pedaços da memória de um pescador avieiro do patacão -I


por amabilidade da comissão coordenadora do projecto da cultura avieira a património nacional

FOLHA INFORMATIVA Nº 36/2009

PEDAÇOS DE MEMÓRIA DE UM PESCADOR AVIEIRO DO PATACÃO  –  I

(transcrição integral de memórias – sem revisão de texto)

Este trabalho resulta de um conjunto de entrevistas ao pescador Avieiro de seu nome António Gerónimo da Silva, uma das quais, a que agora publicamos, foi realizada em 24 de Novembro de 2006. Nessa altura o Sr. Gerónimo ainda pescava no Patacão, aldeia Avieira do concelho de Alpiarça. Era o último pescador Avieiro do Patacão. No ano de 2007 o Sr. Gerónimo deixou de pescar. Por isso hoje não há pescadores Avieiros a exercer a sua actividade de pesca no Patacão.

As entrevistas foram as primeiras de uma longa série feitas a vários membros da comunidade Avieira do Tejo, no âmbito de um projecto de pesquisa, que será concretizado num livro sobre a religiosidade popular dos Avieiros.

O livro está concluído e vai ser publicado e apresentado na cidade de Santarém no dia 12 de Dezembro de 2009. Terá por título A Reconstrução do Sagrado. Religião Popular nos Avieiros da Borda-d’água.

Esta entrevista vai ser subdividida, sendo publicada em duas partes. Para os pesquisadores e para os que se interessam pela cultura Avieira, este é um documento que testemunha uma maneira peculiar de viver.

Memórias de um Avieiro: António Gerónimo da Silva – I

Uma das formas de subsistência dos Avieiros do Patacão, nas décadas de cinquenta e  sessenta era o aluguer de barracas a pessoas que iam de Alpiarça de veraneio por  períodos de uma semana a quinze dias, na altura do Verão. Quando as barracas eram  alugadas, os pescadores que as alugavam dormiam na praia. Como era no Verão,  aproveitavam as noites para pescar usando os barcos, e dormiam de dia, nos barcos.

Quando Gerónimo da Silva casou, a sua casa durante sete anos foi o barco, sempre e  durante todo o ano. Para terem uma barraca para viver, ele e a mulher tiveram que a  construir. Não herdaram dos pais, por estes não terem meios de os ajudar.

Para construir a barraca (palhota), mandaram cortar as madeiras na serração do Júlio  Gameiro, em Alpiarça, e depois construíram-na no Patacão assente em paus de cimento, do tipo palafita. Tal como com as outras barracas, este método de construir dava segurança aos pescadores porque os protegiam das cheias. Ficou localizada no Patacão, junto de um conjunto de outras barracas da aldeia, encostada ao tapadão – paredão localizado ao longo do rio Tejo e obra de engenharia que regula o leito do rio e protege a lezíria contra a destruição das terras que as cheias provocam.

Para a construírem, dizem ter sido tão difícil arranjar dinheiro para os materiais e para a construção, como o foi para arranjar as licenças junto da Câmara Municipal e das outras autoridades. Levantaram-lhes um enorme conjunto de dificuldades para a construção, o que revelava a falta de interesse do Estado na fixação dos pescadores Avieiros em povoados por eles construídos. Conseguiram no entanto as simpatias do engenheiro da quinta da Lagoalva (casa agrícola senhorial), “uma excelente pessoa, que teve o dó, a caridade e a compreensão de nos dar um bocadinho de chão para podermos construir a nossa casa”. No dizer de Gerónimo, o bocado de terra onde lhes foi autorizado construir era pequeno e não estava amanhado. Era terreno onde só havia freixos e salgueiros, tendo eles que desbravá-lo para conseguirem construir.

Em tempos mais recentes, já depois do 25 de Abril, no Casal do Leão, no concelho de Alpiarça, o dono dos terrenos aborreceu-se com os pescadores, e deitou fogo a três barracas, tendo-as destruído completamente. Razões para tal acto: “porque ele quis”. Pensa-se no entanto que o que queria era aproveitar aquele pequeno pedaço de terreno onde estavam as barracas dos Avieiros, para poder estender a área das suas searas, expulsando ao mesmo tempo os pescadores dali.

