempre enguias para saborear numa caldeirada à maneira.

levávamos as batatas, os temperos, talheres, toalhas, bebidas e pão. as enguias eram apanhadas na hora, lavadas e amanhadas à beira ria. havia areia na ilha e era com ela que se agarravam as enguias para serem amanhadas.

um brasido, uma panela, os saberes culinários dos meus tios césar e arcênsio, e a caldeirada era saboreada por uma família que a ria juntava.

foi essa memória que o domingos reavivou com a sua caldeirada. perguntou-me se queria almoçar com eles, mas eu já tinha almoçado, não recusei foi a prova do molho: estava boa. claro que a receita do domingos, era a receita do domingos, tinha-lhe até permitido ganhar um primeiro prémio num concurso de caldeiradas de enguias – palavras dele.

ora bem, eu tinha na minha posse a receita da caldeirada de enguias à murtoseira, deixada pelos meus tios avós e que o meu pai passou a escrito e eu guardei. para a publicar faltava-me apenas uma foto para a ilustrar. claro que aproveitei.

único problema, a receita do domingos leva pimentos e a tradicional, que eu transcrevi, não, mas a ideia estava lá. além disso os pimentos passavam meio desapercebidos na imagem.

no dia 25 de fevereiro, de 2013 publiquei no meu blog ahcravo.com um artigo intitulado “caldeirada de enguias à murtoseira”, ilustrado com a foto da caldeirada do domingos.

houve então quem pegasse no facto de a foto ter os pimentos para se indignar, porque a receita tradicional não os tinha.

interessante que os puristas, que então reclamaram pelo facto de verem, lá perdidos, uns pedaços de pimento, gostem agora da nova imagem de marca do município, tão fiel que é à traça de um moliceiro.

mudam-se os tempos …… ou será que mudou mais alguma coisa

ahcravo_Scan20116

(torreira, s.paio)

o novo logotipo do município da murtosa: um segundo tempo


na placidez da ria voga um moliceiro, enquanto uma bateira de bicas descansa

na placidez da ria voga um moliceiro, enquanto uma bateira de bicas descansa

para deixar descansar os designers da murtosa, que ao longo destes dias tenho vindo a conhecer – e são muitos, e respeitam-se mutuamente, o que é bonito -, iria agora analisar o procedimento administrativo e não só, que, tudo indica, conduziu à “Criação da Marca Institucional do Concelho da Murtosa”.

1 – dia 6 de novembro, de 2014 na página do facebook da empresa Artifex:

pub artifex

2 – dias depois reparei que a página do município da murtosa no facebook já apresentava a “ nova marca”, aliás a primeira publicação, na cronologia, com essa identificação era de dia 5 de novembro, data portanto anterior à da divulgação da Artifex, o que só abonava em favor da empresa.

3 – não haverá 2 dias e a publicação (um cartaz) ainda estava na cronologia, mas dia 11 já lá não estava. acontece, as redes sociais têm falhas que não são da culpa dos utilizadores, há publicações que inexplicavelmente desaparecem. pesquisando, no entanto, no álbum de fotos verifiquei que não estava de todo errado, quando encontrei, entre outras, a seguinte publicação de dia 5 de novembro:

pub logo cmm

ou seja, efectivamente no dia 5 de novembro, a “nova marca” já era divulgada na página do município.

4) 20 de novembro – reunião do executivo em que é apresentada uma informação do “Sr. Presidente da Câmara, datada de 17 de novembro de 2014, através da qual propõe que, no cumprimento do preceituado na Lei do Orçamento de Estado para 2014 (Lei n.º 83-C/2013, de 31 de dezembro), a Câmara Municipal emita parecer prévio vinculativo favorável ao procedimento que se pretende iniciar para a Aquisição de Serviços de “Criação da Marca Institucional do Município da Murtosa”, que é aprovada com um único voto contra: o do vereador da oposição, Jorge Bacelar.

