a primeira fase de qualquer lanço de xávega conclui-se com o arribar do barco. perigoso o largar, só com muita coragem e saber se consegue, largar as redes no sítio certo e trazer peixe no saco conclui o lanço e torna-o “bom” ou “mau”.
vem isto a propósito da aprovação, por unanimidade, na assembleia da república, no passado dia 7 de junho de uma recomendação, cujo resumo transcrevo da “visão online”, até se encontrar disponível na página da assembleia da república o texto definitivo.
“Parlamento pede regime de exceção para pesca por arte xávega
Lusa – Esta notícia foi escrita nos termos do Acordo Ortográfico
15:13 Sexta feira, 7 de Junho de 2013 |
Lisboa, 07 jun (Lusa) – O parlamento aprovou hoje por unanimidade um projeto de resolução recomendando ao Governo que peça à União Europeia a criação de uma exceção para a pesca por arte xávega, permitindo-se a venda de peixe de tamanho abaixo do permitido.
A posição – que resultou de uma articulação entre todos os partidos, à exceção de “Os Verdes” – pretende ainda que seja possível a venda do produto do primeiro lanço de tamanho inferior ao legalmente permitido (12 centímetros, no caso do carapau).
Atualmente, os pescadores devem devolver ao mar o peixe de dimensão reduzida – já morto – e aguardar pela mudança de maré para reiniciar a atividade. O que o parlamento agora defende é que esse peixe, mesmo, possa ser vendido de imediato”
depois do modo de actuação, quase persecutório, das autoridades marítimas no ano ano passado em relação às capturas da xávega, conforme aqui foi relatado- https://ahcravo.wordpress.com/2012/07/17/querem-matar-a-xavega/_, o presidente da câmara municipal de mira, dr. joão reigota, tomou a iniciativa de juntar pescadores de toda a costa e representantes do grupo parlamentar do partido socialista, tendo em vista sensibilizar a comissão parlamentar de agricultura e mar, para a situação vivida pelo sector.
em simultâneo era criada a associação portuguesa de xávega (APX) e eleito presidente o arrais da praia de mira, josé vieira.
dava-se início a um processo que envolveu pescadores e autarcas, de espinho à caparica, e todos os partidos com assento parlamentar.
depois de debate na comissão parlamentar sobre as propostas dos partidos, no dia 7 de junho foi aprovada por unanimidade na comissão, e posteriormente no parlamento, a recomendação, cuja notícia se transcreve e que, segundo o informado, satisfaz, na minha modesta opinião, as aspirações dos pescadores e consigna o procedimento tradicional – se no primeiro lanço do dia predominar o peixe miúdo (jaquinzinhos, na sua maioria), a pesca é suspensa até à maré seguinte, não se realizando mais de 2 lanços por dia, sendo o peixe vendido e não destruído.
resta agora ao governo, com base na recomendação aprovada, e apoiado por todos os deputados portugueses no parlamento europeu, solicitar à comissão europeia que seja contemplado, em sede regulamento, o regime de excepção aprovado pelo parlamento português.
retire-se daqui uma lição: quando as vontades se unem e os homens lutam pela defesa dos seus interesses legítimos e históricos, é possível fazer um lanço.
o saco ainda não chegou a terra, não se sabe se o peixe é muito ou pouco, mas o barco, esse já arribou e todos, homens de terra e de mar, estão de parabéns, formaram uma companha ganhadora.
mais uma vez o mar foi vencido.
vê-se à ré, a estibordo, o reçoeiro a sair do barco, agora será a sorte a decidir se as redes virão cheias de peixe ou de muita pouca coisa.
uma e outra vez o s. pedro se fará ao mar e, a cada lanço, o arrais mostrará como ganhar estas batalhas diárias e como é merecedor da confiança da companha.
nestes registos ainda era vivo o arrais zé murta e é ele que se vê no castelo da ré.
