postais da ria (90)


“primeiro de agosto
primeiro de inverno”

(ditado da torreira)

chove

chove em agosto, na torreira

chove em agosto
limpam-se as cores
tudo adquire por momentos
uma beleza lavada
onde os olhos se renovam

chove em agosto
e eu esqueço-me
dos insignificantes

estou vivo e isso me basta

só não encontra beleza quem não a procura

só não encontra a beleza quem não a sabe ver

(torreira; marginal da ria;  13/08/2015)

postais da ria (81)


nasci para viver

ahcravo_DSC_0666 bw

seguir caminhos feitos
só porque é duro fazê-los
é coisa para sapatos
gastos antes de estrear

eu
vou descalço rasgo os pés
abro os meus caminhos
rasgo leitos sou rio revolto
com ânsia de mar fome de marés

sou o que nasceu para estar vivo

ahcravo_DSC_0666

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (79)


desconto-me

maré vazia na ria

maré vazia na ria

conto comigo e poucos mais
desconto muitos com que contava
por ter contado mal ao contá-los

conto ainda com o suficiente
para fazer o que na vida me resta
merecer ser feito no tempo que tenho
conto com o tempo e não sei se

conto comigo e desconfio se ao fazer tal
será tão seguro como contar com os outros
que de um corpo dependo e esse tal como
muitos com que contava é cada dia mais
de desconfiar

começo a descontar-me

não é só na ria que a maré vaza

não é só na ria que a maré vaza

(torreira; marina dos pescadores)