(a declaração de voto está anexa à acta nº23/2014, e é uma declaração amiga do executivo: alerta-o para uma situação de eventual “irregularidade”)

face ao exposto, ficam-me algumas dúvidas:

é impressão minha ou, legalmente, só depois de o executivo camarário ter aprovado, em 20 de novembro o parecer prévio favorável ao procedimento, é que o mesmo se podia ter iniciado?

será que não tem de haver uma aprovação da marca por parte do executivo? é que ainda não há nenhuma acta que o expresse

não será de questionar a regularidade de todo o procedimento que levou à concepção e utilização da “nova marca”?

aos atentos juristas e dirigentes políticos da terra fica a questão.

as aparências iludem

as aparências iludem

os moliceiros têm vela (6)


isto é um moliceiro a todo o vapor

isto é um moliceiro a todo o vapor

O barco moliceiro, ex-libris lagunar (conclusão)

………..

A nosso pedido, os frisos marítimos e florais são dos mais singelos e tradicionais, o espaço cénico é completamente preenchido e pormenorizado, mantendo-se à proa, a BB, uma legenda identificativa do construtor, bem como a localidade, com o mestre a cavalo, lembrando a figura equestre de antanho.

«MESTRE ANTÓNIO ESTEVES – PARDILHÓ – »

Na proa de estibordo, uma legenda tipo apelativo, em que o  narrador presente exprime o desejo de que Deus ampare os nossos pescadores que saem para a pesca do bacalhau, coaduna-se com o desenho brochado.

«DEUS VOS GUIE PESCADORES»

Na ré, a BB, uma cena campestre, vulgar e antiga, serve de suporte à frase interrogativa, maliciosa e brejeira, que joga com um duplo sentido, no discurso do interlocutor masculino.

«ONDE QUERES QUE TE CARREGUE?»

Na ré, a EB, como era hábito, mais uma garotice, em que o narrador não participante joga com o duplo sentido da palavra «passarinha», numa frase exclamativa. Uma bela e rechonchuda moçoila, de mini-saia, apanha um passarinho, lá no alto de uma árvore, encarrapitada num escadote.

«QUE RICA PASSARINHA!»

As outras zonas decoradas desta embarcação enaltecem o conjunto: o barrote do castelo da proa, a antepara da proa, os dois golfiões, a base da bica, a parte fontal da tampa móvel da entremesa, as extremidades dos forcados biqueiros e a divisa do construtor que o pujante leme negro ostenta.

O pintor revela um cuidado especial com o grafismo do registo-A – 1937 – M, em que o número escolhido pelos órgãos directivos do museu pretende lembrar o ano da sua fundação oficial – 8 de Agosto de 1937.

Ana Maria Lopes
Vice-presidente da Direcção dos Amigos do Museu de Ílhavo

ao vivo e a cores

ao vivo e a cores

(muito obrigado dra ana maria, pela cedência do texto para pulicação)

os moliceiros têm vela (5)


em 2007 era assim, no bico

em 2007 era assim, no bico

O barco moliceiro, ex-libris lagunar (continuação)

Dra Ana Maria Lopes
A galeria de tipos é quase infinita.

O rapaz e a rapariga em situação de trabalho e/ ou em relação amorosa plena de malícia contrastam com o galã e vampe enamorados.
Com maior ou menor grau de flexibilidade, mais ou menos de acordo com «a escola» do pintor e o seu grau de sensibilidade, todos os painéis sobrantes estão dentro dos cânones da pintura de moliceiros: motivo central, sublinhado por uma legenda e emoldurado por frisos geometrizados.

Na retina, ficam as cores puras e luminosas: o amarelo, o verde, o azul, o vermelho, o branco e o preto; as gamas intermédias aparecem só num ou noutro pormenor. Tem-se evoluído muito, neste aspecto, como já referimos.

Este conjunto de cores é igualmente usado noutros artefactos locais – as cangas vareiras.

Foi a decoração do moliceiro que influenciou a da canga? Ou, pelo contrário, a da canga que influenciou o moliceiro?

Segundo nosso entender e o de outros – 6 – estudiosos, ambos reflectem a opulência económica da classe dos lavradores muito ligada ao poder político local, nos séculos XVIII e XIX.

Pela vibração cromática, pelos contornos bem marcados, por um figurativismo de planos frontais, pela ingenuidade, pela adaptação do desenho à superfície, pelo recurso a temas do quotidiano, os painéis dos moliceiros constituem exemplos belíssimos de pintura «naïf» concordantes com as quatro legendas sistemáticas plenas de graça -7-.

