é urgente


o pescador filósofo

ando por aí
no inventar de caminhos
encontros e desencontros
fabricando sonhos
nas noites diurnas

a acender fogos
no seio das rochas mais frias
para que nasçam rios cheios
de olhos abertos

a plantar árvores
em cima do mar
ver crescerem barcos
onde mais que homens são
os que lá dentro vão

na minha rede só letras
plantadas nos regos abertos pela enxada
desta cabeça imparável

acender lume nas pedras
abrir olhos nos rios

é urgente

(torreira; companha do marco; 2011)

xávega_o aparelhar


o saco

 
barco no mar, barco em terra, trabalho sempre.
 
neste registo podem-se ver as redes sobre a  “zorra” (espécie de maca de madeira, constituída por tábuas pregradas sobre dois rolos atravessados na face inferior), para não se encherem de areia, enquanto se começa a aparelhar o barco.
 
de notar que, neste caso, se começa pelo saco. o falecido arrais zé murta, carrega a extremidade do saco, que depois contornará a bica da ré para ficar abraçado nela.
 
(torreira, companha do murta, 2007)
 

A produtividade e o exterminador


o exterminador insaciável

em nome da produtividade tudo nos leva o exterminador, que homem só não é, mas todo um governo de trogloditas (sabe-me tão bem esta palavra aqui), com infiltrações internacionais.

foram-se feriados, vão-se dias de férias, aumenta-se o horário de trabalho, reduzem-se remunerações … e não há judiciária que chegue para tanto roubo.

mas, falemos de produtividade, não teoricamente mas em termos práticos, através da minha experiência profissional e pessoal.

na década de 90 fui consultor de uma das maiores multinacionais alemãs de confecção têxtil, para a instalação de duas unidades de produção. Criaram-se cerca de 1.500 postos de trabalho, com recurso a todos os fundos comunitários possíveis.

os trabalhadores, na sua maioria mulheres, foram recrutados entre jovens sem qualquer experiência industrial, saídos do ensino ou dos campos de cultivo da economia familiar. Durante 2 anos foi-lhes ministrada formação e iniciaram, logo que possível, a produção.

ao fim de dois anos pedi ao encarregado geral, representante da empresa mãe numa das unidades, que fizesse uma avaliação da produtividade média das trabalhadoras, para termos uma ideia concreta do trabalho realizado.

para surpresa dele, e minha, a produtividade ultrapassava os 90% de uma operária alemã, com anos de experiência e vencimento muitas vezes superior.

produtividade baixa em portugal? só por falta de investimento em equipamento moderno e de topo.  a maioria dos empresários portugueses, mais patrões que outra coisa, ainda  baseiam os seus lucros na mão de obra barata e nos ganhos a curto prazo. pois, meus caros, eles sim, é que deviam ser objecto de todos os cortes, que trabalhem!

mudando o ditado: à banca e ao patrão dá sempre o governo a mão.

e porque vem a talhe de foice, um episódio que revela bem o espírito germânico de controlo de produção.

tempos depois vim a saber que as trabalhadoras que engravidavam não tinham o seu contrato renovado. questionei o responsável pela fábrica sobre esta matéria e foi-me dito que tinha que ser, em nome da produção, e para não se criarem maus hábitos; acrescentou, mesmo, que num país do norte de áfrica, numa fábrica que lá tinham montado, dissolviam a pílula na sopa do almoço, o que aqui não era possível.

em poucos anos as duas fábricas encerraram. já tinham sugado o que podiam e partiam para outro país.

vão à merkel

quando o mar trabalha na torreira_manuel neto


manuel neto

 

seria nevoeiro
não fosse do cigarro
o fumo

aqui tudo é condicional

contam-se histórias
espera-se melhor
vive-se do que o mar dá

tudo no seu tempo
foi é será condicional

até a areia
é outra
quando surge de verão
com o novo vestido
que a invernia moldou

é de mar o tempo
em que o verbo ficou

 

(torreira, século XX)

xávega_do arribar (5)


agostinho tabalhito (canhoto)

 
ainda o barco vai de arrasto pelas areia e já começa uma outra faina, a do escoar a água que entrou no barco e areia que ficou depositada no fundo, deixada cair por calas e rede.
 
o agostinho trabalhito (canhoto) empunha um escoadouro de metal, mas que normalmente é de madeira ou, até, improvisado cortando garrafas de plástico de 5 cinco litros ou mais.
 
a este utensílio também se dá o nome “vertedouro” nas artes da ria.
 
(torreira; companha do murta; 2007)

o tejo e a poesia_pedra sobre pedra


PEDRA SOBRE PEDRA

(transcrição da newsletter)

Na continuação dos relatos resultantes das experiências que os nossos colaboradores viveram em Constância, a Vila Poema, publicamos hoje uma Folha dedicada a um percurso pedestre pelas ruas e pontos históricos de Constância, realizado no dia 25 de Setembro e integrado nas comemorações do Dia Mundial do Turismo e II Jornadas Europeias do Património, promovidas pela Câmara Municipal, percorrendo as páginas da sua história escrita em “pedra”, neste extraordinário sítio sobranceiro ao Tejo.

Este é um dos locais que integram a Rota da Cultura Avieira.

 O gabinete de coordenação

(Projecto de candidatura da cultura Avieira a património imaterial nacional e da UNESCO)

 
Cultura Avieira – Um património, uma identidade

FOLHA Nº35_O Tejo e a Poesia – PEDRA SOBRE PEDRA[1]

ainda


o meu povo
 
as palavras
saem-me amargas
como amargos são estes dias
que me emprestaram

como cantar o amor
a beleza as árvores os rios
e as flores
num tempo avinagrado áspero
de desilusões

não sei ser só
nunca soube

estendo os braços
num abraço de palavras
sinto nos ossos que
este é o meu povo
mas não é um povo que seja seu
ainda

xávega_do arribar (4)


olá sam paio_arribar

 
neste registo vê-se bem o falecido arrais zé murta, na bica da ré a segurar a cala “mão de barca” – corda que fecha o cerco e vem com o barco – laçada na bica da ré.
 
é ela que faz o fixe do barco e é através do deixar correr, ou prender, que o arrais vai deixando o barco aproximar-se de terra ou, como dizem os surfistas, “apanhar a onda” que o trará em segurança até terra.
 
por vezes, muitas vezes, são necessárias várias ondas para o conseguir. o arrais é então o verdadeiro mestre da “arte de bem arribar com qualquer mar”
 
(torreira; companha do murta; 2007)

quando o mar trabalha na torreira_luisa da calada


 luísa da calada

(irmã do arrais joão da calada e viúva de tiago branco)

sei das letras os desenhos
pelas crianças feitos
na areia da praia

no alfabeto da minha vida
cada dia é uma letra
umas mais cheias
outras mais finas
escritas pelo mar
dia a dia marcadas
no corpo que no meu rosto
se espelha

dos números
as contas
somar peixe
dividir sardinha pão
subtrair dias de norte

multiplicar
nunca houve o quê
neste viver feito do mar
azar e sorte

(torreira, século XX)