ir ao mar com o marco (5)


 

 

e o reçoeiro vai saindo do barco enquanto nós entramos pelo mar

e o reçoeiro vai saindo do barco enquanto nós entramos pelo mar

vamos agora mar adentro, o reçoeiro corre por bombordo, pelo bordão que o ampara para que não se fira e siga sem nós.

 

vêem-se os rolos de corda do reçoeiro, na metade da ré do barco, por baixo dos quais estão as mangas.

 

note-se que o barco está na perpendicular à praia e na direcção do tractor que ala o reçoeiro.

 

cada vez mais longe da praia, mais perto do silêncio e, quem sabe, de algum cardume de carapau que encha o saco.

 

 

(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com o marco (4)


 

o reçoeiro laçado na bica da ré

o reçoeiro laçado na bica da ré

 

no registo anterior mostrava-se o reçoeiro com uma volta dada no escalamão de estibordo, para ficar preso enquanto o barco navega paralelo à costa.

neste registo, feito noutra ida ao mar, o arrais marco deu, na bica da ré, uma volta ao reçoeiro, para o prender. esta é a prática mais habitual.

o mesmo processo é utilizado no arribar do barco, só que agora a cala (corda) é a mão de barca, prendendo-a ou largando-a o arrais controla a aproximação do barco da praia, esperando boas ondas que, ao jeito do surf, o levam até à areia.

 

 

(torreira; companha do marco; 2011)

quando os editores escrevem……


a capa do livro

a capa do livro

 

a propósito de “para onde foram os guarda-chuvas”

mais um excelente livro de afonso cruz, com outro livro lá dentro – “Fragmentos Persas”.

a quem ainda não conhece o autor, recomendo este livro e depois… depois há os anteriores e vai-se até ao princípio possível.

mas não é do que escreveu o autor que quero falar, é do que a editora escreveu, isso sim, muito interessante.

no verso da penúltima página do livro, há uma “NOTA DA EDITORA”, que transcrevo

 

Entre os 5000 exemplares da primeira edição deste romance existem 2 que são completamente diferentes: um é a versão diurna, outro a sua versão nocturna.

Se o seu exemplar contém a palavra <Ankara>, escreva-nos para correio@objectiva.pt.

Temos uma oferta para si

 

como encomendei o livro mal soube da edição e o li em pouco tempo, com afonso cruz é assim, a 100 à hora, cheguei ao final, li a “Nota Editorial” e, no dia 26 de outubro, enviei um e-mail para o endereço indicado, imbuído do estilo do livro que tinha acabado de ler:

 

com licença


o meu exemplar de ” Para onde vão os guarda-chuvas” contém a palavra “Ankara”, aliás como em todos os outros já que, penso, a nota está em todos .

fragmento persa não encontrado

” disse Ali: muitos sabem ler, ó crente, porém nem todos sabem o que leram. alá seja louvado”

cumprimentos

 

como não obtive qq resposta, voltei ao ataque no dia 29, com novo e-mail no espírito do livro. foi assim:

 

com licença

a haver, a vossa maior surpresa para mim, seria o envio, a pagar, do livro “A carne de Deus”, o único romance de Afonso Cruz que não tenho.

fragmento persa nunca encontrado

” disse Ali: os livros não vão para o mesmo sítio que os guarda-chuvas, ó crente, mas também andam muitos infiéis à sua procura. alá seja louvado”

cumprimentos”

 

ao fim destes meses todos, nada. esqueci e não esqueci. a semana passada, por mero acaso encontro-me com um representante da editora e conto-lhe o que se passou.

que sim, que havia dois exemplares diferentes, que eu não devia ter enviado o mail para endereço correcto. quanto ao facto de a nota da editora ser algo sem sentido, remeteu para …. nem me lembro quem, porque afinal “há sempre outro”.

