fazer pelo hoje


 

 

como era duro

como era duro

 

 

foi-se o tempo
regressam os dias
a isso chamam
recriar

recreiam-se alguns
com o recriar
na contemplação
do como era
tudo sobrevoam
sem poisar no ter sido

não
não era assim
era

vêm de longe
ver o que nunca viram
e vão sem terem visto
porque nunca nada é
o que foi quando foi

é tempo de recuperar a memória
de recriar
seja este o tempo de
preservar o presente
para que não seja ele também
passado já

os que da xávega vivem
dir-vos-iam isto
se fossem mais que pescadores

 

(torreira; recriação da xávega com bois, setembro 2013)

 

 

viver


 

 

chegado, era manhã e eu ......

chegado, era manhã e eu ……

 

poderia dar-te tudo
mas é de nada que são feitos
os mais belos momentos
nada
é a possibilidade de seres
tu a fazer tudo

a solidão ensina-te a ler
as cores do silêncio
desenharás o que quiseres onde
e como te apetecer

tudo o que te ofereço
é o nada onde podes ser criador
de um mundo diverso
claro e diurno

fácil será receber
estar vivo é fazer

assim te quero

(no chegado a hora por vezes não chega)

fala da areia


 

o aparelhar das redes; torreira; companha do marco; 2011

o aparelhar das redes,  torreira, companha do marco, 2011

 

 

pergunto à areia como resiste
à fúria invernal do mar
e continua aqui
leito de homens barcos artes

diz-me que do mar filha é
sempre foi
e um dia a ele retornará
destino de

fala-me me dos homens
das máquinas
que passado o inverno
a que foi poupada
a vêm roubar
para destinos que não seus

diz-me que histórias
muitas haveria para contar
mas é tarde
muito tarde
o sol queima

a areia arde

 

olho a ria e penso a urbe


a bateira do marco (fátima m.) abraçada por um velho moliceiro
gastam o tempo em estarem vivos
sem fazerem coisa outra
que isso mesmo

começam o dia quando

sentam-se nos cafés
lêm os jornais com a bica
as necrologias em destaque
depois da tensão
ou o inverso
que importa

falam do porquê de estar assim
aqui tudo onde eles também
e pelo falar se ficam que mais
já tempo foi de
agora outros que

perseguem a vida pelo puro prazer de
nada para além dela
que dela pensam saber o que fazer
nada

têm por projecto o estarem vivos
isso lhes basta
que coisa dura esta de estar por aqui

vivos ainda

 (torreira)

o aparelhar das redes: as mãos


 

 

aparelham-se as redes

aparelham-se as redes

as mãos falam com os olhos
dizem-se o como
por onde
caminhos de artes ancestrais
refeitos

as redes sofridas de tanto mar
descansam o serem assim
nestas carícias breves

não há mãos rudes
nem caminhos de pedras

há homens
artes e mar

o tempo calou-se para
ouvir o norte

colori tudo para que saibas
a xávega
é oiro que nas tuas mãos
os olhos entregam

leva-a

 

(torreira; companha do marco; 2011)

o voo da cabrita


na ria a ver o joão brandão e o joão dias a cabritar
tudo é muito célere
o fugaz instante em que
por aqui passo
já foi quando por ele

agarrar tudo
porque tudo é súbito
nada
entender é viver dentro
estar lá
ali onde

sei cada vez menos
o cansaço chega à raiz de mim

voo por sobre a ria
para morrer ao sol

(na ria com o joão brandão e o joão dias)

mãos de mar


 

o aparelhar das redes

o aparelhar das redes

 
como se criança
a rede pelas mãos
guiada e acarinhada

amor outro desta vida
de mar feita

como se mulher
abraçada
amantes antigos
de muito juntos serem
entrega-se

juntam-se
onde a vida se faz
aí se quedam
se reencontram
e são

mãos de rede
mãos de mar
de amar

mãos

 

(torreira; companha do marco; 2011)

chama-se rosinha


a rosinha, bateira labrega murtoseira
conheci-a um dia na ria
é a última das primeiras
das labregas murtoseiras
das que foram mar abaixo
desaguar no tejo subindo-o

é a última na ria
na bestida
é a última do saltadoiro
pesca antiga
mais que ela
à tainha

fui nela um mais
com o mais velho
o ti manel
um dia na ria
fui história
fui

em casa miniatura
das mãos do ti henrique afonso
saída outra rosinha
a minha

a do cravo
                  (murtosa; bestida; bateira labrega murtoseira)

nota:

era certamente numa destas que o meu bisavô se estabelecia num esteiro da azambuja – o esteiro do gorim – durante a época do sável. nela fazia pão e vendia mercearias. do esteiro não consta a localização. desse tempo, recordava a minha avó: “com quatro anos corria pelos campos, com o pão para os pescadores, a fugir dos toiros”.