fosse tão bela
a música que nos dão
em que nos perdemos
árida
de espinhos cheia
já não é música sequer
é agressão
por cá
sofrem os do costume
fosse tão bela
a música que nos dão
em que nos perdemos
árida
de espinhos cheia
já não é música sequer
é agressão
por cá
sofrem os do costume
ao rés da água
a beleza sorri
líquida
os homens são ainda
a continuação de
o regresso ao terem sido
velas erguidas desafiam
o vento e a sabedoria de quem
vêm de todos os cais do concelho
onde bateiras ainda
a festa renova-se
nos boleares desafiantes
a ria abre-se de plena
subterrâneas vozes
intensas sonoridades
despertam
caminho
não sei se encontrarei a luz
sei que não estou só
isso basta
(mais um excelente trabalho de Jorge Bacelar)
se histórias contara
quase de fadas seria
epopeias de homens
nascimento e morte
de tantos barcos
contemplação de si
no contemplar de nós
ter a ria no sangue
é ter saudade de não estar
é vontade irrequieta de voltar
como se o silêncio
poisado
ave feito
nos braços da ria
e os homens sorrissem
só por se saberem
assim aqui
a liquidez do tempo
geme nos dedos
de onde música
escuta o vento
soprar nas árvores
mais altas
curvam-se os arbustos
tu não
deixar por momentos
o vento pelo cabelo
ser água fresca
onde o sonho
floresce
no embalo
andaremos
se quisermos
que é de guerra
este tempo
soem os tambores
depois das guitarras
lembro-me de ser assim…
“cumpria-se a terra
depois de agosto
nas eiras plenas de oiro
as desfolhadas
gentes de casa
em casa
o ritual da partilha
dos braços
em coro e ao desafio
a festa
em cantares de antes do milho
mãos
ágeis e sábias desfolhavam maçarocas
vermelha a maçaroca sorria
milho rei
o beijo pedido
celebrava ele também
o reiniciar da vida”
algures
entre quatro
ou mais
paredes forradas
um grupo
de eleitos
discute a forma
que vai revestir
o assalto
que país
vais sobrar?
só sei de uma palavra:
resistir
inventemos o como
correm regatos
por entre seixos
dedos
saltitantes peixes
brilham
sol lá si fá
pianamente