“hoje pedi ao mar por ele
e ele trouxe-o”
(mãe de um dos pescadores do “virgem do sameiro”, hoje resgatados ao mar depois de 48 horas numa balsa)
vivo assim
sentado a andar
à deriva neste tempo
a que pertenço e não me é
estranho-me de estar
mas estou sem me mudar
sou ainda a continuação
de uma juventude longe e perto
de um sonho por acabar
de um ser erecto
vivo assim
entre mim e eu próprio
num diálogo de passados e futuros
que se encontram no ser hoje
a raiva, a desilusão, a amargura
vivo assim
assim me queiram
ou não
é tarde para
pelo mar entro
como se em casa
meigas as ondas
afagam-me as pernas
mãos de mãe
beijos de amante
irmã mais nova
de quantas por aqui andaram
trago no corpo a alegria
de estar viva
mulher menina
nada e criada
entre mar e areia
correm-me barcos nas veias
e são peixes estes braços
que te apertam
nas malhas de amar
(torreira; século XX)
construo meticulosamente
o silêncio
formiga dos dias
carreio palavras
curvados os ombros de ser
peso
do senti-las assim
tão minhas, tão eu
navego em sensações
procuro não naufragar
de tanto
agarro-me a mim
sou-me cada vez mais
não me perguntes se
o sol se põe
se nasce
ou se é apenas a lua
é
fui eu que o fiz assim
na construção
do silêncio
as palavras
volvem-se em sons
ininteligíveis
também o sol
(buarcos)
no lento saborear deste estar aqui longe e perto de ser só ser só trazer na língua o sal roubado algures ter tudo sem nada querer possuir e ser feliz por ser assim olhar tudo e tudo ser na alegria plena de estar vivo e ver as cores bailam-me diante dos olhos são rios que nascem sem ânsias de foz sorrio por entre as nuvens dos dias inúteis no lento saborear deste aqui estar
(torreira; 2011)
à força de braços e arte
deslizando sobre varas
caminhada lenta pausada
o barco chega ao mar
assim o início
provocadoras
ondas chamam
amor seu
vida nossa
homens sobem
inundam o barco de força
aos remos
serão poucos
bastantes porém
lanço
que começa
esperança
no que o mar
para dar tem
(torreira; século XX)