memórias de amor
um silêncio azul povoado de bruma e mãos
os rios inventam o leito
e morrem ao longo das margens
não há destino avesso a naus e marinheiros
o mar soa por entre os pinheiros
num marulhar de caruma
um sabor a sg ventil nos lábios
sabes
o desejo nunca cabe num só corpo
e depois
para tanto ser uma pequena tenda basta
o bordão banco
à memória do meu avô – um beijo do neto mais velho
outonais visões
zé trabalhito: presente!
do mar vim
ao mar regresso
a vida é sal que trago em mim
mar feito corpo
o mar nasce-me nos olhos
onde morrem as lágrimas
secas de o não ter
salgadas mulheres em terra
homens no mar
é no desespero que se salgam os olhos
mar
sal
suor
rede
sal
peixe
raiva
sal
e o mar de novo
…. do mar !
tenho medo
é de andar de carro
antónio jacinto – monangamba
o bordão da regeira da ré
(torreira; companha do murta; 2009)
as mulheres da torreira sabem do bordão o peso carregam-no às costas como carregam a lida da casa as contas da mercearia o pão para os filhos o peixe para a janta a sardinha arde na brasa a cavala na panela as batatas mais um dia menos um dia quem sou eu para lhes falar do tempo se só sei ouvir o mar
queres que seja manhã?
sophia de mello breyner_caminho da manhã