Hoje a aldeia do Patacão está abandonada, apesar das promessas da autarquia de salvar o património histórico e transformar as casas dos Avieiros num aldeamento turístico, proporcionando ao mesmo tempo a salvaguarda da memória dos antigos pescadores.

Gerónimo nasceu em 1933, tem 73 anos [na altura da entrevista], e ainda pescava no início do ano de 2006. Na pesca fazia equipa com a esposa. Era ela que remava e conduzia o barco para os pesqueiros. Era ele que largava a rede e que depois a recolhia enquanto a mulher manobrava o barco. Um problema com cataratas na vista, surgido recentemente, obrigou-o a ficar em casa. Já não sai agora para a pesca. Tem consulta marcada para a vista, no Centro de Saúde de Alpiarça, mas já foi informado que o tempo de espera de uma operação pode ir até três anos. Esta doença inesperada e a falta de perspectiva para a operação tiraram-lhe a motivação para ir ao Tejo e o pescador Gerónimo tem dias de evidente depressão nervosa. A esposa também está pessimista: “Se calhar, alvitra, quando a operação ao olho for marcada, já ele cá não está entre nós”.

Apesar de já não pescar, Gerónimo mantém o seu barco operacional no Tejo. Está tão desanimado por causa do problema com a vista que não acredita poder voltar a usá-lo.

Gerónimo viveu sempre da pesca até ao dia em que o sável começou a desaparecer do Tejo e, com ele, o meio de sustento dos pescadores Avieiros. Dedicou-se ao cultivo da terra. No início da década de setenta do século vinte, tornou-se seareiro de melão e tomate, em terras da lezíria, arrendadas aos proprietários. E nessa altura deixou de pescar por não lhe sobrar tempo para tal. As searas tomavam-lhe o tempo todo.

Quando casaram passavam os dias a trabalhar. O descanso era raro. Não tinham horas determinadas para fazer as tarefas, tendo noites em que tampouco se deitavam. Tudo dependia do rio e da sorte, ou da falta dela, em apanhar peixe.

De Inverno pescava-se quase sempre de dia. Mas no Verão pescava-se de noite. No início da década de sessenta, em 1961, quando a filha do casal ainda só tinha oito meses, chegaram a ir pescar junto à ponte da Chamusca, idos da Barquinha. Faziam duas viagens de barco num só dia para depois ainda terem tempo de ir vender o pescado no Entroncamento. Pescavam de noite. De manhã, enquanto a mulher ia vender o peixe – fataça, barbo, saboga e sável – o marido ficava a arrumar a rede e a preparar tudo para a pescaria seguinte. A parte da tarde, quando a mulher voltava da venda e o homem tinha as artes já preparadas para a pescaria seguinte, era guardada para dormir e descansar o que se pudesse. A mulher, para além de vender o peixe, geria as contas da família. Devido à dureza de dias consecutivos na faina, por vezes a mulher tinha dificuldades em remar, havendo memória do da enorme fadiga que sentia no banco de remos, quando queria conduzir o barco para os pesqueiros. Por vezes, quando de noite se dirigiam para os pesqueiros, pedia ao marido para descansar um pouco no fundo do barco, “nem que fossem cinco minutos. Estava mortinha com tanto sono que nem me conseguia agarrar, mesmo estando sentada no banco de remos”. Mas logo se lembravam que o sol estava para nascer e que se arriscavam a perder a melhor hora do dia para a pescaria, que é aquela em que o sol nasce. Era essa lembrança que a obrigava a pegar nos remos, a chapinhar a cara com água, e a retomar as remadas para se dirigir para os pesqueiros, antes que o sol se levantasse.

