o aparelhar das redes: as mãos


 

 

aparelham-se as redes

aparelham-se as redes

as mãos falam com os olhos
dizem-se o como
por onde
caminhos de artes ancestrais
refeitos

as redes sofridas de tanto mar
descansam o serem assim
nestas carícias breves

não há mãos rudes
nem caminhos de pedras

há homens
artes e mar

o tempo calou-se para
ouvir o norte

colori tudo para que saibas
a xávega
é oiro que nas tuas mãos
os olhos entregam

leva-a

 

(torreira; companha do marco; 2011)

o voo da cabrita


na ria a ver o joão brandão e o joão dias a cabritar
tudo é muito célere
o fugaz instante em que
por aqui passo
já foi quando por ele

agarrar tudo
porque tudo é súbito
nada
entender é viver dentro
estar lá
ali onde

sei cada vez menos
o cansaço chega à raiz de mim

voo por sobre a ria
para morrer ao sol

(na ria com o joão brandão e o joão dias)

mãos de mar


 

o aparelhar das redes

o aparelhar das redes

 
como se criança
a rede pelas mãos
guiada e acarinhada

amor outro desta vida
de mar feita

como se mulher
abraçada
amantes antigos
de muito juntos serem
entrega-se

juntam-se
onde a vida se faz
aí se quedam
se reencontram
e são

mãos de rede
mãos de mar
de amar

mãos

 

(torreira; companha do marco; 2011)

chama-se rosinha


a rosinha, bateira labrega murtoseira
conheci-a um dia na ria
é a última das primeiras
das labregas murtoseiras
das que foram mar abaixo
desaguar no tejo subindo-o

é a última na ria
na bestida
é a última do saltadoiro
pesca antiga
mais que ela
à tainha

fui nela um mais
com o mais velho
o ti manel
um dia na ria
fui história
fui

em casa miniatura
das mãos do ti henrique afonso
saída outra rosinha
a minha

a do cravo
                  (murtosa; bestida; bateira labrega murtoseira)

nota:

era certamente numa destas que o meu bisavô se estabelecia num esteiro da azambuja – o esteiro do gorim – durante a época do sável. nela fazia pão e vendia mercearias. do esteiro não consta a localização. desse tempo, recordava a minha avó: “com quatro anos corria pelos campos, com o pão para os pescadores, a fugir dos toiros”.

quem somos nós?


 

 

o maria de fátima

o maria de fátima

quem somos nós?
que tão pouco contamos
a não ser para as contas dos que
contos nos contam de encantar
quem somos nós?

que gente é esta que ganha ao mar
para perder em terra?

flores no peito vermelhas em abril
secam o ano inteiro em jarras
de fato e gravata
decorando salas onde se passeiam
camaleónicos figurantes

quem somos nós
que deixamos de ser
para sermos o que querem?

vencer o mar
não é vencer na vida

 

(torreira; companha do marco)

o “mendigo basilius” na feira medieval de penela 2013 (o álbum)


no próximo sábado dia 7 de junho de 2014, tem lugar em coimbra, no largo da sé velha, mais uma edição da feira medieval de coimbra, em que participa o “mendigo basilius”.

já no artigo  publicado em 17 de maio de 2014, sob o título “basilius na feira medieval de penela (1) mais tarde no artigo “basilius na feira medieval de penela (2), foi desenvolvida uma biografia do basílio por detrás do “mendigo basilius”, pelo que se torna desnecessário acrescentar mais palavras, onde as imagens são o motivo.

sejam bem vindos a coimbra

 

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varela pècurto


varela pècurto

varela pècurto

hoje, dia 31 de maio de 2014, na feira da cultura em coimbra, foram comemorados os 50 anos das fotos aéreas da cidade, feitas por varela pècurto, com a exposição de fotos dessa viagem, repetida no cinquentenário.

com um percurso de vida cheio de história e de estórias, varela pècurto é um homem sem tempo e na companhia de quem o tempo se some.

como as cerejas…. um além tejano em coimbra, é sempre um além tejano

(Eduardo Francisco Varela Pècurto nasceu em Ervedal do Alto Alentejo a 27 de Abril de 1925. Fez o liceu em Évora onde casou com Gláucia Maria Farracha que muito o ajudou ao longo da sua carreira profissional. Nesta cidade foi iniciado na sua profissionalização com David Freitas e Eduardo Nogueira.
Em 1950 fixou-se em Coimbra para dirigir uma secção fotográfica na Livraria Atlântida, passando depois para a “Hilda” onde foi sócio gerente, formando e orientando durante meio século este espaço dedicado à fotografia. Fez parte do «Grupo Câmara» que ajudou a desenvolver individual e colectivamente conseguindo-lhe renome internacional. Concorreu a salões de arte fotográfica onde conquistou placas, medalhas de ouro, prata e bronze e objectos artísticos, destacando os realizados em Portugal, África do Sul, Alemanha, Angola, Argentina, Áustria, Bélgica, Chile, China, Cuba, Dinamarca, Espanha, França, Índia, Inglaterra, Jugoslávia, Marrocos, União Soviética e Uruguai.

https://www.facebook.com/eduardo.pecurto.5/info)

continuo eu


 

como escreveu o poeta "ei-los que partem"

como escreveu o poeta “ei-los que partem”

que mais me resta senão
inventar
dia a dia o dia em que
pinto tudo de novo
como se casa minha
habitada por

e vou por aí
com os sonhos no peito
emprestando a ilusão
de que tudo é belo
e a serenidade algo tão natural
como o seu inventar

aquietadas as angústias
abro os braços
e abraço o vazio

continuo eu

 

(ria de aveiro; torreira)

aparelhar


 

os braços encaminham a manga

os braços encaminham a manga

 

na zorra as mangas e o saco secos, estão prontos para serem de novo carregados no barco e ao mar retornar.

o lanço começa agora, no aparelhar (dispor redes e cordas no bojo do barco).

“quem vai ao mar avia-se em terra”

os homens que vão ao mar, são os que sabem do aparelhar, na areia carreiam as redes, para os que dentro do barco as acomodam como manda a arte.

braços e mãos são caminhos.

 

(torreira; companha do marco; 2011)