postais da ria (81)


nasci para viver

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seguir caminhos feitos
só porque é duro fazê-los
é coisa para sapatos
gastos antes de estrear

eu
vou descalço rasgo os pés
abro os meus caminhos
rasgo leitos sou rio revolto
com ânsia de mar fome de marés

sou o que nasceu para estar vivo

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(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (100)


sou hoje

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fecho os olhos e sinto tudo
como se visse
estou vivo para viver hoje

não para me arrepender
amanhã de não ter feito

levo a carta ao seu destino
nada mais que correio
que não perde a mensagem
leiam-na ou não é sua

chove e é este o tempo

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(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (99)


palavras de mim

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não me custa ser como sou
no entender do direito do outro
a ser diferente de mim e aceitá-lo
como coisa natural de sermos muitos
diversos e comunicantes por natureza

não me custa ser como sou
não sei de outro modo de ser
nem me imagino a sê-lo
sou eu sessenta e três anos depois
não sei quantos antes
o incomodado que incomoda

o caminho aproxima-se do fim
por força das leis que me trouxeram aqui
nada peço nada me peçam senão
o continuar a ser esta coisa de carne e osso
com muitas ganas de fazer de olhos abertos
e uma noção de justiça difícil de calar

vou por meus pés até onde puder
contra a maré se necessário
mas quem diz que maré cheia não é
vazia de sentido?

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(torreira; regata do s. paio; 2012)