Nessa altura, o casal ainda não tinha a sua barraca construída no Patacão.  Viviam dentro do  barco, com  a filha. Os cuidados com a criança eram tidos  dentro do barco. Era lá que a mãe a  amamentava e a lavava.  “Lavava-a com  água do Tejo, mudava-lhe a fralda, lavava as fraldas  sujas no Tejo e, graças a  Deus,  consegui criá-la. Levava-a comigo para o Entroncamento, para  a  venda, dava-se bem com todos,  nunca deu problemas, e hoje é uma mulher,  que está bem, e  de quem tenho orgulho”.

Por essa altura tinham o barco atracado num trecho do Tejo perto da  Barquinha, por ser lá que  podiam  apanhar mais peixe e o podiam ir vender num  bom mercado como era o do  Entroncamento, devido à  proximidade e ao  número elevado de pessoas que compravam peixe,  em especial funcionários  dos  caminhos-de-ferro e operários.

Recordam que era ainda comum a muitos casais de Avieiros viverem em  barcos, no decorrer da década de sessenta do século vinte, havendo memória  de alguns passarem a noite de casamento no barco.

Passaram os Avieiros do Patacão tempos muito difíceis. Viram “a morte à frente dos olhos” algumas vezes. Numa delas, depois de uma dia e de uma noite de água, a chover e sempre a chover, obrigados a ficar dentro do barco debaixo do toldo, as ondas que se levantaram no Tejo eram tão altas que por pouco o barco não se virou. Foi tão grande a aflição e o perigo, que ainda hoje recordam o acontecimento.

O toldo tapava mais de meio barco, ficando somente destapada uma parte da ré. Nas alturas de grandes temporais, nem sempre o toldo era uma protecção. Gerónimo recorda que se deitou muitas noites mais molhado do que enxuto, em cima de uma esteira, feita por ele, e que era nessa altura o seu colchão, no fundo do barco e debaixo do toldo.

Os avós de Gerónimo vieram de Vieira de Leiria. Não se recorda se o seu pai também veio de lá, ou se terá já nascido em Alpiarça. O pai de Gerónimo era Francisco da Silva e a mãe era Bernardina Gerónimo. Na altura em vieram já tinham familiares estabelecidos na zona, nomeadamente na Palhota, em Valada, no Escaroupim e nas Caneiras. Tinha tios em Valada e a avó materna também lá vivia. Na Palhota vivia o José Broa, seu cunhado – na altura estava lá estabelecido com um café. “Foi uma altura boa na Palhota, só que depois o peixe começou a faltar e tiveram que abalar lá para baixo, para Vila Franca. A pouco e pouco foram saindo de lá, até que a Palhota ficou abandonada”.

Gerónimo fez uma sociedade de pesca com o cunhado. Para além da pesca, o cunhado mandou fazer um barco grande para a extracção de areia e Gerónimo trabalhou também nesta actividade, não como sócio do cunhado mas como empregado. Depois de Gerónimo ter regressado a Alpiarça, o cunhado continuou com a actividade e chegou mesmo a comprar uma máquina para tirar a areia do Tejo e a vender aos construtores.

Na altura em que o sável começou a faltar, já no princípio da década de setenta, os pescadores de Alpiarça optaram por ir pescar para Vila Franca. Deslocavam-se para lá nos seus barcos. Assim, conseguiam pescar alguma coisa. Se o não fizessem, devido à escassez, o sável era quase todo apanhado em Vila Franca e pouco chegava a Alpiarça. Foi na altura em que não havia barragens e o Tejo quase secava. Quando o peixe queria subir o rio, encontrava as redes dos pescadores de Vila Franca e poucos conseguiam subir. Com a falta de sável, a actividade dos pescadores praticamente acabou, tendo a aldeia do Patacão sido abandonada.

No entanto, parece que agora o sável está de novo a voltar devido à diminuição da poluição do rio, porque o sável é um peixe muito sensível às águas poluídas.

Também se apanhava lampreia, sempre se apanhou, nunca desapareceu. É hoje mais cara. Antigamente vendia-se por cem escudos, mas há dois anos vendia-se a doze contos (sessenta euros). Em relação ao nível de vida do passado, a lampreia vale hoje muito mais. Os pescadores que pescam lampreias têm hoje a garantia que as vendem todas e que os preços são compensadores.

