o sonho
digo
será quando for
não quando queiras
por isso é
porém
o vir a ser
depende de ti
e de como o sonho
em ti for sendo
cairás
e levantar-te-ás
que humano és
o sonho
digo
será um dia
e tu nele hoje
(buarcos)
não me lembro do tempo
em que não fazia anos
sequer dos primeiros que fiz
era criança e bebia os dias
ignorava que somando-os
o resultado era: ano
não sei quando comecei
a fazer anos
continuo a não me lembrar
um ano houve porém em que devo ter
começado
desde então continuei o que não soube
e pararei sem saber, ainda, quando
dois anos
quantos dias são?
sabê-lo-ás quando um dia
no banco de uma qualquer escola
te disserem da soma dos dias
e um sorriso de seres gente
nos lábios
agora sorris somente
choras, fazes birras,
aprendes as primeira palavras
as imitações, as brincadeiras
cantas
és feliz sem o saber
e nisso reside
a verdadeira felicidade
dois anos
há quantos anos eu tive dois anos
eu sei
só não sei como foi
esse dia
e sou feliz na mesma
porque meus pais
nesse dia o foram
como eu, avô, o sou hoje
só queria dar-te um beijo
mas um dia, quando maior fores,
ler-te-ão estas palavras
e, quem sabe, também tu
não te lembrarás da festa
do dia em que fizeste dois anos
gorduroso o tempo
pega-se-me às mãos
não
não te invento nome
nem corpo, nem ser
deixo-te estar assim
no limbo da imaginação
sossegadamente desassossegando-me
as palavras
não serão nada
onde tu fores
por isso
para quê gastá-las na invenção
de um tu?
estamos apenas
e nisso somos tanto
que se fôssemos de facto
o que seríamos?
esfrego as mãos na areia
onde nascem conchas e seixos
e aí
busco o sol
enquanto te espero
os dias
fazem-se de dias
só isso
quando o mar é fêmea
enche-se o saco
de carapau
enchem-se os homens
de esperança
quantas vezes a morrer
breve na lota
onde os compradores
entre cafés e cigarros
aguardam o fruto do suor
para o beberem em copos de bom vinho
também no mar
há quem trabalhe e ganhe pouco
sendo de poucos
a riqueza que o mar dá
um saco em leque
com que se abanam os revendedores
isso é
(praia de mira; companha do fatoco)
foi tempo em que os bois. agora são os tractores que trazem e levam o barco pela areia fora.
quando o barco está muito longe do local ideal para sair e os tractores não são suficientemente fortes, são necessários dois para o arrastarem pela areia, como mostra este registo.
no tempo dos bois o barco era sempre arrastado sobre roletes – cilindros de madeira – o que tornava mais fácil o deslizar e menos pesado trabalho das juntas. hoje em dia, os roletes continuam a existir mas são frequentemente utilizados somente para poisar o barco, quando o são.
o arrastar directo do fundo do barco sobre a areia, provoca um desgaste mais rápido deste e a necessidade de o substituir com mais frequência.
nem tudo são vantagens, cada processo tem sempre duas faces.
(torreira, 2007)
esplêndidos
possantes
dorsos rebrilhando ao sol
somos da arte a força
irmãos das ondas
a nossa energia esgota-se
na praia
tensas cordas
esforço nosso
curvados
ao peso do mar
na areia mergulhamos
duros cascos fendidos
descansamos quando
redes
homens
barco
cordas
(torreira, século XX)
pelo chão gravetos secos, comidos pelo sol
dizem o verde que houve. as rochas nuas
brilham a sede. o corpo busca na água a vida.
as moscas antecipam a putrefacção. o calor
esmaga no horizonte o azul. tudo é límpido
e simultaneamente vazio de sentido.
então digo: a morte circula nas veias um
sangue coagulado.
(memória de um tempo longe)