abre-se a janela e
um livro
palavras semeiam luz
página a página
o sentir
à flor de
tudo treme
a beleza
um copo de água
não se interpreta
bebe-se
os teus poemas
(torreira; companha do marco, 2013)
inventar as cores e as coisas
despovoar a paisagem
como se tudo já tivesse sido
para voltar a ser de modo diverso
recriar recreando
a luz e a sombra
o doirado que semeio
a prata lançada sobre as águas
o rebrilhar da criação
o fazer
dentro do tempo um homem sorri
é uma criança traquinas
que nunca cresceu
sou eu
(ria de aveiro; torreira)
fizeram a escola sentados
nos bancos de areia rente ao mar
aprenderam cedo a força das ondas
o gume afiado do norte pela madrugada
o salgado sabor dos dias amargos de pouco pão
a escrita que conhecem é sobre água
nem por isso efémera
que de geração em geração
de homem para homem
como se ontem fosse hoje e sempre
o mar é pauta onde ritmos e pausas
são marcados pelas notas das ondas
onde o maestro é o arrais
falo do mar
da música fora dos búzios
dos artistas
das companhas da xávega
bota que chega de palavras
(torreira; companha do marco; 2011)
traz no nome o início
a força de tudo poder ser
onde o mar e a areia
se encontram sem medos
numa fronteira breve
de espuma agonizante
em dias de haver mar
é ainda noite quando o arrais
e todos na praia à espera
ela mais um mais um mais
braços pernas corpo
conheço-lhe o riso
a linguagem franca das mulheres
que fazem vida do mar
a ternura com que fala dos filhos
a força com que compete com os homens
e vence o mais das vezes
cuida do dia
aurora
(torreira; companha do marco, 2014)
sem porto nem cais
areal onde varar
procurar na memória
nas imagens retidas
um poiso um lugar
barco sem terra
condenado ao mar
resta
esperar a onda
o instante exacto
largar
ganhar o longe
ser poiso de gaivotas cansadas
sorrir à espuma
o que há para além de mar?
(torreira; companha do marco; 2011)