Código de pesca: cada família do Patacão fazia as suas pescarias sem interferir com as outras. Mas não era diferente das Caneiras ou de outras aldeias piscatórias. Na altura da pesca do sável, por haver muitos pescadores, tinha que se respeitar a vez de chegada aos pesqueiros. Nas Caneiras havia mesmo um código de conduta na pesca, respeitado por todos os pescadores.

Métodos de pesca – um deles, para a pesca do sável, é o de lançar a rede e de a acompanhar pelo Tejo abaixo, durante cerca de 500 metros ou mais. A rede vai estendida na água, mas vai a pescar e o pescador vai a acompanhá-la. Numa das extremidades a rede tem uma bóia, onde é fixada uma lanterna para poder ser vista de noite. A outra extremidade da rede está presa ao barco. À medida que os sáveis vão subindo, vão ficando presos na rede.

Outro método, para a pesca da fataça, consiste em largar o lanço e dar batidas na água para que o peixe entre na rede e possa ser capturado. Um barco é suficiente para estes tipos de sortes, sendo que se torna necessário haver um mestre e um ajudante. Dois pescadores no mesmo barco é o ideal. Foi por isso natural que o casal se associasse nesta actividade, para a vida.

“Numa altura andei à sociedade com o pai do meu genro e tinha um comprador regular para as nossas pescarias, por junto”. “Chamávamos a este tipo de sociedade «amarração», porque embora pescássemos os dois nos nossos barcos, o produto era vendido todo junto e o dinheiro era dividido em partes iguais pelos dois. Nessa altura já os nossos barcos tinham motor, já não andávamos a remos. Foi há pouco tempo, já no fim de velho, há cerca de 20 anos atrás, devia ter 53 anos”.

“Pescávamos nessa altura numa área do Tejo que ia do Patacão até à Torrinha, até antes de termos motor no barco”.

“Na altura em que vivíamos no barco, durante aqueles sete anos, não era só trabalho. Às vezes também nos divertíamos. Quando casámos, fazíamos bailes no Patacão. Eu falava com o tocador de concertina para ir lá tocar e fazer bailes. Um deles era o Zé dos Riachos, outro o Manuel Lázaro e outro o Fernando de Vale de Cavalos. Os bailes eram feitos no terreiro, junto aos salgueiros e depois eram junto das barracas. Falava-se ao tocador, ele ia lá tocar a concertina e depois tínhamos que lhe pagar. Fazíamos um peditório entre todos e assim arranjávamos o dinheiro. Era assim que tínhamos que nos desenrascar. Ainda cheguei a ficar empenhado algumas vezes, eu e os camaradas da minha idade, que combinávamos organizar os bailes. Faziam-se bailes pelo Natal e pelo Ano Novo, mais um ou outro pelo Verão”.

“Não fazíamos no Patacão nenhuma festa anual. Na altura da festa das vindimas em Alpiarça, sempre em Setembro, nós vínhamos assistir e divertir-nos um pouco”.

“A nossa vida era feita no Patacão, mas para comprar algumas coisas e tratar de alguns assuntos, vínhamos a Alpiarça. A distância entre a aldeia e a vila era de 5 Km. Era uma hora de caminho a pé, porque não tínhamos transporte”.

“Íamos à missa poucas vezes, tanto os homens como as mulheres. Mas éramos todos católicos. Acreditávamos e acreditamos em Deus. Não íamos à missa porque morávamos muito longe e não tínhamos transportes. O padre não se deslocava à aldeia.

Casei em Alpiarça, aqui na Igreja. A festa do casamento foi feita no Patacão e o local escolhido para a boda foi um largo debaixo de uma figueira, no Verão. Comemos, bebemos e dançámos. Comemos, e bebemos ainda mais. Era melhor nessa altura do que eu vejo que é hoje. O comer do casamento era cozido à Portuguesa e era guisado de carne. Quando a carne se acabou, alguns tiveram que ir ao malagueiro para apanhar peixe. Havia lá muitos pampos, apanharam-nos e cozinharam-nos. Foi assim que deu para o jantar do casamento e depois para o almoço do dia seguinte. No casamento havia três refeições, almoço e jantar no dia e almoço no dia seguinte. Esse almoço foi uma caldeirada de pampos. A carne foi comida no casamento porque era uma altura especial. No dia-a-dia comia-se praticamente só peixe”.

