todo o tempo é hoje
todo o tempo é hoje
nele ser ainda
todos os instantes
estar vivo
é ser cais de onde se vê
partirem amigos
ilusões sonhos
todo o tempo é hoje
e nele cabe
cada vez menos nada
(ria de aveiro; torreira)
eu só termino em mim
os primeiros passos
não os últimos
as primeiras palavras
a palavra o nome
o herdado
vi o que vias e procurava
outros olhares
mas era sempre o teu
o olhar recto
sou porque foste e me deste
serei porque assim te vi ser
não pelo que me dizes hoje
queria continuar a ouvir-te
mas eu só termino em mim
(torreira; corrida dos chinchorros; 2014)
regata de chinchorros
de todas as regatas que se fazem na ria, já o escrevi algures, a mais espectacular é a dos chinchorros a remos.
este ano concorreram 13 e a classificação final foi a seguinte:
1ª – Marisa e André (bicampeões)
2ª Sta Maria Adelaide
3ª Raquel
muito difícil de fotografar. de terra só a chegada ou eventuais treinos e na ria, pela rapidez com que tudo se desenrola e pela disposição das bateiras – paralelas entre si – e o consequente posicionamento do barco onde vamos.
este ano, ficámos a sul da bateira, mais a sul, a “Raquel”. a minha técnica é escolher uma bateira e fixar-me nela, por momentos posso mudar, mas mantenho-me fixo numa.
este ano, escolhi a “Raquel” e experimentei registar algumas expressões de remadores.
este foi um dos registos possíveis.
(torreira; corrida de chinchorros; s. paio; 2015)
o lixo debaixo do tapete
lê tudo ao contrário
as horas da beleza
não são as únicas
horas da realidade
procura os homens
pergunta-lhes o como
quando e para quê
são eles o teu relógio
procura-os nas horas más
esconderam o lixo
por debaixo do tapete
na ilusão de terem limpo a casa
não sejam os teus olhos
tapete novo em chão gasto
dou-te a carne dos dias
para que sintas na boca o sangue
dos que os habitam
reparte-a
(torreira; cais do guedes; verão, 2015)
palavras assassinas
pacientes as mãos sempre elas
limpam das redes os caranguejos
ferem-se esmagam quebram
preparam sábias nova pescaria
assassinas as palavras
entraram pelas malhas dos dias
depositadas por mãos alheias
saberes de vícios urbanos
habilidosos hábitos aprendidos
confundiste-as com
as malhas dos teus dias
como pescarás agora?
(torreira; varadouro do estaleiro do zé rito; 2015)
quero-te barco
que vejas para além
da ilusão
que sejas não a gota
sequer a teia
mas um barco
onde navegar seja seguro
não por instantes
mas sempre
que te não iludas
com falsas pérolas de água
presas em malha fina
tecida por habilidosos
fabricantes de armadilhas
de teias se tecem vidinhas
videirinhas no amarinhar
dias acima gente abaixo
quero-te barco
mesmo se antevisto
onde navegar seja seguro
(torreira; 29/08/2015)
é indizível o que sinto
falar de ti é ainda dizer-me
continuar a ser
pelas tuas mãos ainda por
deixar-te a memória do tempo
a beleza dos dias onde fui
é dar-me-te para me seres mais
é indizível o que sinto
(ria de aveiro; torreira)
calaste-me pedras
não mates a palavra
para continuares vivo
deixa que seja o tempo
a levar-te inteiro
quero-te dizer que dói
assistir à tua morte
sabendo-te vivo
as hienas comem o leão
a noite chega mais cedo
é de restos que se atapetam
os dias que me restam
as pedras esboroam-se
tropeço em montículos de areia
desfeita que foi a memória
calaste-me pedras
(torreira; marina dos pescadores)