Normalmente, estas são
inscritas numa estreita faixa branca ou rósea, situada na parte inferior do painel entre o friso e o motivo principal.

Os grafismos usados foram mudando desde a letra minúscula à maiúscula, alternando-a ou misturando-a, manuscrita ou tipográfica.

Tendo acompanhado a construção desta embarcação junto do Mestre Esteves, no seu estaleiro, sempre tivemos a preocupação de que os métodos construtivos e os materiais utilizados fossem o mais tradicionais possível. E com a decoração, aconteceu o mesmo junto do pintor, o José Manuel Oliveira, respeitando o seu estilo. Defende e pratica a mesma linha pictórica com que debutou desde o final dos anos 80, vai acompanhando nos seus painéis os eventos que se vão sucedendo, usando igualmente a diversidade de temas a que estávamos habituados. Não põe completamente de lado o tradicionalismo do painel da proa a BB, reinventando-o. O Zé Manel impôs-se como o mais famoso, produtivo e inovador pintor de painéis de moliceiro.

(a continuar)

-6- Senos da Fonseca, obra já citada, p. 164, Porto, 2011.

-7- Ana Maria Lopes, Moliceiros – A Memória da Ria, 2ª edição. Âncora Editora, Lisboa, 2012.

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(murtosa; bico; regata moliceiros; 2007)

a murtosa não é a pátria do moliceiro?


o "António Garete" a navegar, na regata do bico de 2007

o “António Garete” a navegar, na regata do bico de 2007

– a propósito de uma publicação do rui cruz, na sua página do facebook – 

(Kiss – keep it simple stupid ou kill it simply stupid

tradução: faz simples estúpido, ou, mata-o simplesmente estúpido)

as siglas dão para muita coisa, haja imaginação e, sem ela, não há técnica, nem design, que resista.

vem isto a propósito de uma a análise técnica de “design” de rui cruz sobre o “novo” logotipo do Município da Murtosa. há argumentos técnicos para tudo, mas os melhores são os que são tão técnicos, tão técnicos, que parecem só isso. ora a técnica não é algo de intocável, está na moda recorrer a “independentes” na política e à “técnica”, para que tudo pareça limpo de influências de quem manda, melhor ou pior.

mas será só a técnica de design que justifica o logotipo? em termos de design seguiu as regras, logo está bem. é um raciocínio simples e redutor, um raciocínio kiss. mas, digo eu, no caso da marca/logotipo de um município, ser só um designer a decidir é muito pouco ou quase nada, dada a importância que a imagem carrega em si mesma. será que não deveriam ser ouvidos pareceres de outras áreas? se a murtosa á pátria do moliceiro o logotipo pode ser um barco qualquer? veja-se o logotipo do município de aveiro, simples, sim, mas vê-se que é um moliceiro.

LogoAveiro

um argumento técnico, de um técnico da área em causa, e …. lá se vão os argumentos dos não especializados. quantos crimes se cometem em nome da técnica? a começar no ambiente por exemplo, sempre muito sustentados por argumentos técnicos. não é verdade rui cruz?

mas, continuemos, para ilustrar a sua teoria, o rui cruz diz que há barcos moliceiros a navegar sem vela e mostra o moliceiro “António Garete”, varado num ancoradouro. bom, se isto é navegar…. entendo. navega, sim, como na foto, que aqui insiro, na regata do bico em 2007. infelizmente o “António Garete”, se ainda não foi destruído, navegará agora, provavelmente, no canal de aveiro, com outros amputados, sem mastro nem vela.

em resumo, e sem abordar ainda as questões metodológicas e legais subjacentes a todo o procedimento, queria deixar aqui uma palavras de um designer da murtosa :

