não desgastes as palavras
aprende a ouvir o silêncio
a estares por dentro dele
a seres silêncio também
para que a voz te saia límpida
e o grito
o teu grande grito
seja claramente escutado
não desgastes as palavras
braços abertos cega
correu mar
trouxe peixe ou não
na boca imensa
estômago ávido
leve
muito leve
vogou
peixe se o houve
dele cuidaram para a outra fome
e de festa foi o ter havido
esvaído no areal
pesado de tanta areia e mar
espera dos homens os braços
que o libertem
e o levem onde o sol
o tornará de novo ave
para novas viagens
a zorra
a zorro o levará
(torreira; companha do marco; 2010)
estão no início e no fim
que à terra volta o que da terra veio
com ela se confundem desde sempre
são o seu rosto o seu corpo vivo
o tempo rasgou-lhes na face
os sulcos onde semeou ternura
e amor
pelas coisas simples
água terra fogo
amam tudo
que natural é assim ser
o milho os animais o chão
amam-se
entre luz e sombra
repartem o dia
porém
tudo iluminam
quando sorriem
são ainda a fala da terra
(condeixa; eira pedrinha)
deles direi à margem
inventaram os centros comerciais
a céu aberto
são senhores do marketing
reinam onde o dinheiro escassa
sabem onde e vão
pais do povo a quem estendem
a mão
contrafeito
numa terra onde a marca
marca quem a tem
o prazer de enganar a imagem
de desconstruir os símbolos
não enganam é mesmo feito em portugal
aqui onde quase tudo é feito na china
com marca
sorriem sempre
sorriem muito
de onde vêm para onde vão
é coisa sua
agora
estão aqui e inventam o sonho
a quem só isso resta
sigam-nos
(coimbra; bairro norton de matos)