notícias da xávega, torreira (7)


 

arribar não é coisa fácil, para quem em terra tem de garantir a segurança dos que no barco

arribar não é coisa fácil, para quem em terra tem de garantir a segurança dos que no barco

 

chama-se aurora
traz nas veias sangue de arrais
faustino de nome próprio
homem de estórias muitas
com nome de rua
e descendentes abonde

 
chama-se aurora
mulher do mar da torreira
senhora do seu nariz
senhora de um físico
que põe em respeito
qualquer um
e faz dela

 

mulher de mar
mulher da torreira
na companha

 

(torreira; companha do marco; jun 2014)

 

 

postais da ria (6)


 

na maré cheia, a ilusão de que tudo bem....

porto de abrigo, na maré cheia, a ilusão de que tudo bem….

 

 

finalmente começaram as obras para a construção do novo porto de abrigo dos pescadores da torreira.

de todas as comunidades piscatórias do concelho da murtosa, a maior é a da torreira, entende-se por isso que tenha sido o último, desta primeira fase.

era preciso “treinar” no fazer dos portos de abrigo mais pequenos. creio nas boas intenções de quem manda.

espero que tenham aprendido com os erros cometidos nas interiores intervenções, nomeadamente, bico e chegado.

fotos como esta não poderão ser feitas em breve, porque estes são os últimos barcos que estão no velho porto de abrigo.

vou esperar pelo fim das obras e espero estar vivo um ano depois de terem terminado.

então, todos veremos o que foi feito e poderemos dizer da obra.

para já, é óbvio, que desejo que da obra resulte um porto de abrigo com as condições que os seus utilizadores merecem, e onde não tenham de esperar pela maré para sair de um atoleiro de lama.

as obras nos portos de abrigo têm sido uma aventura nem sempre bem sucedida.

 

 

(torreira; porto de abrigo; jun 2014)

postais da ria (5)


 

 

um moliceiro é assim

um moliceiro é assim

assistir ainda aos últimos
aos que ainda
emprestam beleza à ria
cisnes últimos desta laguna
que a aveiro emprestou a beleza

ide
fotografai o que deles resta
os amputados
os bastardos fibrosos aleijados
que jazem
no canal principal

ide
inventaram uma outra ria
para vender em postais
uns barcos de fazer de conta
para quem memória não tem
dos cisnes reais e seus vogares

assisto ao fim de um tempo
e dói-me
não o ter sido um dia
mas o cinismo com que se constrói
o amanhã

postais?
postais há muitos

 

(ria de aveiro; torreira; moliceiro do mestre zé rito; jun.2014)

notícias da ria (3)


 

mariscar na ria

mariscar na ria

sou assim
falta-me tempo para ser
perfeito
sou aquilo que sou num tempo
que é meu
enquanto

desculpem-me os que vêem em mim
mais do que aquilo que sou

não tenho ambição que não a de estar vivo
o tempo que me for dado
e nele ser tudo o que possa sem ser mais
do que isso

a perfeição é coisa que me é estranha
ser imperfeito
poderá ser defeito
mas é isso que sou
sem ter pretensão de

estou vivo e grito
não canto
que é coisa de artista

gritarei enquanto respirar

 
(ria de aveiro; torreira; 2014)

notícias da xávega, da torreira (3)


 

 

quim baía

quim baía

os dias correm com sol
e norte muito à tarde
o costume nesta costa
vai-se ao mar quando
se pode
pesca-se o que a sorte ditar

“deus ajuda quem faz por isso”
a voz do arrais

o quim sorri
sorri sempre
não lhe conheço outra expressão
no rosto

gosta de fotografia
da sua
mais que nenhuma outra
vê todas as que pode
sorri

hoje
é o dia de ser aqui
o rosto da notícia
(torreira; companha do marco; 2014)

 

tu


 

o moliceiro do mestre zé rito, espera, ao longe, no seco, a vida

o moliceiro do mestre zé rito, espera, ao longe, no seco, a vida

 

não te agarres ao que foi
o ter sido lhe basta
o que há-de ser
sê-lo-á mesmo se sem ti
só agora
aqui
aquietado o tempo
és

não deixes que a ilusão
do amanhã
seja o teu tempo sonhado

repito
hoje agora já
és

tu

 

(torreira)