pedaços da memória de um pescador avieiro do patacão -II


por amabilidade da comissão coordenadora do projecto da cultura avieira a património nacional

FOLHA INFORMATIVA Nº 37/2009

PEDAÇOS DE MEMÓRIA DE UM PESCADOR AVIEIRO DO PATACÃO  –  II

(transcrição integral de memórias – sem revisão de texto)

Nessa altura [no princípio dos anos setenta], os pescadores do Patacão começaram a fazer as suas próprias  searas porque não tinham outra saída. O peixe, em especial o sável, era muito pouco. Os pescadores  começaram a arrendar as terras e a fazer searas de melão e de tomate. Arrendavam ao Veiga, do Mouchão,  e fiz melão durante dois anos. Mas nessa altura o preço do melão não era como é agora. O primeiro que  vendi foi a um preço muito baixo, a mil e duzentos (um escudo e vinte centavos, na moeda antiga), no  outro ano vendi-o a oito tostões (oitenta centavos na moeda antiga) e vi-me à rasca para o vender…  depois vendi-o a cruzado, a cinco tostões… e quando fui a fazer contas, deu ela por ela. Só deu para as  despesas. No outro ano ainda fiquei empenhado na renda. Pagava setenta escudos para a renda. E por isso  desisti do melão.

Depois virei-me para o tomate, também em terra alugada, porque a gente não tinha terra nossa. Mas por f    fim acabei por desistir. A filha casou e fiquei sozinho com a mulher. Não pude e não quis continuar. Era  tudo feito à mão e era muito difícil. Agora as máquinas fazem tudo, mas naquela altura não era assim. Era  amanhar a terra, plantar, sachar, regar e tudo feito à mão. Vi que não tinha saída e disse para comigo:  “agora vou deixar de fazer seara”.

Voltei-me de novo para a pesca e para o trabalho no campo à jorna. De inverno era nas podas, depois  na amoirôa. Aprendi a trabalhar nas podas com os outros trabalhadores do campo. De dia ia trabalhar e de  noite ia para o mar, quer dizer para o rio, porque para os pescadores o Tejo sempre foi chamado de mar. Já tinha alguma prática de trabalho de corte em salgueiros, porque nessa altura as marachas tinham que ser arreadas. Os salgueiros secavam e eram desbastados de dois em dois anos. Quem fazia o serviço oficialmente era a Hidráulica do Tejo e quem pagava eram os patrões donos dos terrenos junto ao Tejo.

Os outros pescadores também começaram a fazer searas quando viram que o Tejo já não dava. Isto antes do 25 de Abril, no início da década de setenta.

Eu sou o último pescador a pescar no Patacão, o que fiz até Abril de 2007. Comecei a ficar lá sozinho depois de 1990. Ainda lá vai agora um familiar mas é só para apanhar peixe para caldeirada. Continua a haver pouco peixe no Tejo, embora mais do que há anos trás, em que quase não se apanhava nada.

Não tenho no Patacão nada de meu. O terreno onde tenho a barraca não me pertence, mas sim à Lagoalva. Os terrenos onde estão as outras barracas também não pertencem aos outros pescadores. Alguns dos terrenos onde estão ainda barracas pertenciam ao José Lico [grande lavrador]. Os pescadores não pagavam renda pelo terreno onde estavam as barracas. Ou melhor, a renda que pagavam, por contrato, era simbólica, no valor de cinco tostões (cinquenta centavos pela moeda antiga, ou 0,2 cêntimos de euro). Apesar do contrato existir, os pescadores nunca pagaram o valor dessa renda. O contrato está em nome de cada um dos rendeiros.

Quando comecei a namorar, era preciso por costume ter a autorização dos pais da rapariga. Mas eu nunca lhe pedi. Não pedi porque o pai dela era contrário ao namoro da filha comigo. Por isso, não pedi autorização para namorar, porque não adiantava. Mas namorei-a à mesma. Ela ainda me disse que eu tinha que ir pedir ao pai, mas eu disse-lhe que não valia a pena, porque ele dizia logo que não.

