é tarde para


ainda

 

vivo assim

sentado a andar

à deriva neste tempo

a que pertenço e não me é

 

estranho-me de estar

mas estou sem me mudar

sou ainda a continuação

de uma juventude longe e perto

de um sonho por acabar

de um ser erecto

 

vivo assim

entre mim e eu próprio

num diálogo de passados e futuros

que se encontram no ser hoje

a raiva, a desilusão, a amargura

 

vivo assim

assim me queiram

ou não

é tarde para

quando o mar trabalha na torreira_preciosa


preciosa

 

pelo mar entro
como se em casa
meigas as ondas
afagam-me as pernas
mãos de mãe
beijos de amante

irmã mais nova
de quantas por aqui andaram
trago no corpo a alegria
de estar viva

mulher menina
nada e criada
entre mar e areia

correm-me barcos nas veias
e são peixes estes braços
que te apertam
nas malhas de amar

(torreira; século XX)

também o sol


o que queiras ver

construo meticulosamente

o silêncio

 

formiga dos dias

carreio palavras

curvados os ombros de ser

peso

do senti-las assim

tão minhas, tão eu

 

navego em sensações

procuro não naufragar

de tanto

agarro-me a mim

sou-me cada vez mais

 

não me perguntes se

o sol se põe

se nasce

ou se é apenas a lua

é

fui eu que o fiz assim

 

na construção

do silêncio

as palavras

volvem-se em sons

ininteligíveis

 

também o sol

 

(buarcos)

ser só ser


os rios das cores
no lento saborear
deste estar aqui
longe e perto de
ser só ser só

trazer na língua o sal
roubado algures

ter tudo sem nada
querer possuir
e ser feliz
por ser assim

olhar tudo e tudo ser
na alegria plena
de estar vivo e ver

as cores bailam-me
diante dos olhos
são rios que nascem
sem ânsias de foz

sorrio
por entre as nuvens
dos dias
inúteis
no lento saborear
deste aqui estar

(torreira; 2011)

xávega_entre os bois e os tractores


força humana
 
este registo é a memória de um tempo de transição, na xávega da torreira, em que as juntas de bois já não eram utilizadas e os tractores ainda não tinham sido introduzidos.
 
foi um tempo curto, mas em que se trabalhou à moda do início da arte, todo o esforço era humano, à excepção do motor que já se encontrava instalado no barco.
 
(torreira; século XX)
 

quando o mar trabalha na torreira


humana a força toda - que os bois já acabaram e os tractores ainda não

 

à força de braços e arte
deslizando sobre varas
caminhada lenta pausada
o barco chega ao mar

assim o início

provocadoras
ondas chamam
amor seu
vida nossa

homens sobem
inundam o barco de força
aos remos
serão poucos
bastantes porém

lanço
que começa
esperança
no que o mar
para dar tem

 

(torreira; século XX)