“Também se fazia criação de alguns carneiros, porcos e galinhas, para comer em ocasiões especiais, como no casamento. Para além dos pratos já ditos, havia arroz-doce. Não se faziam outros bolos”.

“O nosso comer do dia-a-dia era peixe. Fazíamos peixe de caldeirada, e também migas para acompanhar. As migas são uma sopa feita de peixe, pão de milho e pão de trigo misturado. Para a fazer cozemos o peixe e temperamos com sal. Deitamos as batatas a cozer. Depois de o peixe estar cozido, tiramos da panela e deixamos as batatas até ficarem cozidas. Numa tigela pomos o pão e deitamos o caldo do peixe até ensopar, juntando azeite. Quando havia coentros ou hortelã também acrescentávamos para dar gosto à miga. O prato era acompanhado com um bocadinho de vinho. Não comíamos o peixe cozido sem mais nada, tinha sempre que levar um tempero. Por exemplo, cozíamos o peixe com sal e depois comíamos com azeite, vinagre, pimenta e cebola”…

…“mas também fazíamos peixe assado e frito”.

“Os peixes cozinhados eram os que o Tejo dava: fataça, saboga, barbo, boga, sável e pampo. Era muito importante deitar-lhes sal antes de cozinhar para o peixe tomar o gosto do sal. Chamamos a este cozinhado «peixe de água-e-sal». O meu sogro gostava muito de peixe de água-e-sal. Chegávamos a pescar os dois à fragua, de Inverno, de dia. É uma pesca em que a gente lança as redes, os tremalhos, mesmo junto à margem, encostadas aos salgueiros. O tremalho deve ter entre 25 e 30 metros. Depois de lançar, cercávamos o lanço, isto é dávamos a volta à rede de roda dos salgueiros. Depois, com uma vara de fragua, com uma maceta à ponta, batíamos na água, junto da lenha das raízes dos salgueiros e fazíamos barulho para embalar o peixe para dentro da rede de tremalho. Chamamos a isso fraguar. O meu braço está hoje aleijado e se calhar é por causa disso, porque era eu que tinha que andar a fraguar e isso dá muitas dores nos braços. Por ter que andar aos remos e depois ter que fraguar durante muitos anos, deu-me esta dor que tenho no braço. Antes queria andar à ré do que queria andar a remos, porque era mais fácil. Eu fazia isto com o meu parente.

O meu parente gostava muito daquele cozinhado.

Eu perguntava-lhe: Oh Zé, o que será hoje o almoço?

Respondia: Hoje é bogas… de água-e-sal.

Dizia-lhe: não queres assadas?

– Não. Quero de água-e-sal.

– Pronto. Tu é que mandas…

Era uma bogazinha boa, que podia ser assada, mas ele só queria cozida daquela maneira. Cozia-se, deitava-se sal, depois levava um fio de azeite por cima, vinagre, cebola, pimenta, e estava feito.

“Era peixe cozido sem mais acompanhamentos. Era apanhar, amanhar, cozinhar, pôr sal e condimentos e comer… mas com vinho a acompanhar! Isso não falhava. E então ele… era cá um castigo para beber vinho…!

O vinho era água-pé que a gente fazia. Como é que a fazíamos? Por graça dizia-se que era das nossas propriedades. Mas a gente não tinha terra. Íamos ao rabisco das uvas, os restos que não eram apanhados nas vindimas e fazíamos assim o nosso vinho. Era fraco, era água-pé, mas dava para encher o garrafão de cinco litros para aqueles almoços, para os dois… e deixa estar que ele não se perdia”.

“A gente ia de manhã para a pesca, depois cozinhávamos e chegávamos ali por volta da meia-noite… então acabávamos. E deixa que o garrafão não ficava com nada.