O pai dela nunca nos causou problemas. E depois de namorarmos, deu-se bem comigo e “não via outro Deus, senão eu”.

Depois a gente casou-se e ele nunca mais me disse nada. A mãe dela gostava bastante de mim. Só o pai é que ao princípio era assim, não sei porquê…

Só depois de estar casado é que comecei a pescar com ela no barco e a fazer vida de casados no barco. Antes nunca foi possível andar com ela assim, porque não o deixavam.

Eu fiquei sem mãe com a idade de três anos e fui criado com uma avó, quando a minha mãe morreu. Éramos quatro irmãos e eu era o mais novo.

Aprendi a pescar com o meu pai.

Casei-me com 20 anos e ela tinha 19 anos. Era mais nova do que eu 11 meses. O tempo de namoro foi de três anos, mas com os outros variava, era conforme…

Namorei com ela no Patacão, a gente encontrava-se nos bailes e também nas searas de arroz. Nessa altura ela trabalhava na monda do arroz, assim como eu. Trabalhávamos no mesmo sítio. Os homens também mondavam, e plantavam, e faziam a rebaixa, os canteiros, tanto os homens como as mulheres, ambos cavavam para endireitar a terra para fazer ou endireitar os combros, era um trabalho muito duro e pesado. Eu nunca fui cavar para o campo, como os operários agrícolas de Alpiarça. Os operários daqui iam para a poda e para outros trabalhos de campo.

Aqui em Alpiarça havia praça de jorna para os homens e para as mulheres. Nas alturas em que tínhamos que trabalhar no campo também íamos à praça de jorna. Os patrões nunca olharam para nós de maneira diferente só porque éramos pescadores, porque trabalhávamos como os outros.

Arranjei trabalho de maltezaria para a Azambuja, para uma quinta do Sr. José Lico. Já fui contratado de cá de Alpiarça para lá trabalhar na enxertia de vinhas e a meter bacêlo. Os enxertadores eram de Alpiarça. Ganhava-se melhor na Azambuja, mas era um trabalho muito duro. Dormia no quartel lá da quinta, como faziam aqui os Gaibéus que vinham lá das Beiras.

Só fiz uma maltezaria e depois fiz a minha primeira seara de tomate. Comecei a trabalhar no primeiro de Abril. Lembro-me do dia mas não me lembro do ano. Mas sei que foi logo antes do 25 de Abril.

Era mais duro cavar e fazer os outros trabalhos do campo do que trabalhar como pescador. Só que, no campo, a gente tinha um horário de entrada e outro de despega e chegava ao fim e tinha o salário. Tínhamos que ferrar com uma hora de sol e tínhamos uma hora para almoço. Isto foi no meu tempo. Porque houve outros tempos em que se começava a trabalhar quando o sol se levantava e se despegava quando o sol se punha.

Enquanto na pesca não tínhamos horário, tanto podíamos pescar de dia como de noite, e não tínhamos salário. Se não apanhássemos peixe, não podíamos vender e não tínhamos com que viver. E mesmo depois da pesca não podíamos descansar, porque tínhamos que remar até ao sítio onde ficávamos de um dia para o outro, isto antes de termos a barraca, e ainda tínhamos que arranjar as redes e ter tudo preparado para a pesca seguinte. Quando escolhíamos um pesqueiro e lançávamos as redes podíamos não apanhar nada e tínhamos que ir procurar outro sítio. Nunca havia certezas de nada.

No campo nunca trabalhei de sol-a-sol. Tinha sempre uma hora fixa para pegar e outra para despegar. E na pesca era a qualquer hora.

Voltando ao casamento, os pescadores casavam-se sempre por igreja, não se casavam pelo civil. Tinham fé, embora fossem pouco à Igreja. Baptizávamos os filhos pela Igreja. Os meus filhos são baptizados pela Igreja.

