toca-me


 

(toca-me que tenho medo_sofia carvalho_blandisca)

 

sinto-me tão indefesa

tão só em mim

quero apenas

que me toques

um sentir-te

mesmo que não sintas

 

tenho medo do escuro

de ser tão pequena

e as noites tão grandes

 

lembras-te de quando me falavas

do sótão?

lembras-te do papão

que lá morava?

 

eu lembro-me

por isso tenho medo

(essas histórias não deviam existir

não deviam ser contadas)

 

toca-me agora

sim

toca-me agora que tenho medo

 

quando o mar trabalha na torreira_ti alfredo fareja (falecido)


ti alfredo fareja (falecido)

 

pende-me da boca o cigarro

assim os dias
escorregam pelo tempo

olho o peixe
ainda a saltar
é pouco não basta
faço as contas
a este viver
cansado
mais que o cigarro

outro lanço se seguirá

talvez
um sorriso na face vá nascer
com sabor a esforço compensado
peixe que seja pão
para todos

um cigarro pende-me da boca

 

(torreira, século XX)

fragmentos de tempo


antes de

 

ainda não ouvi

a voz da sombra

clamando silêncio

 

ainda não vi

a luz dos cegos

na ponta dos dedos

nas asas das árvores

um pássaro ferido

voar para o céu

a terra escorrer sangue

de tão ferida

 

ainda não vi

o coração da pedra

sorrir à criança triste

 

tudo isto porém sinto

como a areia a onda

antes de

aviso


perigoso fugitivo da cadeia

aviso da polícia distrital a todos os elementos do sexo feminino:

hoje dia 4 de dezembro

acaba de fugir da cadeia regional dos 50
mais um sexygenário
cuidem-se

balanço 60


eu ao colo da minha avó benedita

 

há quem nasça continente

eu nasci arquipélago

 

artes e ofícios muitos

de tudo um pouco

em tudo quase nada

o mesmo

agarrar pontas e atá-las

depois mais um nó

novas pontas sempre

em busca de outro nó

a desfazer também

 

sol e mar

inquietações de barco ancorado

angústias de infinito

e um infinito de angústias

 

uma praia

onde conchas ouvem peixes

murmúrios de ondas

troncos naufragados

cordas redes fios

vómitos de mar

 

palavras

em busca de um sentido

sentindo que só a busca é

caminho

 

falei-me

que as palavras


tão leve e tão pesado, o tempo

 

que as palavras
te cheguem inteiras
sem pedras por dentro
nem lágrimas de terem sido

sejam o sorriso nas manhãs
em que eu já não esteja
e te falem de mim
do amor, do mar
da alegria que é estar vivo

que as palavras
te cheguem inteiras
como eu sempre