é pena que a edição dos nossos melhores autores esteja assim entregue a quem brinca com a língua que parece desconhecer.

fica aqui o desabafo e a melhor coisa é não acreditar no que lês, isso é ficção, embora não seja da melhor.

por favor leiam o livro e todos os outros do afonso cruz, ele não tem culpa

 

ir ao mar com o marco (3)


rumo ao norte

rumo ao norte

continuamos a navegar para norte, paralelos à praia. o reçoeiro vai amarrado com nó simples no escalamão de estibordo  e faz um arco, bem visível no mar.

na praia, o tractor do reçoeiro corre pela areia, arrastando a zorra com o pessoal do reçoeiro.

acompanha o barco até ele virar para poente, mar adentro.

começa depois a alar o reçoeiro e mantém-no tenso durante todo o processo de alagem.

a companha de mar está a postos e a uma ordem do arrais, que vai ao motor, lá iremos.

 
(torreira; companha do marco; 2011)

saída limpa


 

 

um depósito inovador

um depósito inovador

 

souberam dele porque
sabem de todos os que lhes interessam
os números somam-se nas máquinas
onde todos somos mais um
menos um
conforme as existências e as necessidades
estatísticas de interesses

depois de ter sido despojado de tudo
o que pensava ter ainda para viver
depois de tantos anos a dar para receber
recebeu a nova de que não ia receber o que
que apesar de trabalhar mais
iria ganhar menos
que mau grado os sacrifícios
o mínimo era o que lhe pagavam se ficasse

antes de partir
não perdeu tempo
em três sacos negros como os tempos
que se avizinhavam
juntou o que tinha e foi depositá-lo no banco
mais próximo
afinal era nos bancos que tudo começava e acabava

lixo depositou
afinal
nada mais quis que
uma saída limpa

ir ao mar com marco (2)


o horácio a ler o mar

o horácio a ler o mar

 

 

à minha frente o horácio, a quem ao princípio apelidei de filósofo sem lhe saber o nome, olha o mar.

olha e vê, adivinha o onde, pensa o como. ele é o homem mais à proa, dele podem ser algumas indicações para quando o barco se fizer ao largo.

caminhamos, se assim se pode dizer, paralelamente à praia e em direcção ao norte, largar a rede a norte, deixar que ela venha para sul com a corrente dominante e fazer com que o saco chegue a terra no mesmo sítio de onde o barco partiu e tudo estará a postos.

essa a arte da arte

 

(torreira; companha do marco; 2011)

confissão


deixar morrer, recuperar ou vender para os canais de aveiro?

chega o dia em que conjugar
os verbos no pretérito
é forma quotidiana de
falar dos dias
somos mais o que fomos do
que o que pensamos vir a ser

somos porque fomos
e no que fomos o termos sido
seja um sorriso hoje
a saudade não cabe no tempo contado
cabe no tempo a descontar
por não haver tanto quanto houve

caminho cansado por vezes
mas com os bolsos cheios de dias
distribuo sorrisos quando digo de mim
histórias que podem parecer inventadas
mas que como eu

estão vivas

deixar morrer, recuperar ou vender para os canais de aveiro?

(ria de aveiro; torreira)

ir ao mar com o marco (1)


 

 

encostado ao castelo da proa vai um homem com máquina fotográfica

encostado ao castelo da proa vai um homem com máquina fotográfica

 

quando o mar permite e o arrais consente, lá vai o fotógrafo dentro do barco, sentir o silêncio do mar e documentar o fazer do lanço.

neste registo pode-se ver que o barco navega paralelo à costa, em direcção a norte, procurando uma boa entrada.

pela bica da ré, o vitó vai controlando a primeira corda do reçoeiro que, neste caso é mais fina que os restantes rolos – não vai ser necessária para alar o aparelho, destina-se somente a permitir que o barco faça a entrada mais a norte. depois é recolhida e enrolada separadamente.

o mar estava calmo, por isso me deixaram ir, por isso fui. que fotografar pancadas de mar, de terra, é uma coisa, levar com elas em cima …não é conveniente, nem o arrais pode correr esse risco.

 

(torreira; companha do marco; 2011)