Quando nos casámos ela já ia grávida. Levava vestido uma saia e uma blusa cor-de-rosa e um mantéu, um véu bordado de casamento pela cabeça. O vestido foi mandado fazer para o casamento. O meu era um fato inteiro, para casamento. Foi o primeiro fato que eu vi no corpo. Depois de casado ainda continuei a usar o fato, mas só quando ia a um casamento ou um sítio em que tivesse que usar.

Antes de a gente se casar, tive que dizer à mãe dela que íamos casar. Ela estava grávida e a mãe ficou muito chateada. O pai nem me olhava para a cara.

Tivemos dois filhos. O meu filho, que é o mais velho, começou com uma dor no joelho quando tinha quatro anos e teve que ir para o hospital quando tinha cinco anos. Só de lá saiu com sete. O problema ficou sempre. Depois foi para a escola, para a Lagoalva. Do Patacão para a Lagoalva ainda é um bocado retirado e com a continuação do andar a perna teve mais problemas e teve que ir outra vez para o hospital. Fomos ao médico de Alpiarça, ao Dr. Romão, uma pessoa muito amiga e ele passou-lhe os papéis para o miúdo ser internado. Foi então para outro hospital em Lisboa e foi outra vez operado. Depois disso foi operado mais duas vezes e tem tido uma vida muito sacrificada.

Os miúdos iam à escola mas também nos ajudavam nos trabalhos da pesca. Apesar da doença ele ia comigo armar as redes, e andou a guardar umas ovelhas, lá no Lico. Depois, com 14 anos, arranjou emprego para uma fábrica

A menina era querida por todos, assim como o nosso filho. Ela cresceu, andou na escola, chegou a fazer a 4.ª Classe, depois trabalhou na apanha do tomate, e hoje é empregada no comércio. Casou-se com 16 anos, com um rapaz que é filho de um pescador também.

Quando o Patacão era habitado, chegaram a morar cerca de 23 casais, o que dava mais de sessenta pessoas. Na  altura do 25 de Abril todos viviam lá. Só depois é que os jovens começaram a casar e a sair para não mais voltar.  Deixaram aos poucos a pesca. Faziam searas mas ainda iam pescando. Os mais novos, como arranjavam outros t  trabalhos, iam saindo do Patacão. Os mais velhos começaram a fazer searas, também arranjavam trabalho nas  podas, e nessas alturas não pescavam.

O Patacão estava muito isolado e as pessoas deslocavam-se com muita dificuldade. A aldeia ficava longe da vila,  e a única estrada que havia era de terra batida. Só há pouco tempo é que a estrada foi alcatroada.

No Patacão, as famílias davam-se bem, não havia conflitos. Mas lembro-me que, antigamente, quando havia  sável, havia disputas e zaragatas por causa dos lanços.

Quando fui para a tropa em 1955, havia a guerra na Índia, mas eu não cheguei a ir para lá. Que eu saiba, só um  pescador que era das Barreiras da Bica, que fica em frente ao Mouchão das Paulinas, em Vale de Figueira, é que  foi para a Índia em 1955. Hoje não vive ninguém nas Paulinas.

Quando trabalhei na terra e criei algum gado, ovelhas e bezerros, foi possível juntar algum dinheiro. Com esse dinheiro pude comprar o terreno aqui em Alpiarça onde agora tenho a minha casa. Foi em 1992.

Trabalhávamos muito, na pesca, no campo e na criação de algum gado. Agora é que não se faz nada.

Alguns chegaram a comprar terras, mas são mais novos do que eu. Depois de comprarem a terra, deixaram de pescar e passaram a trabalhar só na terra. Estão todos cá por Alpiarça. Nenhum regressou a Vieira de Leiria. São pessoas da terceira geração dos que para cá vieram em primeiro lugar e já não sentiam ligação a Vieira de Leiria.

Os que compraram terras ou que trabalhavam com searas nunca mais voltaram a trabalhar na pesca, mudaram de actividade. Os que têm terras cultivam durante todo o ano com searas diversas – tomate, bróculo, beterraba.

