os moliceiros têm vela (309)


ferreira nunes

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ontem dia 13 de maio, no cais do bico, uma ria de gente assistiu ao bota-abaixo do mais novo moliceiro tradicional da ria de aveiro.

chama-se ferreira nunes, como o seu dono, como o pai do dono, como o avô.

o moliceiro é assim, são gerações passadas lembradas no presente, oferecidas aos futuros.

o nelson, filho de antónio ferreira nunes, e os amigos também deram o seu contributo para que o moliceiro chegasse à água.

querem ver povo, muito povo, na murtosa? dêem-lhe moliceiros.

parabéns antónio, parabéns a toda a família, parabéns à murtosa que filhos como este tem.

os que vivem a ria, os que sabem da importância do moliceiro na história deste povo, estão de parabéns.

houve mais um homem que do seu bolso, só do seu bolso, com a ajuda de outros homens com a mesma “frema”, fez mais um moliceiro.

se isto não é amor à terra e à tradição, não sei o que seja.

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(murtosa; cais do bico; 13/05/2018)

 

postais da ria (238)


cipriano

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cipriano brandão e a esposa aurora (2012)

estás aqui
mesmo que não estejas
em mais nenhum lugar
estás aqui

olhar o rosto de um amigo
é lembrar estórias
é estarmos vivos
num mundo que é só nosso

o da memória comum

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cipriano brandão e a esposa aurora (2012)

(torreira; safar redes; 2012)

mãos de mar (36)


a mão de um amigo

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a mão do ti alfredo fareja (falecido)

a mão de um amigo
será sempre
a mão de um amigo

mesmo se dela
a imagem
apenas

a imagem
opera na memória
a viagem no tempo
solares os dias ainda
os homens íntegros
inteiros

assim me acompanho
em dias de mais solidão

(torreira; 2006)

 

 

crónicas da xávega (212)


destino de pescador

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à memória de cipriano brandão (gamelas)

não têm nome
são pescadores
só o mar a areia e o norte
os conhecem

quando por feitos
direito tiveram
a nome e o publicaram
a terra esqueceu-os

partem sempre um dia
humanos que são
perdem-se no nevoeiro
que sobre eles lançam

aqui estão todos
os que foram
os que ainda são
os de amanhã

não têm nome
não sei se o terão

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à memória de cipriano brandão (gamelas)

(torreira; 2016)

 

memória do mar da torreira


2016 foi o último ano que fotografei o mar da torreira, é da ordem natural das coisas haver um princípio e um fim em tudo.

do primeiro ano não me lembro, mas o último sei que foi 2016.

o vídeo que hoje publico representa o momento mais alto de muitos anos passados na praia da torreira. em 2006 publiquei-o, gravei-o em dvd, projectei-o no clube marítimo da torreira, no salão, que se encheu para o ver e ouvir os poemas que consegui dizer. não esqueço a presença do ti manel murta que, de muletas, demorou cerca de uma hora desde sua casa até ao salão, para ver o filme.

devo muito a muitos e continuo a considerar-me mais um, entre aqueles a quem trato pelo nome e me merecem o maior respeito.

10 anos depois dessa exibição e mais de 30 depois de ter tirado algumas das fotos que nele podem ser vistas, é este o momento de o divulgar mais amplamente. é o momento de abraçar quem durante tantos anos me abraçou.

não esqueço, não esquecerei nunca que os meus antepassados foram homens de mar, pescadores da xávega da torreira e da ria de aveiro.

os amigos que em 2006 compraram o filme que não me levem mal, mas o que sei hoje na altura não sabia. de qualquer modo o vídeo que possuem em dvd é mais completo que este.

é gente da torreira que, viva ou não, aqui fica. são pedaços de vida, da minha também, que ficarão durante algum tempo, nada é eterno e o tempo é sempre escasso, ao dispôr dos que um dia quiserem saber como era e dos que se quiserem lembrar dos seus tempos de juventude.

em especial ao meu arrais, joão da calada, e a todos um abraço amigo do cravo.

(figueira da foz; 22 de agosto de 2017)