tempo de dúvidas e de certezas


curvas apertadas

(sou o quê?)

 

somos mais que o que julgamos

ou menos que o que de nós pensam?

que pensamos de nós?

que somos nós para pensar?

 

habito a dúvida

perdi o número da porta

esqueci o andar

não tenho telefone

vagueio algures

 

não me digam nada

ou digam-me tudo

mas saibam como dizê-lo

ou calá-lo

sem ninguém de permeio

sem ninguém

ouviram!

 

o que eu sou

é uma questão nossa

ou só minha

porém se a queres tua

que o seja entre nós

 

sou

aquela imagem ínfima

na base de um espelho

de uma viela perdida

numa terra por entre serranias

também eu em busca de

 

isso

ir ao mar


já lá vai o barco_olá sam paio

em quase todas as praias onde ainda se pratica a pesca artesanal de xávega, há mais do que uma companha.

o barco larga perpendicular à praia e, no mar, toma uma de duas direcções: ou continua na perpendicular e segue mar adentro, ou abica ao norte e depois vira para o largo,  para lançar as redes sem interferir com as outras companhas.

muitas foram, em tempos idos, as guerras por causa da partida, o primeiro a partir largava como queria e, frequentemente interferia, impedindo de partir os barcos de uma ou mais companhas que ficavam a ver onde era largada a rede, para saberem como traçar o rumo. foi, inclusivamente, necessário estabelecimento de regulamentos para a largada dos barcos, isto para evitar “verdadeiras batalhas campais” em que os bordões se transformavam em varapaus.

há ainda a limitação, na época balnear, da área definida pelas autoridades para os banhistas e dentro dos quais as redes não podem entrar.

tudo isto o arrais toma em conta na definição do rumo que vai tomar, considerando ainda o último lanço e os resultados obtidos – regresso ou evito- e eventuais escolhos no fundo que possam romper as redes.

 

(torreira, companha do murta, 2006)

 

 

 

do amor


sorriso

não

não te vou escrever

um poema de amor

primeiro porque não o sei

e, depois, porque o amor vive-se

ou se escrito outra coisa será

 

do amor

o escrever

é recriar o que poderia ter sido

ou inventar o desejo de ser

 

não

hoje apetece-me apenas estar contigo

não sabendo sequer se existes ou existirás

ficar assim no silêncio cúmplice

dos amantes

sem saber o que poderá acontecer

e que se acontecer

jamais será escrito

 

sim, hoje

apetece-me

estar contigo

amanhece na ria


amanhecer na marina da torreira

 
nem todas as manhãs
são a manhã
nem todos os dias
são o dia
 
porém
tu és neles o que deles
fizeres
 
serão ainda
quando tu já não
aí reside
a memória de teres sido
se acaso
o fores intensamente
 
quando
o dia for dia
mesmo sem o ser
e a manhã for a manhã
em que tudo se inicia
 
porque tu
só tu
podes ser-te

xávega_do largar (II)


" e o barco vai de partida"

longe vão os os tempos em que o francês françois dennis escrevia: ” estranha terra esta onde os bois vão lavrar o mar” (citado por raul brandão, in “os pescadores”).

onde hoje os bois na agricultura? então, porquê no mar?

os tempos trazem consigo a mudança e é neles que vivemos. hoje o trabalho pesado que antes era feito por juntas de bois, é coisa de tractores, frequentemente comprados em segunda mão no ribatejo ou além tejo.

e sim, os tractores vão lavrar o mar, ei-los.

o que poucos sabem é que para trabalharem na areia e no mar, os pneus não são cheios com ar, mas sim com água.

o tractor empurra o barco até onde puder, garantindo o máximo de firmeza, segurança, ao largar, por ventura até o barco ganhar calado e o motor poder ser accionado.

(torreira; companha do murta; 2006)


o sol nas mãos

 

com o sol nas mãos
vou
desvairado
em busca do amanhecer

acordo as noites

as mãos
poisadas no corpo
fremente
atordoam-no

acordo as noites

sonho muito
sonho tudo
e não sou
nada

com o sol nas mãos
vou

o caminho das ondas


maria de fátima
 
curva-se o mar
à bravura dos homens
quebram-se sobre
o barco as ondas
e passam
 
seguem os homens
o seu destino
indiferentes
sabem que ainda não
 
um dia
cheios de tanto terem sido
será o último
ficará o vazio de não ser
alojado no não ir
 
o homem é
onde o mar também
 
(torreira; companha do marco; 2010)

xávega_do largar (I)


olá sampaio com o arrais zé murta na ré
 
neste registo estão perfeitamente visíveis os três “fixes” que seguram o barco de mar na preparação para o largar:
 
– a regeira: amarrada ao golfião de estibordo da bica da proa
– a muleta apoiada na peça metálica fixa no exterior da bica da ré
– o reçoeiro, enrolado na bica da ré e que o arrais vai soltando ou apertando consoante a intenção.
 
note-se que ambas as cordas estão direccionadas para norte, de onde vêm as correntes dominantes, por forma a manter o barco perpendicular à costa e às vagas. caso o barco se atravessasse poderia virar de bordo, o que é um dos acidentes mais frequentes.
 
(torreira; companha do murta; 2006)
 
 

uma gota de água


tantas gotas de água

 

a ternura
o abraço
a dádiva

uma gota de água
desliza no vidro
da janela

a ternura
é um substantivo
comum a dois

uma gota de água
suspensa
treme

o abraço
é um substantivo
incomensurável

uma gota de água
teimosa
cresce

a dádiva
é um substantivo
incomum a muitos

numa gota de água

quantos somos?