O meu avô chamava-se José Jaqueta e a minha avó chamava-se Emília Lopes. O meu pai está sepultado aqui em Alpiarça mas a minha mãe está sepultada em Santarém. A maioria das famílias de pescadores tem os seus mortos sepultados no cemitério de Alpiarça. A minha patroa vai ao cemitério todas as semanas, porque tem lá o pai e a mãe.

Sempre fui uma pessoa saudável. Mas sempre havia alguns problemas que afligiam a saúde das pessoas. Quando assim acontecia, vínhamos até Alpiarça, a um dos médicos que havia na altura, o Dr. Neves, o Dr. Romão ou o Dr. Zúniga. Vínhamos até Alpiarça algumas vezes, e outras vezes iam os médicos lá ao Patacão. Uma das vezes foi a minha mulher que esteve muito mal, na altura em que o nosso filho tinha dois anitos. A mulher teve uma doença que esteve quase a desorpilar e aí foi lá o médico, o Dr. Neves, e conseguiu tratá-la e curá-la. Foi muito bom para nós. Mas com o tratamento da doença, todos os tostõezitos que tinha e que não tinha nessa altura, tive que os entregar e fiquei sem nada. E se não fossem os velhos a ajudar, não me tinha safado, porque fiquei sem um tostão. Tinha casado há pouco tempo e tinha conseguido juntar um conto de réis. Juntei o dinheiro a trabalhar nos campos de arroz, porque nessa altura era maltês. Já não estava com o velho, com o meu pai, ele estava no asilo, e consegui juntar esse conto de réis, que levei para o casamento. No casamento, fiquei com mais cem mil réis [500 euros] dos convidados. Agora, estes que casam é que ganham fortunas. Deviam era casar-se nessa altura, para saberem.

Antigamente, quando tínhamos uma dor de cabeça ou qualquer coisa pequena, isso não interessava, porque passava de seguida. Ninguém fazia caso disso. Havia no Patacão quem sabia rezar o quebranto, e algumas doenças eram tratadas com mezinhas. A doença do retorcido era tratada assim: quando torcíamos um braço ou uma perna, o que se fazia era meter a mão ou o pé dentro de água bem quente, a apanhar o calor quer da água quer do vapor. A minha sogra fazia uma oração e uma benzedura do retorcido para que as coisas fossem ao lugar, que as dores passassem e que o doente ficasse bem.

Por exemplo, eu parti umas costelas no Dia de Reis. Tinha ido à Lagoalva consertar um barco do engenheiro e depois de tudo arranjado ofereceram uma água-pé que bebi e fiquei um bocado tratado. A pinga era qualquer coisa de bom e não resisti. Quando vinha de regresso à barraca, eu vinha com a bicicleta à mão, eu amparava a bicicleta e ela amparava-me a mim. No caminho enfiou-se um arame na roda da frente, a bicicleta travou de repente, eu comecei a recuar de marcha atrás, perdi o equilíbrio, fui contra uma oliveira e parti as costelas. No dia seguinte, fui tratado ao retorcido com a fervura e o vapor da água dentro de um alguidar, e com a pesca ao barbo com tremalhos, quer dizer, foi curado a trabalhar. A minha sogra foi chamada para me tratar e aplicou-me umas ventosas no sítio doente. No dia seguinte estava um bocadito melhor e decidi ir à pesca. Com o esforço dos remos e de andar a lançar e a puxar as redes, tive uma recaída de noite. Assim fiquei pior por ter teimado em ir pescar com as costelas partidas. Não fui ao médico e as costelas tiveram que se soldar sozinhas. O mestre Zé Fernandes ainda me disse para eu ir ter com o abegão, que ele me punha no seguro. Fui ter com o abegão mas nada se resolveu. As coisas acabaram por se resolver sozinhas.

Mas quando os problemas não se conseguiam tratar, eram tratados pelos médicos de Alpiarça. Não havia assistência médica. Quem precisava de tratamento tinha que o pagar. Parece que agora é outra vez o mesmo. Só para a vista e as diabetes foram vinte e seis contos. Paguei mais doze contos para outras coisitas. Quer dizer, só para a farmácia foram trinta e oito contos. Foi uma conta calada só nesta virada. É metade da reforma. E daqui a nada tenho que ir aviar outra vez.

