quando o mar trabalha na torreira_mulher do torrão do lameiro


 

 

mulher do torrão do lameiro (?)

 

quanto tempo mais
andarei por aqui
a escrever no livro da xávega
as linhas poucas
da minha vida

os anos passaram
no correr da areia pelo vento
levantada

a noite aproxima-se

tudo olho com amor
porque tudo sou eu
em tudo estou ou estive

a minha assinatura
deixada nas cordas redes
peixe que escolhi e carreguei
é só mais uma
como eu

quanto tempo mais
andarei por aqui ?

fui de novo


de novo

escrevo o tempo
onde me inscrevo
gravadas na pedra dos dias
as palavras

inscrevo-me
em lado nenhum
não sigo qualquer escola
que não a do coração
a saltar-me para as palavras

estou
definitivamente estou
por mais incómodo
estou

não me inscrevam
em movimentos
inscrevam-me, isso sim,
no movimento
pois estou vivo
em todos os sentidos

agora mesmo
escrevi e fui de novo

recuso


  

a minha voz é vento

o meu olhar é luz

semeio sem saber se colho

 

recuso a caverna

onde vivos enterrados

recuso a cama

de cartão com gente dentro

recuso a mão estendida

na sede uma moeda

 

recuso o silêncio

espantado de não haver bocas

para tantas palavras retidas

recuso olhos sôfregos

nas montras onde só pão

 

recuso a desilusão amarga

consentida do ter de ser

recuso os sorrisos bolorentos

da caridadezinha

a distribuir o que a mais

 

recuso

porque quero diverso

este estar aqui

tão efémero e tão sofrido

para tantos

xávega, ainda o arribar


zé caravela
 
o barco aproxima-se de terra, está já à vista, em terra o pessoal prepara-se para as manobras necessárias ao “bom arribar”.
 
o zé, segura o cabo que tem na ponta o gancho que vai engatar no arganel da proa que, com outro camarada, com outro gancho, fará com que o barco se mantenha perpendicular à praia e seja rapidamente puxado pelo tractor.
 
delicada manobra esta.
 
(torreira; companha do murta; 2007)
 

as coisas elementares


indiferença de ser rio

 

falo das coisas mais
elementares

o sino da igreja
onde um galo não canta
um seixo rolado
guardando o tempo
dentro de si
um torrão de terra
grávido de uma semente

mais elementares ainda

os sorrisos presos nos lábios
das crianças tristes
as lágrimas
rios de salgados
nos leitos dos rostos abandonados
nos lares/depósitos

falo porque
estou cansado de comer silêncio
e ler poemas de amor
com tanto desamor
a caminhar por aí

as coisas mais elementares
são as que deviam ocupar
o ventre das palavras por parir

murmúrios


sobre a areia tábuas, nada mais que

de onde me vêm

estas vozes?

estes murmúrios?

 

trazidos pelo vento

caem sobre mim

como folhas de outono

também nós caímos

 

cairemos um dia

desfeitos em pó

palavras noutros

que o tempo levará também

 

o inverno

aproxima-se

sorrateiro abraça-me

 

deixa-me pendurado

de um beijo que não vem

eu sou a casa


uma vela, apenas isso

 

estar em casa

é estar em mim

 

aqui a música é minha

sou eu

que a escrevo com palavras

que a desenho

na pauta do corpo

 

encontrar-me-ás

sempre em casa

porque eu sou a casa

tijolo a tijolo erguida

a partir do chão sentida

 

encosto ouvido ao mar

batem-me à porta

fico na dúvida

se não serei eu lá fora

 

entra

a casa é humilde

sem decorações avulsas

enchem-na a memória

livros, discos, rabiscos

 

eu

eu sou a casa

que mais querer então?

memória do além tejo_encontro de olaria do redondo_junho 1981


 

 

quanto ficou por dizer

em tudo o que fizemos

 

bêbados de alegria

percorríamos as ruas

as tascas eram o santuário

do nosso encontro

 

dáva-mo-nos as mãos como velhos amigos

tudo partilhámos

sabido que é

que tudo quanto é belo

cedo morre de loucura

 

com a mesma sofreguidão

com que virávamos cervejas

sorvemos estes dias que recordo

como se fossem anos

e fizeram de cada um

um outro ainda muito diferente

só porque soubemos estar  juntos

 

(30 anos depois, a memória dos dias vive)

meditação breve


o caminho é a aventura

não sou

tudo o que quero

mas

quero ser

tudo o que sou

recuso-me a não ser

o que em mim é do que fui

 

serei sempre o ter sido

isso é ser

 

os dias caem sobre os dias

a bateira voga silenciosa

como se

algo mais que ela própria

madeira trabalhada por mãos sábias

que outras mãos

sábias também de outra arte

continuam

 

olho em frente

procuro um caminho por fazer

persigo a aventura