postais da ria (99)


eu só termino em mim

corrida dos chinchorros, os treinos

corrida dos chinchorros, os treinos

os primeiros passos
não os últimos
as primeiras palavras
a palavra o nome
o herdado

vi o que vias e procurava
outros olhares
mas era sempre o teu
o olhar recto

sou porque foste e me deste
serei porque assim te vi ser
não pelo que me dizes hoje

queria continuar a ouvir-te
mas eu só termino em mim

momentos para meditar

momentos para meditar

(torreira; corrida dos chinchorros; 2014)

postais da ria (98)


regata de chinchorros

laurindo, alfredo miranda e o filho do domingos da grila

jim, alfredo miranda e o filho do domingos da grila

de todas as regatas que se fazem na ria, já o escrevi algures, a mais espectacular é a dos chinchorros a remos.

este ano concorreram 13 e a classificação final foi a seguinte:

1ª – Marisa e André (bicampeões)

2ª Sta Maria Adelaide

3ª Raquel

muito difícil de fotografar. de terra só a chegada ou eventuais treinos e na ria, pela rapidez com que tudo se desenrola e pela disposição das bateiras – paralelas entre si – e o consequente posicionamento do barco onde vamos.

este ano, ficámos a sul da bateira, mais a sul, a “Raquel”. a minha técnica é escolher uma bateira e fixar-me nela, por momentos posso mudar, mas mantenho-me fixo numa.

este ano, escolhi a “Raquel” e experimentei registar algumas expressões de remadores.

este foi um dos registos possíveis.

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(torreira; corrida de chinchorros; s. paio; 2015)

postais da ria (97)


o lixo debaixo do tapete

não é fácil trabalhar aqui

não é fácil trabalhar aqui

lê tudo ao contrário
as horas da beleza
não são as únicas
horas da realidade

procura os homens
pergunta-lhes o como
quando e para quê
são eles o teu relógio
procura-os nas horas más

esconderam o lixo
por debaixo do tapete
na ilusão de terem limpo a casa
não sejam os teus olhos
tapete novo em chão gasto

dou-te a carne dos dias
para que sintas na boca o sangue
dos que os habitam

reparte-a

o meu amigo aú vai amarrar a bateira

o meu amigo aú vai amarrar a bateira

(torreira; cais do guedes; verão, 2015)

postais da ria (96)


palavras assassinas

levará 2 horas largar e a lar, poderá levar um dia a safar. é assim a solheira

levará 2 horas largar e a lar, poderá levar um dia a safar. é assim a solheira

pacientes as mãos sempre elas
limpam das redes os caranguejos
ferem-se esmagam quebram
preparam sábias nova pescaria

assassinas as palavras
entraram pelas malhas dos dias
depositadas por mãos alheias
saberes de vícios urbanos
habilidosos hábitos aprendidos

confundiste-as com
as malhas dos teus dias
como pescarás agora?

as garras ferem os dedos. o caranguejo infesta a ria

as garras ferem os dedos. o caranguejo infesta a ria

(torreira; varadouro do estaleiro do zé rito; 2015)

postais da ria (94)


quero-te barco

olhar é viver

olhar é viver

que vejas para além
da ilusão

que sejas não a gota
sequer a teia
mas um barco
onde navegar seja seguro
não por instantes
mas sempre

que te não iludas
com falsas pérolas de água
presas em malha fina
tecida por habilidosos
fabricantes de armadilhas

de teias se tecem vidinhas
videirinhas no amarinhar
dias acima gente abaixo

quero-te barco
mesmo se antevisto
onde navegar seja seguro

não fiques preso na teia, sabe porém vê-la

não fiques preso na teia, sabe porém vê-la

(torreira; 29/08/2015)

postais da ria (93)


é indizível o que sinto

entre a palavra e a imagem o sentir

entre a palavra e a imagem o sentir

falar de ti é ainda dizer-me
continuar a ser
pelas tuas mãos ainda por

deixar-te a memória do tempo
a beleza dos dias onde fui
é dar-me-te para me seres mais

é indizível o que sinto

tudo o que te possa dar é pouco, o pouco que conquistares é muito

tudo o que te possa dar é pouco, o pouco que conquistares é muito

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (91)


calaste-me pedras

fica a sombra

fica a sombra

não mates a palavra
para continuares vivo
deixa que seja o tempo
a levar-te inteiro

quero-te dizer que dói
assistir à tua morte
sabendo-te vivo

as hienas comem o leão
a noite chega mais cedo
é de restos que se atapetam
os dias que me restam

as pedras esboroam-se
tropeço em montículos de areia
desfeita que foi a memória

calaste-me pedras

é urgente dourar os dias que restam

é urgente dourar os dias que restam

(torreira; marina dos pescadores)