A luz foi alteada mais do dobro do que há pouco tempo atrás, não sei como é que arranjaram isto e agora ainda falam em aumentar ainda mais. Em 2005, pagava treze ou catorze euros por mês. Este ano já paguei quarenta e um euros cada dois meses, que são oito contos e tal, e cada mês são vinte e tal euros. Quer dizer que é metade a mais do que pagava. É um bom bocado a mais. Quase que não gasto luz. Eu deito-me o mais tardar às dez e meia da noite, só tenho uma arca congeladora e gasto pouco. Não sei como é que me podem levar tanto dinheiro.

Houve pescadores que começaram a trabalhar por conta própria quando se lançaram nas searas. Todos os anos fazem searas. Quem tem terras, mal acaba uma seara começa logo a preparar outra – bróculos, beterraba, tomate, melão.

Na altura das cheias, não me fale nas cheias, quando a água lá chegava, um fulano já não descansava toda a noite. Nas últimas grandes cheias que vieram parece que em 1979, nessa altura eu estava na roda lá no tapadão e só tinha um bezerro que andava a cuidar para a engorda. Estava eu lá na casa do guarda-rios, da venatória, e a água estava a vazar, o que me deixava descansado. Tínhamos dado a roda ao tapadão e assegurámos que a água estava a vazar. Deitámo-nos descansados. Às tantas da madrugada, noite cerrada, um parente meu que lá estava, que era o Inácio, levantou-se para se vir aliviar cá fora. Quando saiu e olhou para o Tejo viu que a água já tinha subido outra vez e que estava já quase a galgar o tapadão. Chamou-me a gritar: Eh pá, olha que a água está a galgar o tapadão, e está alguém a gritar ali para baixo, e eu desconfio que é a tua mulher que está a chamar. Aí vamos nós no barco, e vi a mulher. Pensei que por pouco ela não tinha morrido afogada. Lá mais abaixo vi pessoas dentro das barracas, aflitos, e vi depois o meu bezerro, já com água pela barriga. Deitei-me à água, com botas e tudo e fui puxar o bezerro para lugar seguro, em cima do tapadão. Mas estava lá a malta com os candeeiros acesos. Quando o bezerro viu as luzes em cima do tapadão, assustou-se e começou a fugir, comigo agarrado, tapadão abaixo. Se não me atiro com ele para o lado do tapadão oposto ao Tejo, tinha que o largar e já nunca mais o conseguia agarrar. Fiquei com água pela cintura, mas sempre agarrado a ele. Quando se apanhou com água calma e comigo agarrado, o animal amansou e consegui salvá-lo. Vim com ele à mão e pu-lo em terreno a descoberto, para um sítio onde outros já tinham feito o mesmo, porque estavam lá mulas e carroças. Amarrei o bezerro a uma carroça e lá ficou sossegado.

As cheias eram para nós uma coisa terrível. De noite a gente nunca sabia se estava bem. Uma vez no Patacão de Baixo uma barraca foi por água abaixo. A cheia arrastou-a, mas já lá não estavam pessoas. Eram meus familiares. Às vezes as águas estavam lá por mais de uma semana. Depois desciam e tornavam a subir. Nunca estávamos descansados. Nessa altura não havia bombeiros com barcos, e por isso ninguém podia lá chegar. Só podíamos contar com a gente. Estávamos entregues à nossa sorte. Quem tinham os barcos éramos nós. Eram semanas e semanas de desassossego.

