postais da ria (212)


poderia

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ciranda de dois ( ou será de casal?)

poderia escrever
os nomes dos barcos
dos homens das mulheres
dos ganhos das perdas
das artes das artimanhas
da compra da venda
dos contratos doutros tratos

poderia

mas deixo para ti
esse caminho doloroso
que já percorri

também tu
deves aprender
como se vive por aqui

(torreira; cirandar; 2016)

postais da ria (211)


mesmo se longe

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o salvador belo e a ciranda de um

mais que os barcos
mais que a ria
mais que a beleza
que em tudo respira

os homens as mulheres
os que vivem os dias
sem saber de horas
férias feriados

que só sabem
de encomendas
de interdições
de marés
do que por vezes
não sabem por quanto

falo dos meus amigos
e do respeito
que por eles tenho

mesmo se longe

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é duro, é muito duro

(torreira; cirandar)

postais da ria (198)


notas de um retirante

o associativismo dos pescadores no concelho da murtosa

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o fernando bastos a cirandar, na bateira a esposa, vivelinda bastos

no livro “Breve História do Concelho da Murtosa” da autoria de Marco Pereira, houve o cuidado de fazer o levantamento do movimento associativo do concelho, listando por tipologia as diferentes associações existentes ou que tiveram existência. no que respeita a associações de natureza económica, não encontramos nenhuma referente ao sector das pescas.

de acordo com documentação que enviei ao autor foi, no entanto, fundada em 1921 a “A Associação de Classe dos Marítimos da Murtosa”, de que, entre outros, foi sócio fundador o meu bisavô Domingos José Cravo.

segundo documento da “Secção Administrativa e Policial de Estarreja” de 1937, informa-se o Governo Civil de Aveiro “que não há elementos que possam esclarecer como e quando acabaram as Associações dos “Marítimos da Murtosa” e …..”.

ou seja, foi sol de pouca dura.

seria interessante, em estudos futuros abordar o associativismo dos pescadores do concelho.

dou como exemplo o que se passa na torreira, onde se concentra a maior comunidade piscatória : os pescadores são representados, na sua maioria, por uma associação com sede em viana do castelo e por uma outra associação com sede em aveiro. a concessão da docapesca da torreira, foi ganha pela associação de aveiro.

se considerarmos que os pescadores descontam 1% para a associação que os representa e mais 1% para o concessionário da docapesca, talvez cheguemos a números interessantes.

tentei sabê-los mas …. até hoje nada.

porque é que o associativismo local não vinga entre os pescadores do concelho e vão buscá-lo fora?

mais que uma pergunta, fica um desafio para quem se dedica ao estudo das comunidades piscatórias.
(cirandar berbigão)

crónicas da xávega (188)


às gentes da xávega

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haja peixe certo no tempo certo

que 2017 traga às redes
o peixe o carapau a sardinha
que negou em 2016
no tempo certo

que nem todo o tempo o é
isso aprendi
por isso o desejo

a todos os que da xávega
fazeis vida

que os que ainda não vos respeitam
aprendam em 2017
que quando deixardes de ser
a sua terra perderá
muito mais de si
do que uma simples arte de pesca

perderá o futuro
porque deixou morrer
o passado

(torreira; 2015)

quem conta um conto ……


14 de dezembro, de 1880

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…………………………..

no diário do governo nº 285 de terça-feira, dia 14 de dezembro, de 1880, é publicada a lista dos pescadores que participaram no salvamento dos náufragos do nathalie e foram por isso contemplados com:

“Medalha de prata para distincção e prémio e prémio concedido ao mérito, philantropia e generosidade:

