postais da ria (240)


deixa-os descobrir

deixa que pensem
a higiene mental diária
só lhes faz bem

ignoram porém
que tu também

as pedras no caminho
há sempre pedras no caminho
não são exclusivo de ninguém

deixa que pensem
que só as há no teu

entre a ignorância
e a sabedoria
a fronteira é ténue

deixa-os descobrir

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(torreira; saco de berbigão de 20 kg; 2009)

postais da ria (233)


‘miga

hoje no mercado de buarcos
fui abraçado por uma palavra

‘miga

conheci-a em setúbal
no bairro das fontaínhas
onde murtoseiros pescadores

quando a ouço regresso
aos tempos de eu menino
às vozes que pela ladeira

‘miga

diziam antes de começar
qualquer conversa

tempo em que todos
eram amigos e camaradas
por isso entre pescadores

‘miga

mais que a ouvir senti-a
há palavras assim
que nos chegam como se

um abraço

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a bela e o jim cirandam berbigão

(torreira; cirandar)

postais da ria (227)


iludi-me

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torreira, 2016_o arrumar das redes da solheira

da estrada larga
dos luminosos caminhos
infinitamente breves
o maior está feito

o sonho a ilusão
aquilo que me fez correr
hoje nada mais que memória

olho para tudo
com o cansaço de ter feito
sem saber se algo feito foi

tenho a sensação de deixar
tudo como era
faz bem perder as ilusões

sempre me senti barco
mas iludi-me com o porto

iludi-me