retrato com moliceiros

de grande tem a terra
o cemitério a saudade
o silêncio
as casas vazias muitas
para retornos breves
a ausência
há moliceiros a vogar na ria
nunca o longe foi tão perto
desconto-me
conto comigo e poucos mais
desconto muitos com que contava
por ter contado mal ao contá-los
conto ainda com o suficiente
para fazer o que na vida me resta
merecer ser feito no tempo que tenho
conto com o tempo e não sei se
conto comigo e desconfio se ao fazer tal
será tão seguro como contar com os outros
que de um corpo dependo e esse tal como
muitos com que contava é cada dia mais
de desconfiar
começo a descontar-me
(torreira; marina dos pescadores)
o insuportável peso da luz
o que nos separa é o essencial
isso só se torna evidente se
sobre o branco inscrevermos
o traço exacto das fronteiras
onde os desejos se dividem
fundamental reduzir o acessório
à sua verdadeira dimensão
dispensável
a luz tudo atravessa para se
fazer dia
(torreira; regata do s.paio; 2010)
crescer para o mar
ajoelha-se o homem para o trabalho
minucioso do tecer das malhas
arte secular aprendida no areal
onde por vezes o pão chega prateado
espalhando sorrisos e esperança
que nem sempre a lota contempla
ajoelha-se o homem e pede ao senhor
pão que baste para tão sofrido suor
erguer-se-á o homem e crescerá
para o mar
(torreira; companha do marco; 2013)
sonhei um dia ser ave
vieram depois os que sabiam
das palavras exactas
dos nomes das coisas e falaram
ensinaram-me a ver
as cores e o por dentro delas
escutei-os no recato da margem
vi como as aves
reescreviam com as asas
na superfície das águas
a palavra voo
sonhei um dia ser ave
(ria de aveiro; torreira)