o meu amigo joão magina


o meu amigo joão magina

do pai o  o nome também

do pai o o nome também

nasce-se na ria
como se em casa
cresce-se numa bateira
como se na rua

a vela por paixão
a ria por estrada
as redes as cabritas
as velas e as regatas

por sobre as águas
amigos tenho
de idades várias
gerações muitas

pais tios avós
todos
mas todos
com a ria no sangue

e o futuro incerto

da família a alegria

da família a alegria

(torreira; marina dos pescadores)

os moliceiros têm vela (63)


o meu lado

que se passará sob a superfície das  aguas?

que se passará sob a superfície das
aguas?

escrevo de um país ao lado
de um povo sem casa
nem abrigo desempregado
ou mal pago doente
de não haver orçamento
e não saber o que isso é

escrevo de um país ao lado
de meninos mascarados de homem
mamando no biberão do tacho
cuspindo insultos sem pudor
sobre quem nada pode

escrevo de um país ao lado
marginalizado por ter sido sempre
o motor do barco e ser lançado
borda fora pelos passeantes de serviço
como se lastro a mais depois de usado

cansa-me esta gentinha de gravata
fato pendurado no corpo
passeando o arroto em alta cilindrada
pelas avenidas da minha vergonha
escrevo de um país ao lado

e sei qual é o meu lado

é preciso encher os olhos para tapar a boca

é preciso encher os olhos para tapar a boca

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)