Era o vinho do rabisco, toda a gente fazia vinho de rabisco, e nessa altura não era como agora. Uma vez, em que andava a trabalhar num tomatal que era da fábrica, lá no Mouchão dos Coelhos, com um primo meu, no primeiro ano em que fiz seara de melão, num ano de que já não me lembro, a gente tinha também um meloal nosso. O tomate apanhado tanto ia para a fábrica de Almeirim como ia para a Chamusca. Os carros carregaram o tomate e levaram o frete para cima e à vinda para baixo tornavam a carregar e iam para a fábrica de Almeirim. A gente esperou pelo carro num desses dias, à tarde e a uma hora combinada, para carregar o carro para vir para baixo para a fábrica. Nessa altura havia muito tomate desperdiçado, não ia para a fábrica por não ter qualidade, e que era aproveitado para dar de comer aos porcos. Eu levava um saco de plástico que era para trazer o desperdício de tomate para dar aos porcos, depois de ter carregado o carro. Assim foi. Quando íamos para o local combinado, por sorte vinham dois guardas republicanos de bicicleta, pela estrada do Mouchão, e viram-nos. Quando chegaram ao pé da gente, mandaram parar a gente. Íamos de bicicleta, como eles. Olharam para o saco que eu levava atrás, no suporte da bicicleta. Perguntaram:

– “Para que são esses sacos que vocês aí levam”? – lá explicámos para que eram. E disseram:

– “Este tomate que vocês querem ir buscar… é outro tipo de tomate. É outro!”

Começaram a tomar apontamentos, e depois disseram:

– “Vocês iam para ir às uvas não era?”

– “Se os senhores quiserem confirmar, venham com a gente para ver e perguntem lá para confirmar…”

– “Estejam mas é amanhã às nove horas no posto da Chamusca!”

– “Oh senhores!, mas informem-se da chegada de um carro que está para carregar de tomate e vão ver que nós íamos lá para carregá-lo, para a fábrica de Almeirim…”

– “Não temos nada que perguntar!”

“No outro dia fomos para o posto da GNR da Chamusca e tivemos que lá ficar todo o dia presos. O meu primo levou uns valentes papos e a mim ainda me ofereceram mas nada me fizeram.

Disse-lhes: – “se quiserem bater, batam!”

– “Olha que o teu camarada já confessou!”

– “Mas confessou o quê? O que é que o meu camarada confessou? Não tem nada que confessar. O que é que vai confessar de uma coisa que não fez?”

– “Eh pá, vocês digam que iam buscar uns cachos de uvas!”

– “Mas para que é que eu vou dizer uma coisa que não ia fazer?”

– “Eh pá, digam agora, pagam a multa de oitenta mil e quinhentos [oitenta escudos e cinquenta centavos, na moeda antiga] e vão-se embora!”

Continuaram a ateimar e eu comecei a ficar chateado. Então disse-lhes: “pois se dizem que eu ia às uvas, então eu ia às uvas. Façam o que quiserem mas não me chateiem mais.”

– “Ai é? Então agora vais mas é pagar cento e sessenta e um!”

– “Então disseram que era oitenta mil e quinhentos e agora são cento e sessenta e um?”

– “É para aprenderes!”…

Eles faziam tudo o que queriam, gozavam com as pessoas como muito bem entendiam.

… Nessa altura ainda pescava, mas também fazia seara de melão e trabalhava na apanha do tomate para a fábrica de Almeirim. Foi antes do 25 de Abril, no princípio dos anos setenta…”

NOTA: A primeira foto desta Folha Informativa é do Sr. Gerónimo num dos seus últimos dias de pesca. Foi registada pelo nosso amigo Paulo Barreiros, fotógrafo amador de enorme mérito e ao qual agradecemos a cedência para publicação. Esta foto foi escolhida pelos organizadores do projecto para figurar como cabeçalho das primeiras Folhas Informativas e como logótipo do 1º Encontro Nacional da Cultura Avieira.


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