xávega_o arribar (3)


a espera
o zé caravela e a marlene murta esperam, de ganchos na mão, o arribar do barco de mar que, pela postura e o olhar de ambos, estará para pouco.
 
este registo é o reconhecimento da marlene como mulher da torreira, sem quaisquer problemas de assumir tarefas que normalmente só aos homens cabem.
 
(torreira; companha do murta; 2007)

o tejo e a poesia “campos de memória”


o tejo e a poesia "campos de memória"

(transcrição da newsletter)

Esta Folha trata do relato dos percursos pedestres e culturais tendo como fundo a Vila Poema (Constância) e de todos os detalhes que lhe dão identidade única.

É uma Folha sobre as memórias desses campos e desse património. Segundo os seus autores, Ana Paula Pinto e Carlos Vitorino, “nos lagares das quintas que visitámos, a maquinaria inerte (…) espera melhores dias. Dias em que renasçam num museu vivo”…

De acordo com o seu relato, “o percurso pedestre pela parte norte do concelho de Constância inicia-se pela estrada junto ao Tejo. Um pouco à frente do cais, onde permanecem alguns barcos, propriedade da Câmara e do Sr. Sérgio, último avieiro destas “paragens”, tomamos uma estrada ainda mais estreita. Segue pela margem direita do rio, campo dentro…”

Aqui fica o registo destes percursos que nos ensinam a reconhecer as nossas raízes e que se incluirão na Rota da Cultura Avieira, que continuamos a construir.

 

O gabinete de coordenação

(Projecto de candidatura da cultura Avieira a património imaterial nacional e da UNESCO)

 

Cultura Avieira – Um património, uma identidade

FOLHA Nº34_O Tejo e a Poesia – CAMPOS DE MEMÓRIA

o tejo e a poesia_constância 2011


 

o tejo e a poseia_constância 2011

(transcrição da newsletter)

Assinalamos as II Jornadas Europeias do Património e o Dia Mundial do Turismo, em que participámos no mês de Setembro, em Constância, em actividades promovidas pela sua Câmara Municipal.

Por motivos da riqueza e da quantidade dessas actividades foi difícil encontrar o equilíbrio para relatar “ O Tejo e a Poesia” e as seguintes, sempre na perspectiva de obter o máximo de informação vivida.

A apresentação dessas actividades resultou num conjunto de 5 foto-textos que agora publicamos em forma de Folhas Informativas. Constituem partes do, digamos, documento inicial, ao qual se deu o nome genérico de “O Tejo e a Poesia”.

O documento inicial – por nós designado como Parte I, e que agora publicamos – corresponde ao seminário de sábado dia 24, que decorreu na Casa Memória de Camões, promovido em colaboração com a associação “Amigos do Tejo”.

Segue-se um conjunto de mais quatro Folhas, correspondentes às restantes “partes”, todas integradas nas II Jornadas Europeias do Património, celebradas em Constância:

Parte II: Campos de Memória – Percurso pedestre pelas quintas do concelho;

Parte III: Pedra sobre Pedra – Percurso pedestre e visita pela vila a locais de interesse histórico e cultural;

Parte IV: EcoConstância – Passeio fluvial com observação da fauna, da flora, e da sua relação com o património imaterial de Constância;

Parte V: Percurso Camoniano – Percurso nocturno ao Jardim Horto de Camões, Casa dos Arcos (Casa Memória) e alguns pontos da vila, com declamação de poesia e música quinhentista.

 

Gabinete de Coordenação

(projecto de candidatura da cultura Avieira a património imaterial nacional e da Unesco)

Cultura Avieira – Um património, uma identidade

 

 
publicação da newsletter nº33 do gabinete de coordenação

o instante


e, no entanto

 
de bolor
estes dias anoitecidos
bafientos
 
e
no entanto
há ainda o voo
não do moscardo
mas do homem
no
exacto instante
em que
poisado
em tábua frágil
se ergue sobre
o mar
 
nada existe
então
senão
o instante
o breve instante
suspenso do tempo
sem chão
aparente
 
em que tudo é
sem nada ser
 
o vento corre sobre as ondas
e os homens

cesária e os outros


cesária évora_fotografia do site do ministério da cultura do brasil

 

dois testemunhos de amigos que conviveram com cesária. um de um caboverdiano chamado john, amigo dos meus tempos de s.vicente (1962/64) e a viver em cabo verde, outro de uma portuguesa que tem por cabo verde uma grande paixão e que pretende ficar no anonimato.

