existe a cidade
a ria e os barcos
nela
ou ela neles
não sei
existo eu
aqui
no olhar
sobre ela
falamos
línguas diversas
entendemo-nos
olhando-nos
porém
só eu a vejo
recordo-te
a alar cordas e redes
nas vozes de mando
que ao arrais cabem
nas conversas que tínhamos à beira mar
por entre o rebentar das ondas
e os gritos das gaivotas
recordo o mar
o teu mar
que vi crescer nos olhos
dos pescadores
quando te disseram adeus
regueiras
que lhes rasgavam o rosto
e caíam na terra seca
feitas pedras
recordo-te
há um mar que teima em crescer
dentro de mim
as ondas rebentam-me no peito
gritam-me aos ouvidos o teu nome
não há noite em que te não veja
recordo-te
no silêncio da tua ausência
continuo a ouvir a tua voz
(torreira)