Nessas alturas não se podia pescar, pelo que a gente não podia fazer nada. Quando as águas começavam a subir, empoleiravam-se as coisas e os apetrechos nas casas para não se perderem. No sítio onde tinha a barraca, com outras, a água era branda quando estava de cheia. Mas para as barracas que ficavam no meio do Tejo, essa malta tinha logo que sair porque era muito perigoso e tinham que vir para o barracão do Lico, que era seguro. Essas barracas ainda hoje lá estão e são uma boa memória desses tempos. Era de meter medo ficar numa barraca assente não em cima de pilares, mas em cima de esteios, sem mais nada, sujeita a ir por água abaixo de um momento para o outro. Via-se a água a correr em baixo com uma grande velocidade e tinha-se a ideia que se fosse abaixo a gente acabava ali. Por isso, quando sabíamos que a água ia subir, jogávamos pelo seguro: púnhamos as nossas coisas penduradas na casa e a gente is para o barracão do Lico que era um bom sítio e estávamos seguros.

Houve três casas que arderam. Uma delas era do meu sogro, outra de um primo meu e outra que era do João  Fernandes. Estavam todas da parte de cima da aldeia do Patacão. Arderam todas, e as outras também foram  atingidas mas não arderam de todo. Os bombeiros foram lá mas nada puderam fazer. As casas foram incendiadas  por maldade, pelo novo dono do terreno, que era do Lico. As casas ficavam dentro do terreno mas eram dos  pescadores, porque o antigo dono as tinha vendido. Este queria apanhar aquele pequeno bocado de terra e não  admitia que os pescadores estivessem ali. Foi por malvadez que deitou fogo às casas. Os pescadores não se  mexeram e as coisas ficaram por ali. Foi uma pena porque se perderam casas de pessoas e que faziam parte da  nossa aldeia. Esses pescadores tiveram grandes prejuízos e nunca foram recompensados.

As nossas barracas eram simples: tinham uma sala pequena e dois quartitos. A cozinha ficava cá fora e era onde  tínhamos as coisas para cozinhar, onde fazíamos as refeições e tínhamos os barris da água-pé e algum azeite. As  latrinas também eram fora das casas.

Só há memória de que um casal se tenha divorciado. Nós nunca falamos em divorciados: dizemos que eles se deixaram. Foi o Zé Fernandes, o velho, que era barqueiro e que era avô do meu genro.

No Patacão havia uma passagem de barco entre as margens do Tejo. Fazia-se a passagem dos ranchos, do Patacão de Alpiarça para Vale de Figueira. Isso acontecia mais quando vinham aqueles ranchos dos gaibéus, para trabalhar aqui em Alpiarça, era lá que eles passavam.

O Zé Fernandes cobrava nessa altura vinte e cinco tostões a cada pessoa pela passagem. Quem quisesse podia fazer ali a travessia do rio. Se houvesse alguém da outra banda do Tejo, chamava alto pelo barqueiro, ele ouvia e ia buscar essa pessoa. As únicas pontes que haviam aqui era a da Chamusca, a de Santarém e a do comboio, em Praia do Ribatejo.

NOTA: Bastante agradecemos ao Renato Monteiro, possuidor de um extraordinário portfólio fotográfico sobre os Avieiros, a possibilidade de publicarmos as fotos que acompanham o texto. Elas são de sua autoria.

5 thoughts on “pedaços da memória de um pescador avieiro do patacão -II

  1. Não o conheço, não sei se tem publicado, mas tudo isto tem que vir cá para fora, e chegar à rapaziada que se lamenta da vida.
    Os meus avós eram de Torres Novas, ele era marceneiro, e restaurava móveis. ia para uma quinta em Valada.
    Cresci, eles nasceram no sec XIX, a ouvir falar das cheias de Valada, e lembro-me das tragédias do Ribatejo que após a construção da barragem de Castelo de Bode (1951), no Zezere, as veio minorar. Penso que quem a contruiu foi o Eng. Vaz Guedes, que era columbófilo e amigo de meu pai.

  2. isabel, como deve ter notado no início, este texto foi-me amavelmente cedido pela “comissão coordenadora do projecto da cultura avieira a património nacional”. se pesquisar no google pode encontrá-los e subscrever a folha informativa.

    eu não colaboro directamente com ela, mas, por vezes pedem-me autorização para publicar fotos minhas.

    as minhas raízes também por lá andaram, muito antes dos avieiros lá terem chegado, daí o meu interesse, pelo tema.

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