sou


descanso

 

lembro
que me lembro
esquecendo
que me esqueci

a memória
é o esquecimento
do que não nos lembramos

falo deste estar aqui
ainda
sem saber porquê
aceitando o como
fazendo por ser

abraço
os dias e dentro deles
todos os que não esqueci
e nos que esqueci
a memória de o saber

deito-me
medito
e sou

longe de mim


trago no corpo
o sal do verão
bailes de mar
nos olhos

estou vivo
outono dentro de outono
continuo ainda
a ser corpo

virá a chuva
os dias mais curtos
o céu mais carregado
a angústia serena
agora

virá também o oiro
semeado nas vinhas
que não verei
porque longe do mar

tudo
o que é longe do mar
é longe de mim

até estas palavras
o são cada vez mais

(torreira; sol outonal)

como o calão não passa pelo alador


alar
durante a alagem, quando o calão chega a terra, não se pode deixar que ele passe pelo alador, sob pena de que este encrave, ao mesmo tempo que se pode destruir o calão, que é de madeira, e interromper a alagem no momento mais importante e crucial do processo.
 
por isso, é atada uma corda à manga, logo a seguir ao calão que vai, ela sim , passar pelas engrenagens do alador.
 
é como se se fizesse um “bypass” ao calão durante alguns momentos muito precisos. o ritmo da alagem não pode ser perturbado por manobras mal coordenadas.
 
depois de passada a corda a alagem continua agora com as mangas a passarem directamente nas engrenagens.
 
neste registo é o falecido arrais zé murta quem se prepara para atar a corda à manga.

se amanhã chover


chuva em mim

 

se chover amanhã
estarei no deserto

estou sempre no outro
lado das coisas

se quiseres saber de mim
não me procures
eu já não estou
onde estive
quando tu

se chover amanhã
espero ter lenços de papel
para limpar as lágrimas
única chuva
no sítio certo
no momento exacto

estarei no deserto

eu
e ninguém por perto

se chover amanhã
abraça-me

e já se foram


eram três velhotes

eram três cascos (carcaças) de moliceiro que repousavam no areal do bico.

durante anos serviram para enquadramentos de fotografia, chegando mesmo a dar um primeiro prémio num concurso de fotografia organizado pela câmara da murtosa.

abandonados por quem de direito ali estavam aguardando, talvez uma beata, que desencadeasse um incêndio e fosse desculpa para o seu desaparecimento.

no verão deste ano já lá não estavam. nem memória nem rastos dela.

asim se prepara o desaparecimento silencioso do mais belo barco do mundo.

(murtosa; bico)

se perguntarem por mim


sobre o vazio
os braços
estenderam-se

há algo lá dentro
um corpo
uma voz
uma carícia
um sonho

se perguntarem por
mim
diz que me viste ser levado
com
camisa de forças vestido
a boca tapada
as mãos atadas atrás
das costas

se perguntarem por mim
diz
que estava a agarrar o vazio
num dia de sol

foi então
que os mentores da ordem
polícias dos sonhos proibidos
me levaram

espero um dia
trazê-los comigo

entretanto
se perguntarem por mim
diz

não partiu
que ele não parte nunca
deve de estar a chegar

(coimbra; calçada portuguesa; 2006)