(torreira; 2009)
sobre os dias escrevo
não as comemorações
mas o espanto deste país
em desmoronamento
vítima
de um 1755 nacional provocado
pela ganância do capital
liberem-me dos liberais
senhores de gravatas
carros topos de gama
falocráticos símbolos
de uma suciedade
onde o homem é
euro-convertível
sobre os dias escrevo
a fome
o desemprego
as noites ao relento
os despejos
a fome
a fome
a fome
onde os jovens desta terra?
deles alguns oportunistas
sobem as escadas dos partidos
do chamado
arco do poder
e ei-los brilhantinamente
engravatados limpos por fora
à espera da próxima gamela
quanto aos mais
é vê-los desempregados ou
a comprar bilhete de partida
sem regresso
sem regresso
sobre os dias escrevo
a oportunidade que a crise trouxe
aos que detendo o capital
disporem de mão de obra
tão barata e tão qualificada
e aumentarem absurdamente
as suas absurdas fortunas
sobre os dias escrevo
o desprezo
pelos mais velhos
pela ética
pelo cumprimento das obrigações
pelos saberes
pelos valores
pelo respeito
pela cultura
sobre os dias escrevo
a negro
que negros são estes dias
no dia 1 de junho de 2013, decorreu na feira do livro de coimbra uma tertúlia de teatro que contou com a participação dos actores ruy de carvalho e rui damasceno, moderada por abílio hernandez.
momentos únicos partilhados com os que souberam estar presentes e a que manuel rocha, director conservatório de música de coimbra, emprestou uma análise dos tempos que vivemos lúcida e incisiva.
um artesão de bragança ofereceu a ruy de carvalho uma peça feita no momento e que representava um santo antónio.
fica como memória inesquecível desses momentos a carta há pouco publicada no facebook por ruy de carvalho e que é, sem dúvida, um documento para a história da política cultural deste governo.
“Senhores Ministros:
Tenho 86 anos, e modéstia à parte, sempre honrei o meu país pela forma como o representei em todos os palcos, portugueses e estrangeiros, sem pedir nada em troca senão respeito, consideração, abertura – sobretudo aos novos talentos -, e seriedade na forma como o Estado encara o meu papel como cidadão e como artista.
Vivi a guerra de 36/40 com o mesmo cinto com que todos os portugueses apertaram as ilhargas. Sofri a mordaça de um regime que durante 48 anos reprimiu tudo o que era cultura e liberdade de um povo para o qual sempre tive o maior orgulho em trabalhar. Sofri como todos, os condicionamentos da descolonização. Vivi o 25 de Abril com uma esperança renovada, e alegrei-me pela conquista do voto, como se isso fosse um epítome libertador.
Subi aos palcos centenas, senão milhares de vezes, da forma que melhor sei, porque para tal muito trabalhei.
Continuei a votar, a despeito das mentiras que os políticos utilizaram para me afastar do Teatro Nacional. Contudo, voltei a esse teatro pelo respeito que o meu público me merece, muito embora já coxo pelo desencanto das políticas culturais de todos os partidos, sem excepção, porque todos vós sois cúmplices da acrescida miséria com que se tem pintado o panorama cultural português.
Hoje, para o Fisco, deixei de ser Actor…e comigo, todos os meus colegas Actores e restantes Artistas destes país – colegas que muito prezo e gostava de poder defender.
Tudo isto ao fim de setenta anos de carreira! É fascinante.
Francamente, não sei para que servem as comendas, as medalhas e as Ordens, que de vez em quando me penduram ao peito?
Tenho 86 anos, volto a dizer, para que ninguém esqueça o meu direito a não ser incomodado pela raiva miudinha de um Ministério das Finanças, que insiste em afirmar, perante o silêncio do Primeiro-Ministro e os olhos baixos do Presidente da República, de que eu não sou actor, que não tenho direito aos benefícios fiscais, que estão consagrados na lei, e que o meu trabalho não pode ser considerado como propriedade intelectual.
Tenho pena de ter chegado a esta idade para assistir angustiado à rapina com que o fisco está a executar o músculo da cultura portuguesa. Estamos a reduzir tudo a zero… a zeros, dando cobertura a uma gigantesca transferência dos rendimentos de quem nada tem para os que têm cada vez mais.