 

testemunho anónimo:

 

Em 1990, em S.Vicente, conheci pessoalmente a Cesária num bar onde ela costumava cantar . Empatia imediata com uma mulher simples , direi até de uma ingenuidade tocante . Dias depois , novo encontro e, conversa para cá e para lá ( bem regada com uns whiskies … ), digo-lhe que, em Junho, teria portador para algo que quisesse de Portugal . ” Manda bacalhau ! ” ! ” Cize, bacalhau por portador e de avião ? Não pode ser ! ” … Manda um tecido bem lindo para eu fazer um vestidinho ” . E, mandei mesmo. Cesária, nesse céu tão grande onde tu estás , quando quiseres olhar o mar azul da tua ilha, põe esse vestido bonito, canta como só tu sabes ( e, o Ildo também…) e, sê muito feliz

 

testemunho de john

 

Há cerca de 25 anos. eu ia muitas vezes ao “Piano Bar” do Chico Serra, no Mindelo. A Cesária passava frequentemente por lá e, se lhe apetecia, cantava. Por vezes, fazia-o após muita insistência dos amigos e havia noites em que até atendia aos nossos pedidos para cantar especialmente uma ou outra morna do seu imenso reportório. Eu gostava de ficar de pé, ao balcão, e acontecia, com não menos frequência, a Cesária mandar-me recados, através do empregado que servia o pessoal nas mesas, para pagar-lhe um whisky ou um chocolate, pedidos a que sempre satisfazia. Anos mais tarde – no início da carreira internacional da Cesária e quando ela ainda passava períodos de descanso relativamente longos na ilha -, ocorreu, uma noite, o seguinte episódio. Estando eu de visita ao amigo Pakey no “Bar do Povo”, do qual era proprietário, porta aberta sobre a Rua Machado, retirei-me por breves instantes para verter águas e, quando voltei, pedi ao barman que me dissesse quanto devia, pois queria ir-me embora. Foi então que ele respondeu: “Nada deves! A Cesária passou por cá e viu-te quando ias à casa de banho. Perguntou-me se tinhas tomado alguma coisa, insistiu em pagar a tua conta, deixou-te mantenha e saíu. Para quem não sabe: “deixar mantenha ou mandar mantenha” é o mesmo que “deixar saudades”.

 

o mundo é muito pequeno. seria interessante juntar mais testemunhos de convivência com cesária (cize).

 

 

no dia em que cesária morreu_sodade


cesária évora_foto da net

 

à memória de cesária, um trabalho breve sobre sobre “sodade”, escrito em 2010, como apoio de Ernestina Santos )

sodade: canção da triste denúncia, revolta sofrida

se há povo que se pode considerar cidadão do é o povo de cabo verde, a diáspora é imensa e incontáveis os países onde buscaram melhores condições de vida.

quem não conhece a canção “sodade” que, apesar de cantada há muito por muitos, cesária évora trouxe para o palco do mundo? para mim, uma das mais belas canções que conheço e das mais dramáticas.

a letra, em crioulo e em português, devo-a à nossa amiga ernestina, ei-las:

(crioulo)

“sodade

quem mostra’ bo
ess caminho longe?
quem mostra’ bo
ess caminho longe?
ess caminho
pa são tomé?

sodade sodade
sodade
dess nha terra são nicolau

si bô screvê’ me
‘m ta screvê’ be
si bô ‘squecê me
‘m ta ‘squecê be
até dia
qui bô voltà

sodade sodade
sodade
dess nha terra são nicolau

(tradução um pouco à letra para se perceber bem as palavras)

saudade

quem te mostrou
esse caminho longe?
quem te mostrou
esse caminho longe?
esse caminho para são tome?

saudade, saudade
saudade
da minha terra são nicolau

se me escreveres
eu escrevo-te
se me esqueceres
eu esqueço-te
até ao dia
que voltares

saudade, saudade
saudade
da minha terra são nicolau”

porque é que um povo que é do mundo, para falar de saudade se refere a uma ilha ali tão perto, s. tomé?