Francisco da Silva Vaz
José da Silva Vaz
Manuel Joaquim Gorim
José Manuel do Padre
José Maria Rodrigues Brandão
Joaquim Maria Rezende
José da Cunha Pereira
Francisco António Russo
António Joaquim Vidinha
Manuel João Bucinho
Gonçalo Serrano
Gonçalo António Netto
José do Padre
António Maria Tavares
Joaquim Raphael
José Gravato
Domingos Luís de Mattos
Matheus Carapilho
António Pereira
Manuel da Cruz
Manuel Mariquinhas
Pedro Carapilho
Joaquim Carinhas
Lourenço Caroço
António Padinha
Manuel Maria Rebello Sebollão
Gonçalo de Oliveira Vadé
Manuel Cascaes
Raphael Maria da Cunha
António Maria Sardo
Manuel Lenho
Manuel Maria Caravella
Manuel Tejeleiro
João António da Silva
Manuel Gorim Júnior
João José Tavares
João Carinhas
Manuel José Acabou
João Vida
Francisco Besugo
Joaquim Presada
Gonçalo Marim
Manuel José Soldado
Manuel Tameiro
José Maria Patarata
António Tigeleiro
Manuel Canito
António Baldaia
Manuel da Brasia
Joaquim Codea
João Sassu
Pedro Fernandes Tavares da Ruiva
Luiz de Pinho das Neves Padinho
Egydio Salgado
José Maria Sapata
Manoel Mariquitas”

(todos a trabalhar em companhas da torreira)

são eles que hoje, aqui, são lembrados, enquanto continuo a esperar que senos da fonseca, encontre provas documentais da participação do arrais ançã no salvamento. senos da fonseca e todos quantos o vêm divulgando.

para que a estória não passe a história, era bom que provas documentais surgissem, como a que publico. é que: “quem conta um conto acrescenta um ponto”

os moliceiros têm vela (234)


os contribuintes, os fotógrafos, a janela e as mãos sujas

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no final da regata dos moliceiros do s. paio, quando regressávamos de uma tarde de emoções fortes, vividas na ria, fomos recebidos por alguns contribuintes que nos disseram termos estragado o visionamento da regata, por andarmos de barco a acompanhá-la. também no face houve quem o escrevesse .

ora bem, o s. paio é a festa da ria e festeja-se na ria, eram muitos os barcos de recreio e de pescadores que, em dia de descanso, andavam na ria a acompanhar a regata. é assim, sempre foi assim. os barcos com fotógrafos eram poucos, quem dera fossem mais, porque mais dinheiro deixavam nos bolsos dos pescadores que os levavam. foi neles quem quis, ficou em terra quem assim o entendeu.

sujámos a imagem da regata? e nós no meio da ria, não tínhamos também barcos no nosso horizonte visual? é tudo uma questão de saber o quando e o como disparar. há quem tenha feito belíssimos trabalhos de terra.

mas, já agora que queriam ver tudo, não terão reparado que na regata não havia só moliceiros? não ouvi ninguém manifestar a sua opinião a esse respeito. é verdade, participaram na regata duas bateiras mercantelas – conforme informação de um tripulante de uma delas. será isso correcto quando na véspera houve uma regata de bateiras à vela com duas classes?

estranho é terem dito que estavam em competição, sem qualquer reparo ou impedimento da organização e, na página do município da murtosa – https://www.facebook.com/municipiodamurtosa/posts/1096215667123441 -, quando se vê a lista dos participantes, não estão lá mencionadas.

da minha janela, a bordo de um moliceiro, assisti a tudo.

afinal, competiram ou não? era interessante esclarecer essa situação.

quanto a mãos sujas, também eu as tenho de andar a trazer muita “porcaria” ao de cima, só que não estou agarrado a ela.

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(regata do s. paio, 2016, a bordo do moliceiro “Dos Netos)

postais da ria (186)


dia de s. paio

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hoje é dia de s. paio, na torreira, dia do santo padroeiro da terra e dos pescadores. e eles bem precisam de um santo que os proteja da fraca safra, dos baixos preços, das viagens para que muitos partem em busca do pão que a ria nega

“mamã! papá! encontrei uma concha fechada, mas não tem nada, é tudo negro”

uma menina de 6 ou 7 anos, espanhola, dizia assim aos pais o que tinha encontrado na ria. em palavras simples, dizia afinal como estava a ria.

o choco rareou, o berbigão cada vez menos, o linguado pouco, a amêijoa quase nenhuma. os preços de venda ….. não os digo que vergonha tenho.

não há futuro na ria e os jovens partem para o bacalhau, os menos jovens também, se não é para o bacalhau é para a pesca noutros países.

quantos não estiveram nas festas do seu santo? não remaram, não velejaram, não viram sequer os seus amigos.

será que o s. paio lhes vai valer? se não for ele, haverá alguém?

é para os pescadores da torreira esta publicação, onde as velas brancas são o desejo de que consigam sobreviver e fazer vida. são senhores da ria e patrões do mar: brava gente.

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(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio, 2016)