“ ….talvez fosse de interesse da comunidade marinhoa, a edilidade lançar um repto a todos aqueles que ligados ou não ao design cá na nossa Santa Terrinha pudessem colaborar, apresentando um esboço do que poderia vir a ser a nova “marca” do município da Murtosa. Após selecção e escolha do melhor trabalho, feita pela assembleia municipal, o departamento competente na câmara deveria abrir concurso para as empresas de design interessadas desenvolverem o trabalho pretendido baseadas no referido esboço. Essa nova “marca” teria certamente um cunho mais comunitário, mais democrático, “mais nosso”.Para terminar seria injusto não referir que a empresa referida como estando a trabalhar no projecto, é competente e tem capacidade para desenvolver um trabalho criterioso. “

é um parecer técnico, e não só, de um designer. talvez assim seja mais fácil de entender que a técnica só por si não justifica tudo.

lutar hoje contra a extinção dos moliceiros, é de facto o mais importante, temos visto o que as autoridades locais e regionais têm feito, e o que têm feito os que isto afirmam. este é também um tipo de argumento muito utilizado para desviar as atenções da discussão de um caso particular: falar no geral. parece que estamos a perder tempo nestas discussões de pormenor, que não o são, enquanto deixamos passar o fundamental. é assim que nada se faz, dizendo que há coisas mais importantes a fazer.

não há polémicas em vão, há é silêncios convenientes.

navegar é preciso

navegar é preciso

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (3)


o barco da frente, do mestre zé rito, a cambar

o barco da frente, do mestre zé rito, a cambar

O barco moliceiro, ex-libris lagunar

(continuação)
Relativamente à pintura do barco, temos a referir que, inicialmente, o costado era amarelado, devido ao uso do pez louro, mas nas amanhações (reparações para manutenção) anuais, passava a ser embreado (coberto de breu), o que melhorava a sua resistência. Os que ainda restam são pintados a tintas de cor forte, a gosto do dono.

«Nenhum dos barcos da larga família etnográfica e longa ascendência tem a graça e o valor pictórico do moliceiro da ria de Aveiro». – 4 –

À proa e a ré, a bombordo e a estibordo, apresenta quatro painéis, com espantosas cercaduras policromas, flores e ramalhetes pintados em cores berrantes e estilizações bizarras, cheias de ingenuidade ou ingénuas de malícia. Para além da harmonia de linhas que fazem do moliceiro uma embarcação muito «sui generis», o seu grande encanto reside na decoração que ostenta. É o barco mais ricamente decorado e mais decorativo. – 5-

Citando, de novo, Luís Chaves – «Os barcos vestem-se como se vestiram os corpos. E se enfeitaram, guarneceram (…) nos barcos, como nos vestidos, há faixas coloridas, paralelas ou não, grades ou xadrezes, barras, flores estilizadas ou realistas, emblemas, etc. O princípio do revestimento é o mesmo.»

Barcos havia ao longo do nosso litoral que ostentavam ou por embelezamento ou superstição alguns signos pictóricos interessantes: pinturas de olhos, cruzes, emblemas, pequenas figuras, etc. Aqueles cuja decoração atingiu uma maior superfície e grande beleza foram os varinos do Tejo, seguidos dos botes e das canoas.

Mas, os moliceiros com as suas quatro iluminuras de uma diversificação estonteante fizeram da ria de Aveiro uma galeria de arte fluida, em que todos estes elementos estéticos foram mergulhando.

Há quem considere a proa, pelo seu formato, a parte monumental do barco, já que a diferença da construção limita, na ré, o espaço para decorações. No entanto, é na ré que por vezes surgem os mais sugestivos desenhos e legendas mais espirituosas, talvez para compensar em expressão o que reduz em espaço. Hoje, não é bem, bem, assim, porque o espaço decorativo da ré tem aumentado.

Normalmente, o olhar do observador é levado para o centro do painel onde o motivo central aparece livremente ou limitado por um círculo, uma fechadura, por uma «casa» ou ainda por cortinados encimados pela coroa real. Utilizavam-se mais os círculos e cortinados à proa e as fechaduras e «casas» a ré.

-4- Luís Chaves, Os Transportes Populares em Portugal – carros e barcos. FNAT. Gabinete de Etnografia, Lisboa, 1958.

-5-  Nem sempre assim foi. Há provas imagéticas de que as primeiras decorações, mais incipientes, terão aparecido apenas em finais do século XIX.

(a continuar)

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torreira; regata do s.paio; setembro, 2014