nu
entrego-te tudo
para que faças o que não fiz
digas o que não escrevi
sejas o que nunca consegui
entrego-te tudo e fico assim
sentado à beira nada
esperando o que à praia der
nu
(torreira; companha do marco; 2012)
conheço alguns
são os da janela que dizem
talvez
analisam criticam meditam
propõem
procuro-lhes os feitos
encontro sem demora logo
os por fazer habituais
estão sempre prontos para
desde que
por isso na janela cotovelos
vejo-os
habitam as mansardas das
casas grandes
ou rés-do-chão dos senhores
das terras
têm do mundo uma visão
superior
mas é para cima que olham
se chamados
quais gatos têm vidas sete
prontas as usar
(murtosa; regata do bico; 2009)
floriram cravos nas pontas
das espingardas
eram vermelhos como o sangue
que não correu
em abril a 25 no ano de 74
de paz se queriam os dias a vir
livres e solares
escritos com a mesma letra
d de dar
saltaram cravos para as lapelas
nos dias de festa e foram muitos
disfarce também para filhos da mãe
os mesmos que sem eles agora
hoje só com a bandeira na bando do casaco
libertos de disfarce incómodo na festa
foram donos e senhores efémeros
estariam ali fosse ela nacional ou
da república em democracia eleita
guardadas estavam as cadeiras
o tempo era a única oposição conhecida
em verdade te digo que mentem
(coimbra; 25 de abril; 2015)
body 0113
um número numa caixa de madeira
depois de ter sido um número numa terra
numa estatística numa máquina de fazer números
um número onde cabem inúmeros só números
sem nome sem família sem data de nascimento
só registo de morte e vala comum a tantos números
um número cada vez maior
nas contas dos bancos offshore
do petróleo das matérias primas
da madeira do petróleo do petróleo
do domínio da geografia onde
for possível ainda sugar dólares euros
de corpos cansados famintos destruídos
corpos sem cotação aparente
no mercado de valores commodities nasdak
nada que possa ser adquirido trocado
valorizado considerado investimento
corpos amarrados sugados espoliados
corpos escravizados pelos senhores da guerra
das fábricas de armamento florescentes
de um ocidente decadente e cínico
body 0113
não descanso em paz
o mar pode ser nostrum
mas com que direito o transformamos
no cemitério vostrum?
a globalização do capital é uma frase gasta
mas é uma realidade dura negra árabe
carregada de balas mísseis torturas genocídios
medo fome doença miséria destroços humanos
fuga roubo estupro fuga roubo morte
body 0113
não descanso em paz
não descanso
não
(ria de aveiro; regata da ria; 2014)
de nós
houve os que partiram
e a quem chamaram heróis
nem todos regressaram
outros houve que ficaram
não por não serem heróis
mas por amor à terra
de uns e de outros vimos
que dois povos diferentes são
diversos no estar e no ser
uns serão do aceitar
outros do questionar
(torreira; companha do marco; 2013)
retrato de uma primavera

contam com a memória
não a lembrança incómoda
mas o esquecimento de
são os senhores da guerra
e os fazedores da paz
depois de a terem deflagrado
facturam sempre e com tudo
vendem o sangue
que fizeram derramar e é negro
foram eles que inventaram
o espectáculo
que hoje denunciam bárbaro
moram sempre longe
estão sempre perto
e acreditam em deus
que não lhes perdoará
(torreira; regata do s. paio; 2012)
postal de longe
quisera não gostar de ti
de te sentir
tão por dentro de mim
como se eu
quisera não te saber
o passado
preso no meu nome
família de
quisera não gostar de ti
assistir
de olhos secos e mudo
cúmplice
moderno sobrevivente
quisera não me deixasses
assim sem terra
nem raízes nem história
deserdado de mim
se é este o teu futuro
seja
mas não contes comigo
nele
antes não te ver mais
para te ofertar como foste
(ria de aveiro; regata da ria; 2010)