se amanhã chover


chuva em mim

 

se chover amanhã
estarei no deserto

estou sempre no outro
lado das coisas

se quiseres saber de mim
não me procures
eu já não estou
onde estive
quando tu

se chover amanhã
espero ter lenços de papel
para limpar as lágrimas
única chuva
no sítio certo
no momento exacto

estarei no deserto

eu
e ninguém por perto

se chover amanhã
abraça-me

e já se foram


eram três velhotes

eram três cascos (carcaças) de moliceiro que repousavam no areal do bico.

durante anos serviram para enquadramentos de fotografia, chegando mesmo a dar um primeiro prémio num concurso de fotografia organizado pela câmara da murtosa.

abandonados por quem de direito ali estavam aguardando, talvez uma beata, que desencadeasse um incêndio e fosse desculpa para o seu desaparecimento.

no verão deste ano já lá não estavam. nem memória nem rastos dela.

asim se prepara o desaparecimento silencioso do mais belo barco do mundo.

(murtosa; bico)

se perguntarem por mim


sobre o vazio
os braços
estenderam-se

há algo lá dentro
um corpo
uma voz
uma carícia
um sonho

se perguntarem por
mim
diz que me viste ser levado
com
camisa de forças vestido
a boca tapada
as mãos atadas atrás
das costas

se perguntarem por mim
diz
que estava a agarrar o vazio
num dia de sol

foi então
que os mentores da ordem
polícias dos sonhos proibidos
me levaram

espero um dia
trazê-los comigo

entretanto
se perguntarem por mim
diz

não partiu
que ele não parte nunca
deve de estar a chegar

(coimbra; calçada portuguesa; 2006)

o charlatão


que não disse
o que disse
embora todo povo ouvisse

comeremos
pequenas e saborosas
as bananas
jamais seremos porém
as bananas que comemos

do estado conselheiro
seria exemplo a seguir
que a tão alto cargo se guindou

que não disse
disse
aí chegou
a república
quase das bananas
que não dos mesmos

haja decência
ouvimos
mas como
se já não há paciência

célebre a frase
nos ouvidos ecoa
obviamente demito-o

a isto chegámos
só nos faltava o buraco
no cérebro
que da ilha nos querem
vender

fundiu-se

o que tu nunca lerás (IV)


ao longe, muito ao longe

 

não
não escrevo o teu nome
seria (escre)ver-te
e eu quero-te assim
para além da degradação
que o tempo sempre
traz

quero-te a menina
de há 40 anos
num baile de verão
num abraço sem tempo

trazias as palavras
que eu não sabia
ensinaste-me
” a pedra do reino”

e a jóia eras tu

não
não escrevo o teu nome
sequer o murmuro
deixo que corra pelo silêncio
o grande silêncio onde moram
as palavras nunca ditas
mas com que sonhamos
todos os dias

até sempre

a pulso se puxa a mão


a força do sexo dito “fraco”

há momentos em que as máquinas não substituem a gorça humana, na xávega este é um deles e dos mais importantes.

quando a barca “arriba” traz com ela (onde faz fixe) a “cala” “mão de barca” (corda que fecha o cerco), mal o barco encalha na areia o arrais passa-a para a companha que, em terra, a espera para a levar a força de pulso até ao alador mecânico, sem lhe dar folga ou largar; o que faria perder todo o trabalho.

é na torreira, de todas as praias de xávega que melhor conheço, que as mulheres têm um papel fundamental na arte, neste registo fica bem patente a percentagem de mulheres que dão o seu esforçado contributo ao lanço.

(torreira, companha do marco, 2011)