impublicável


o mar a meus pés

um dia ainda

vou escrever um poema

a publicar

nesse dia duvidem

que seja eu

outro por mim

certamente o escreveu

 

que a mim me basta

o espaço para que as palavras voem

e não se estatelem em folhas

de tiragem reduzida

de um autor desconhecido

mas

 

publicado

que a expensas próprias

vai ajudando a subsistência de editoras

de futuros ignorados

 

um dia vou escrever

um poema impublicável

mais um

das palavras


visto-me de palavras
de palavras ando
que de palavras me fui fazendo
sem saber se muitas
se poucas
apenas pelo prazer de

para o dia a dia
camisa garcia márquez
calças eugénio de andrade
sapatos sophia de mello breyner
um bruto carro
antónio lobo antunes

para a praia
polos marca vinicius
calções de banho drummond
chapéu faulkner
toalha miguel angel asturias

de inverno
impermeável proust
meias prévert
e você manuel bandeira
junto com zé gomes
aquecem os meus dias

óculos
esses não dispenso 
para ler as marcas da roupa que visto
então só mesmo se forem fernando pessoa 

(coimbra; baixinha)

apenas um


quando os barcos envelhecem

 

serei ainda a mão
que te ajudará
mesmo que o não queiras
e o fará quando o peças
de mim não ouvirás
a temida palavra
não

estarei aqui
estarei onde for preciso
enquanto
for eu
serei ainda tu
mesmo se

somos
mais que um
mas a esse nos resumimos