os afectos e as malhas


o agostinho e o porfio a fechar o saco

o agostinho e o porfio a fechar o saco

mandei escrever no braço
o amor por ti
não esqueço
nunca esquecerei
és-me enquanto me for
eu aqui pescador

tece o tempo
as malhas que os afectos
acolhem

malhas largas
os deixam ir sem saudades de
outras miúdas são
nelas se guardam os mais caros
os mais perto do coração

quem amiúda
as malhas alargadas?

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(torreira; companha do marco; 2011)

sou mais um


um por todos e todos

um por todos e todos

do muito andado
ficou o ser daqui
sem aqui ter nascido
que é esta a terra onde as raízes
mergulham

é esta a minha gente

o sangue que me correr nas veias
enquanto
carreia sal destas águas
e das outras onde tudo começou

ser eu deles
serem eles de mim
sentimos alguns
sentimos muitos
sentimos os que

por isso me dói
tudo e tanto
por isso não assisto
sou mais um

(ria de aveiro; torreira; corrida de chinchorros; s paio 2014)

antevisão da ria


ensurdecedor este silâncio

ensurdecedor este silêncio

“a ria está morta. não vejo bateiras”
(palavras de meu pai no verão de 2014)

estou vivo e assisto

tudo tem o seu tempo
não descontando o tempo
que os homens ao tempo roubaram

o que foi não voltará a ser
haja quantos programas inventem
mataram e deixam morrer

vendilhões de um templo outro
vendem-se e vendem os que ainda não
pantomineiros de um futuro inexistente

estou vivo e assisto

as palavras são apenas isso
palavras
as imagens a denúncia insuficiente
a beleza
ilusão para quem não tem outra memória

já é pouca a vida que resta
ao que resta de ter havido

a solidão ameaça os dias
depois de todos terem partido

estou vivo
mas não para isto

(ria de aveiro; torreira)

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no dia mundial da fotografia


a manga cresce sobre a praia

a manga cresce sobre a praia

a luz existe

por mais ínfima

 

luminosos

os amigos

mãos rostos gestos

histórias sem tempo

 

o instante prolongado

na contemplação do registo

a memória

 

a luz cresce

no abraço nos afectos

nas raízes mais fundas

sou todos aqui hoje

 

(torreira; companha do marco; 2014)

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regata de moliceiros, bico, 2014


à frente o A Rendeiro, seguido do Zé Rito, fazem bordos que o vento é quem manda, as marés quem ordena e os edis quem decide

à frente o A Rendeiro, seguido do Zé Rito, fazem bordos que o vento é quem manda, as marés quem ordena e os edis quem decide

 

(isto não é um poema. quem dera fosse)

 

procurei e não vi
como eu muitos
perguntando por

onde o cartaz
a imagem
as letras gordas
a  divulgação
o barco ainda vivo
a regata
o moliceiro?

onde?

procurei e encontrei
mas era diverso
o que os meus olhos
as gentes marinhoas
uma junta de bois
outra freguesia
isso sim
mas não devia ser só

por vezes os discursos finais
só servem para mascarar
falsas partidas

assim vamos por cá

 
(ria de aveiro; murtosa; bico; agosto, 2014)