memória da minha coimbra (VI)


memórias da minha coimbra (VI)
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coimbra; r. visconde da luz

josé manuel maia gomes
em 1972 começaram a ser leccionados em coimbra os três últimos anos dos cursos de engenharia. para suprir o quadro de docentes vieram então muitos recém-licenciados, maioritariamente da universidade do porto.
o maia, como nós o tratávamos, veio na leva de 74. era mais velho que nós um bom par de anos. calmo, humilde, amigo do seu amigo. nascido em espinho, filho de um contabilista, do qual dizia.
– a arte do meu pai é meter o lucro no cu duma agulha
de uma riqueza humana e intelectual extraordinária, da música ao cinema, da poesia à pintura, do xadrez à anedota, de tudo isso se fazia o maia gomes, sem exibicionismos bacocos era na sequência das conversas é que se ia revelando. tocava e compunha ao piano com uma intensidade emocional que espantava, esgotava-se.
as palavras para ele não tinham segredos. era dos poucos que tinham cumprido serviço militar, mas disso dizia:
– eu não tenho o serviço militar cumprido, tenho é comprido, estive lá 4 anos.
quando o criticávamos por não ser mais rápido, respondia:
– oh pá, eu até a dormir, durmo devagar ….
também lorca servia de pretexto para as suas aventuras poéticas:
“ a las cinco en punto de la tarde
i take my cup of tea”
(frederico garcia lord)
há quem escreva livros e os publique. todos os amigos do maia são páginas do livro que ele nunca publicou, a todos dava o que naquele momento lhe ia na alma, escrevia nos guardanapos dos cafés, nas bordas dos toalhetes dos restaurantes… escrevia e dava.
deu-me um, numa noite passada no “noites longas”, a respeito da sua última paixão – o maia andava de paixão em paixão como peixe no mar. no dia a seguir a minha mulher virou-se para mim com ar zangado e disse-me:
– quem é esta maria que te anda a escrever poemas de amor?
fiquei perfeitamente a zero, até que me mostrou o poema que segue:
“Desenhar para ti a forma como te amo
e contar o seu tamanho
seria falar do universo
sentado no chão
com palavras de quando era menino
Ao Tó-Zé Cravo
MG”
expliquei-lhe que MG queria dizer maia gomes, que ela tão bem conhecia.
o maia foi para mim uma espécie de irmão mais velho, só ele me tratava pelo diminutivo de família e eu a ele da mesma forma, quando os dois.
morreu a correr no choupal, entre 2 médicos, com um aneurisma, tinha pouco mais de 50 anos.
a partir de 1986 tinha dado aulas no iscac, que atribuiu o seu nome a uma sala e o homenageou com um busto e o nome numa das fachadas
pedi ao saxofonista autorização para o fotografar, acedeu. deixei uma moeda. terminou o tema, olhou para e mim e perguntou:
– y ahora?
fez uma curta pausa, retomou o instrumento e interpretou o orfeu negro. eu continuei, dizendo o poema em silêncio

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