as flores da virgem


a virgem na bica da proa_renovação do ramo

a fé dos pescadores revela-se nos mais pequenos detalhes, mas há um, nas companhas de xávega, que é emblemático: a imagem do santo padroeiro (mais vulgar a nossa senhora de fátima) na bica da proa rodeado por um ramo de flores.

serão de plástico as flores, que impensável seria naturais, mas mesmo assim vão-se degradando com a fúria dos elementos, por isso, de tempos a tempos, é preciso renovar o ramo e, quiçá a imagem – embora isto seja muito raro, só em caso de acidente e destruição da imagem.

é  o momento em que os homens do mar acarinham a sua protecção como se de uma mãe.

(torreira; companha do murta 2006)

agora josé? lê drummond


tinha uma pedra

tinha uma pedra
no meio do caminho
o tempo passou
a chuva caiu
a ribeira encheu
o caminho
onde tinha uma pedra

o tempo não passou
o carlos também não
só passa com o tempo
quem não foi no seu tempo
drummond foi imenso
mais que uma pedra
drummond foi um rochedo
uma selva, um mar

drummond deixou-nos
mas nós não deixamos drummond
até nos deixarmos também

salvé drummond
que me deixas interrogando-me:
e agora josé?
que me deixas por te ter lido
vivido, sentido

agora josé?
continua a ler drummond

tempo de ser pescador


barca s. josé_praia de mira_2009

é tempo de mar
será tempo de peixe
se peixe houver

é tempo de homens
tempo de ser
mesmo que peixe
não venha
mesmo que o saco
nada tenha

têm os homens
o saber que vão
sem saberem o quanto são
pois é deles natural
serem-no assim

é tempo de mar
é tempo de ser
pescador

(praia de mira; companha do zé monteiro)

a marca


lareira ao ar livre

conhecemo-los
das feiras
das roupas e dos acessórios
de marca
por fora que por dentro sem
ela são

de terra em terra
de feira em feira
apregoam a qualidade dos seus produtos
a baixo preço

“é mais caro o crocodilo
que a t shirt”
mas é ele que vende
que os olhos dos outros
compram

uma marca nova
uma marca de marca
é uma marca que deixou de ser

mas os olhos vestem-se de marcas
que vêem
nesta sociedade de marca
que ninguém já quer comprar
tão má fama tem

vêem-na a ser vendida
pelos ciganos?
jamais
têm de ter confiança
no que vendem

(coimbra)

ternura


como facas

 

aconchegadas no silêncio

as mãos poisam

num regaço de ternura

 

a ternura sabes

é um sorriso no rosto

de uma criança ou de um velho

é o teu sorriso, se

é o meu sorriso, porque

 

a ternura

está ali à espera

de uma mão cheia de outra

a ternura são duas mãos

a ternura é as mãos

 

aconchegadas no silêncio

esperam-te

espera-te

 

 

 

 

quando o mar trabalha na torreira


ti tiago branco (falecido)

vem mar
traz contigo
as marés as ondas

venham as gaivotas
na areia medrosas de tanta fúria
e deixem
pegadas que o vento apagará

juntos
caminharemos ao encontro
do amanhã

lá onde eu não estarei
falarão de mim
os murmúrios do vento
o rebentar das ondas

e
quem sabe
talvez os homens

quando o mar trabalha na torreira


susana_neta manel matos

atentos olhos
escutam movimentos

esperam a voz
a ordem o mando

tensas as cordas
fechado o cerco
as redes iniciarão
o regresso

maestro desta música
o arrais olha o mar
sente as correntes
no deslizar das bóias

na sinfonia das redes
os andamentos
é o mar que os dita
o arrais quem os traduz

assim aprendi
música
neste areal de luz

(torreira; século XX)

xávega – o recolher do peixe


KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

o retirar o peixe do saco com recurso a “xalavares” é o primeiro passo dos últimos de um lanço.

a ele segue-se a escolha, a lavagem e o enchimento das caixas, que serão negociadas com o intermediário e/ou levadas à lota.

enganam-se aquele que pensam que o pescador ganha bem porque o peixe é caro. entre a venda ao intermediário e a venda ao público o preço pode ser multiplicado por mais de 10 vezes.

enquanto os pescadores não se organizarem e forem eles próprios a fazer a venda directa na lota, com exclusão de intermediários, ganham muito os que fazem pouco e ganham pouco os que trabalham muito.

mas isto não passa de um sonho, no que se refere à pesca artesanal. nunca houve organização e não é agora, quando são tão poucos, que vai haver. a subsistência da xávega, não é um milagre, mas é um mistério alimentado com muito suor e reformados.

(torreira; companha do murta; 2006)

 

 

súbito


de dentro

ninguém é tão forte
quanto julga
ninguém é tão fraco
quanto parece

olha-te
antes
de veres

……

os rios
correm
para o mar

só eu
corro
sem destino

……

magoa-te

hoje
amanhã
serás imune

……

os dias
não pesam
tu neles

…..

acorda
comigo
não durmas

…..

quando
acordei
não eras tu

…..

o teu rosto
as minhas mãos
um poema

…..

eu sou
tu és
nós seremos?

…………

o óbvio
é
um espanto