é o drama que a canção denuncia de modo a escapar à censura, é a alma agrilhoada a espreitar a janela da liberdade.

o arquipélago de s. tomé e príncipe famoso pela qualidade do café e do cacau que produz, porém não tinha população que chegasse para a sua produção.

chamavam-se roças as explorações e roceiros os seus donos.

para suprirem a falta de mão de obra acenavam com promessas de fortuna aos cabo verdeanos, ali tão próximos. o contrato era celebrado por angariadores em cabo verde, conhecedores das necessidades do seu povo e dele sendo o primeiro carrasco.

a ida para s. tomé implicava o pagamento da passagem; um pedido de empréstimo a troco da promessa de bens futuros, resolvia o problema e iniciava a saga.

chegados à anunciada terra prometida, eram instalados em barracas do roceiro que, dentro do perímetro da roça, era dono e senhor de tudo: todos os bens necessários à sobrevivência dos trabalhadores tinham de ser comprados nas suas lojas. até as barracas tinham renda a pagar. o primeiro salário, já começava a não ser recebido, ao contrário era a dívida que nascia.

a safra terminada, faziam-se contas com o patrão e, em vez de ter dinheiro para receber, havia ainda dívidas para saldar. de assalariado a escravo a distância era curta.

o ciclo vicioso tinha-se iniciado: endividado para vir, mais endividado estava. como regressar?

quem ainda tinha alguém a quem pedir dinheiro para comprar a viagem de regresso e saldar a dívida ao roceiro conseguia regressar a casa, mais pobre do que tinha partido.

os mais pobres esses iam esperando….

a canção torna-se agora mais inteligível.

é esta a história por detrás de “sodade”, quem a ouve não imagina a dor que lhe subjaz, a revolta engolida, a vida sofrida.

será que todos os que a cantam lhe conhecem a história?

pequeno este contributo para a história de um povo que amo, de uma musicalidade inigualável.

ouço a cesária e emociono-me, como sempre.

mundo!

te


nós

 

despires-me-te
magia de saber
onde o corpo é

querer dizer-te
e não saber o quê
porque silenciada a voz
no sentir intenso de

caminhas por nós
caminhamos somos
erguem-se aquietadas
flores em botão
ansiosas por

bebe-mo-nos
a sede
e ficamos em silêncio
enquanto os corpos
cantam a música da vida

despires-te-me
te

quando o mar trabalha na torreira_ arrais zé murta


arrais zé murta (falecido)

 

olhos fixos no mar
não perco de vista os arinques
procuro a calime

vejo como se deslocam

pelos desvios
da perpendicular à areia
descubro as correntes

entretanto vou enrolando as cordas
preparando tudo para nova partida
que o tempo é pouco
e é preciso aproveitar
estes dias de sol e calmaria

pescador
em terra sou
o que as redes ao mar deitou

 

(torreira, século XX)

vem empurrar o sol


ainda há luz

 

anda

vem empurrar o sol

 

como são frios estes dias

gela-se por dentro

como se devagar fossemos

morrendo

e vamos, sabemo-lo,

mas podia ser de outro modo

 

como são pesados estes tempos

que tempos são estes

que não os queremos para ninguém?

 

as mãos

sonhos por dentro da concha

a aquecer um sol longe

 

rente à areia um vento ácido

tudo leva

sequer as gaivotas ficaram

casulos de penas com pernas

 

há um sonho de criança

poisado nestes dias

um luto na voz

 

porém

se empurrarmos o sol

as nuvens quebram-se ao peso da luz