alfredo amaral


"sou feio mas sou moderno"
alfredo amaral
aqui te digo amigo
que me orgulho de te ter como
saber a tua história
o que foste  o que és
de pequenino aos pés da tua mãe
a ver trabalhar o mar
agora já homem
a dar duro no pão

o mar que ela agora não vê
a tua mãe alfredo
a ana
é agora tua filha
onde o mar é teu irmão
e pai

saber como és mais que tu
sabendo-te
sorrindo
jamais exigindo
quem conhecendo-te
te poderá dizer não?

que todos os filhos
sejam como tu
sem serem como tu
é desejo que fica
é palavra que deixo
é desejo

abraço-te
e sorrio
porque tu és feio
mas és moderno

quando há tantos modernos
horrorosos

(torreira; 2011)

Homenagem a seis porta-vozes da memória Avieira


No decurso do 3º Congresso Nacional da cultura Avieira, foram distinguidos seis pescadores Avieiros, três homens e três mulheres, com idades compreendidas entre os 80 e os 88 anos.

O entendimento do Instituto Politécnico de Santarém ao homenagear pescadores avieiros transmissores de saberes, fazeres e inúmeros saber-fazer, decorre deste ser um dos objectivos prioritários para levar a cabo a salvaguarda do património cultural avieiro, garantindo assim que prossigam com a expansão dos seus conhecimentos e técnicas e que, por sua vez, as transmitam às gerações mais jovens.

Este reconhecimento público, em vida dos homenageados, reflecte uma postura pela qual aos que têm mérito deve reconhecer-se-lhes em vida as características particulares que os distinguem dos demais e os evidenciam como modelos.

O reconhecimento público foi simples mas carregado de significado, de emoção e de afecto, e consistiu na atribuição de diplomas e da leitura pública de uma síntese do seu trajecto de vida. A entrega destes diplomas foi feita em sessão pública solene, no 3º Congresso Nacional da Cultura Dia Avieira, no dia 9 de Junho de 2012.

Pela importância do seu exemplo, junto apresentamos uma Folha Informativa na qual se apresentam sínteses de currículos de vida desses homens e dessas mulheres, que simbolizam afinal o trajecto de todos os que pertencem àquela comunidade, e justificam por que razão lutamos pelo reconhecimento e pelo domínio de instrumentos necessários ao trabalho e à sobrevivência.

 

Gabinete de Coordenação

(Candidatura da cultura Avieira a património nacional)

 


Cultura Avieira – Um património, uma identidade

 

FOLHA Nº20-2012_Porta-vozes da memória Avieira

o meu país está doente


 

 

o meu país está

doente

sofre de carros de luxo

e de pés descalços

de digestões difíceis

e de falta de pão na mesa

 

o meu país

sofre de euro

receitaram-lhe troika

sofre ainda mais

 

o meu país

não é um mapa

na geografia do mundo

uma selecção no europeu

um jardim à beira mar

implantado

 

o meu país

é a sua gente

e é tão diversa a gente

do meu país

 

o meu país

são muitos dentro da geografia

a bandeira não cobre todos

quantos fariam dela cobertor?

 

(por)tu(gal)

trato-te por tu

andas descalço

desempregado

com reformas de miséria

com fome

revoltado e conformado

 

portugal

estás mesmo muito mal

portugal

tu és o meu país

mas escuta

não foi assim que te quis

 

portugal

porque é que o senhor presidente

não está também doente?

Divulgação pública da base de dados sobre os Avieiros, que foi o suporte do livro “Avieiros – Dores e Maleitas”


De acordo com o que fora prometido anteriormente, junto se anexa um ficheiro com toda a base de dados criada pela Dra. Lurdes Véstia, para fundamentar o seu estudo sobre as dores e as maleitas dos Avieiros, já pulicado em livro sob chancela da Âncora Editora.

A base de dados foi construída a partir da sistematização dos ficheiros do hospital da Santa Casa da Misericórdia de Santarém, abrange o período que medeia entre 1858 até 1966, e comporta 691 registos.

De acordo com o seu Provedor, Eng.º Mário Rebelo, o acervo documental da Santa Casa da Misericórdia de Santarém constitui um património único. Ficará sempre incompleta a história dos últimos cinco séculos da região escalabitana, sem uma consulta a este acervo documental. Foi este valioso e importante legado documental, que está à disposição da comunidade em geral e, mais especificamente, da sociedade científica e académica, que proporcionou a investigação fundamentada e comprovada que levou à produção dos resultados que agora se apresentam nesta obra [“Avieiros – Dores e Maleitas”], que urge divulgar.

Dessa base de dados específica, os autores autorizaram que tivesse divulgação pública, o que agora fazemos.

As fichas foram extraídas directamente do software utilizado para a construção da base de dados, pelo que se apresentam em formato PDF, não podendo ser alterada a formatação. Desta forma a presente Folha Nº 19-2012 não apresenta a página de rosto como tem sido norma. Apesar de não sermos responsáveis por tal facto, apresentamos as nossas desculpas aos nossos leitores.

 

Gabinete de Coordenação

(Candidatura da cultura Avieira a património nacional)

 


Cultura Avieira – Um património, uma identidade
 

A celebração do 3º Dia Nacional do Avieiro, Barreira da Bica (Vale de Figueira-Santarém), 2012


Decorreu o 3º Dia Nacional do Avieiro, no dia 1 de maio de 2012, desta vez tendo como cenário a antiga aldeia de Barreira da Bica, situada na freguesia de Vale de Figueira, concelho de Santarém.

Contou com várias centenas de participantes, entre antigos pescadores, descendentes e seus familiares, convidados e entusiastas na divulgação e preservação da cultura desta comunidade. A comunidade Avieira encontrou-se de novo para celebrar anualmente e construir o seu projecto identitário.

Desses momentos inesquecíveis vos damos conta na presente Folha Informativa.

O gabinete de coordenação

(Projecto de candidatura da cultura Avieira a património nacional imaterial e da Unesco)


Cultura Avieira – Um património, uma identidade

 FOLHA Nº18-2012_3º Dia Nacional do Avieiro_BARREIRA DA BICA[1]

companha do marco, em colaboração com jorge bacelar


são estes os heróis
que o hino canta

ainda o sol não nasceu
já o arrais lê o mar
na pauta das ondas
estuda ritmos e pausas
lisos, lhes chama

afinada a companha
estudada que está a sinfonia
todos a executam a seu mando
vão seguros
ao encontro do incerto pão

aprenderam a ler o mar
antes das primeiras letras
sem o saberem
deixam escrito na espuma dos dias
um canto imenso à grandeza
de ser homem aqui
onde por vezes parece que já não

Poema de ahcravo

 

 

o poema


moliceiro zé rito_torreira
o poema
nasce devagar
sem pressas
de ser
paciente
vai juntando palavras
dando colorido
aos dias que habita

o poema
é uma criança ainda
quando brinca na brancura
do papel
e faz sorrir quem o lê

escuta
fala-se
entrega-se
procura-se em

isso lhe basta
e já foi

(torreira)

para além de


vejo-me ainda no olhar
o outro
nas palavras
nos silêncios
descubro-me e descubro

escuto-me
ouvindo
eu sou já o
cresci em mim
ao sê-lo também

nos que me rodeiam
sou
com o prazer
de me ser
não sei de solidão
somos muitos em mim

seremos ainda
quando um não for
assim a memória de um tempo
para além de

(torreira)