o meu povo


a roupa a secar algures

uma ida à horta

por umas couves

uma vida assim

entre a casa e a lavoura

com domingos de missa

procissões de santos

 

um copo na mesa

e o homem

à espera

os filhos criados

os netos com eles

longe

que aqui não

 

pelas ruas da aldeia

mais que o alguidar

carrega os anos

que por aqui anda

(não sei se ainda)

 

há dias de festas

de feiras

(de compras em conta)

de vendedores à porta

que ainda fiam

e confiam

 

há gente assim

aqui:

é o meu povo

em abril a 25


em abril a 25

voámos de novo
numa madrugada clara
libertos de vendas
grilhetas e guerras

sonhámos um país novo
um país puro e limpo
feito de manhãs eternas

quisemos a utopia
guardada tantos anos
nos baús de acesso restrito

voámos
demos as mãos
mais que amigos
dissemos: irmãos

corremos
chorámos
beijámos

dissemos:
a paz
o pão
habitação

continuamos
porque ainda se não cumpriu
aquilo com que sonhámos

em abril a 25

um taxista para a história


 

queria-te dizer

fernando

a ti que tantos foste

que isto de uma pessoa

andar para aqui a escrever

num país de poetas

não é fácil

 

que ele

há palavras, há

encontrá-las é que é o diabo

fazer delas um poema

é um drama

e não é

porque afinal

não é poema

é isto

 

uma imagem

a tua

umas palavras

minhas

 

e o vício

sim o vício

de dizer coisas

mesmo sem sentido

como estas

 

esquece

daqui a uns tempos

ninguém se lembrará de mim

nem sequer do monólogo

que tive contigo

já de mármore em oeiras

a do isaltino

ele sim

lembrado pela sua grande obra

 

e um humilde taxista

algures

xávega_naufrágio na praia de mira



nelson monteiro_dono da companha

o barco de mar que se afundou_ sr. dos aflitos

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2012/04/22/embarcacao-de-pesca-tradicional-virou-se-em-mira-com-cinco-tripulantes-a-bordo

O comandante da Capitania do Porto de Aveiro,  Coelho Gil, disse que a embarcação Nossa Senhora dos Aflitos virou-se cerca  das 11:00, junto à praia.

Segundo a mesma fonte, os tripulantes “chegaram à costa pelos próprios  meios”, não havendo ninguém em perigo.

Por volta do meio-dia, os tripulantes, apresentando “pequenas escoriações  e uma dose de hipotermia” dirigiram-se para o hospital de Coimbra a fim  de receber tratamento.

Coelho Gil adiantou ainda que a embarcação tinha sido dada como perdida.

Segundo fonte do Centro de Busca e Salvamento, após o naufrágio foram  enviadas para o local uma embarcação da Polícia Marítima e outra do Instituto  de Socorros a Naufragos, mas os tripulantes já tinham chegado a terra pelos  seus meios e com o auxílio de uma mota de água.

A arte da xávega é um processo de pesca tradicional feita com pequenas  embarcações em que as redes são lançadas ao largo da praia e depois puxadas  para terra por tratores.

(ao telefone com um arrais da praia de mira, soube que o barco meteu água ao apanhar a primeira pancada de mar e que na segunda voltou a acontecer o mesmo, tendo ido ao fundo)

voa


 

voa

 

 

o céu não

é onde dizem

é onde

quiseres que seja

 

estende os braços

não há vazios

em torno de ti

apenas outros braços

ignorando também

que podem voar

 

é tempo de roda

e saltar à corda

escorregas e malha

e gargalhadas soltas

 

voa

 

(skim board; buarcos)

a minha ria


estranha beleza esta

erguida sobre

moribundos fundos

poluídos

contaminados

pela ganância do lucro

 

cantem a ria

cantem-na sim

depois de a terem silenciosamente

assassinado

cúmplices

no terem estado aqui sempre

 

vendam os postais

falem das belezas que queiram

exibam-se nas fotografias

nas ruas e nos largos

mas é de lodo

lama e podridão que falo

 

digo:

esta já não é a ria

que me viu crescer

 

esta é a ria onde ainda

há homens que colhem o pão

amargo e amargos

de se saberem tão pouco

nos actos de quem

tanto deles a barriga enche

 

esta é a ria

que me deixaram

mas que não deixo

 

(torreira; marina dos pescadores; maré cheia)