É lamentável e vergonhoso que não haja um único político com honestidade suficiente para se demarcar desta estúpida cumplicidade entre a incompetência e a maldade de quem foi eleito com toda a boa vontade, para conscientemente delapidar a esperança e o arbítrio de quem, afinal de contas, já nem nas anedotas é o verdadeiro dono de Portugal: nós todos!
É infame que o Direito e a Jurisprudência Comunitárias sirvam só para sustentar pontualmente as mentiras e os joguinhos de poder dos responsáveis governamentais, cujo curriculum, até hoje, tem manifestamente dado pouca relevância ao contexto da evolução sociocultural do nosso povo. A cegueira dos senhores do poder afasta-me do voto, da confiança política, e mais grave ainda, da vontade de conviver com quem não me respeita e tem de mim a imagem de mais um velho, de alguém que se pode abusiva e irresponsavelmente tirar direitos e aumentar deveres.
É lamentável que o senhor Ministro das Finanças, não saiba o que são Direitos Conexos, e não queiram entender que um actor é sempre autor das suas interpretações – com diretos conexos, e que um intérprete e/ou executante não rege a vida dos outros por normas de Exel ou por ordens “superiores”, nem se esconde atrás de discursos catitas ou tiradas eleitoralistas para justificar o injustificável, institucionalizando o roubo, a falta de respeito como prática dos governos, de todos os governos, que, ao invés de procurarem a cumplicidade dos cidadãos, se servem da frieza tributária para fragilizar as esperanças e a honestidade de quem trabalha, de quem verdadeiramente trabalha.
Acima de tudo, Senhores Ministros, o que mais me agride, nem é o facto dos senhores prometerem resolver a coisa, e nada fazer, porque isso já é característica dos governos: o anunciar medidas e depois voltar atrás. Também não é o facto de pôr em dúvida a minha honestidade intelectual, embora isso me magoe de sobremaneira. É sobretudo o nojo pela forma como os seus serviços se dirigem aos contribuintes, tratando-nos como criminosos, ou potenciais delinquentes, sem olharem para trás, com uma arrogância autista que os leva a não verem que há um tempo para tudo, particularmente para serem educados com quem gera riqueza neste país, e naquilo que mais me toca em especial, que já é tempo de serem respeitadores da importância dos artistas, e que devem sê-lo sem medos e invejas desta nossa capacidade de combinar verdade cénica com artifício, que é no fundo esse nosso dom de criar, de ser co-autores, na forma, dos textos que representamos.
Permitam-me do alto dos meus 86 anos deixar-lhes um conselho: aproveitem e aprendam rapidamente, porque não tem muito tempo já. Aprendam que quando um povo se sacrifica pelo seu país, essa gente, é digna do maior respeito… porque quem não consegue respeitar, jamais será merecedor de respeito!
RUY DE CARVALHO”
a que acrescenta, para conhecimento dos amigos:
“Caros amigos, cada um lida com a sua honestidade, no tempo que lhe é próprio. Sou e serei um Social Democrata, porque acredito nesse tipo de formatação política.
Ergo agora a minha voz, como já o fiz tantas vezes antes, noutras coisas, e também na minha profissão, por ver que aqueles em quem acreditei fogem aos princípios que juraram defender.
Foram eles que juraram e não eu.
São eles que enganam. E por me sentir enganado, não precisei de recorrer a grupos, quer políticos, quer profissionais para abrir uma frente de protesto. Todos os que me conhecem sabem que estou sempre na primeira linha das lutas contra a mentira e as injustiças. Lá muito no fundo ainda acredito que o arrependimento pode salvar os “pecadores”.
A minha honestidade cultural obriga-me a saber separar o trigo do joio. Ser Social Democrata é tão importante como ser Socialista, Comunista, Centrista ou Bloquista. Em todos os partidos há boas e más pessoas. Tenho pena que todos nós, todo o Povo Português, tenhamos tido pouca sorte nas escolhas que fez.
Quanto ao meu protesto, mantenho o que disse: A lei está do lado dos artistas….”
álbum completo em :
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.3092278481870.1073741833.1711262512&type=3