escrever
na areia
vezes em conta
com pena de dedos
húmidos
os amantes
à beira mar
deitados
dizem-se
da ternura
da paixão
do amor
uma onda
cresce do mar
lava a areia
tudo fica como dantes
que é dos
amantes?
lentos
corpos cansados caminham
em estranha procissão
que a areia acaricia
até ao estender do saco
a faina não termina
longo foi o dia
rude o mar
que homens são estes
coração de ave marinha
mãos de dar
mais que receber?
imensos
deixam na areia
a ternura
de mais um dia de mar
(torreira; companha do murta)
é este o meu mar
de ondas revoltas
desafiando homens e barcos
por mais que o contemple
nunca o conhecerei
saberei dele apenas
o suficiente para tentar voltar
é este o meu mar
nele encontro meu outro ser
pés fincados na areia
olhos perdidos no horizonte
em dias de paz
recebe-me em sua casa
e serve-me do que pode
irmão pai amigo mãe
é este o meu mar
da terra meu único bem
(torreira; século XX)
os barcos de mar, da pesca de xávega, têm à proa e à ré, fixos nos painéis laterais, dois aros de ferro, chamados arganéis, que servem para prender o barco e puxá-lo para terra, com rapidez, quando arriba.
a tracção é feita pela introdução de dois ganchos, um em cada arganel, que se ligam por corda ao tractor, hoje, às juntas de bois, noutros tempos.
a inserção dos ganchos nos arganéis é feita por dois pescadores experimentados, porque tem de ser rápida e com precisão. não vá o barco rodar e esmagar-lhes as pernas – o que não seria a primeira vez.
a perigosidade do procedimento, pode ser observada pela rapidez com que é executada e pela forma como os executantes correm, fugiondo das proximidades do barco após terem desempenhado a sua tarefa.
(torreira)
o poeta
o poeta habitava um bairro suburbano ainda com a traça dos velhos bairros históricos. todas as manhãs, antes de ir para o trabalho, sentava-se no poial da porta e contemplava o filme das gentes e das coisas.
durante o dia, as palavras, os sons, as cores, tudo, lhe repassava pela mente cansada de tanta máquina.
no regresso, o dia terminava como começara, sentado no poial esperava a noite, de novo mergulhado no espectáculo da rua.
sempre com os olhos mais além, era conhecido de todos, pelo quase não estar como estava e pelo modo como se dirigia a todos. havia algo nele que ninguém sabia definir.
dele sabiam apenas que nunca aprendera a ler e a escrever e que em todas as palavras que lhe ouviam havia uma música, também ela indefinível, acompanhada de um sorriso luminoso.
“o poeta” era, não carecia de mais.
como se a morte
regaço aberto o barco
aguarda o momento
o exacto instante
do adormecimento
atentas nuvens
velam
o dia cansado de tanto ser
recolhe-se nas tascas
bebe uma cerveja
um copo de três
joga cartas damas dominó
pela noite vagueia
triste e só
como se a morte
e a vida fervilha por toda
a praia
que não na areia
(torreira; século XX)