postais da ria (34)


perdidamente

perdidamente

inventar as cores e as coisas
despovoar a paisagem
como se tudo já tivesse sido
para voltar a ser de modo diverso
recriar recreando

a luz e a sombra
o doirado que semeio
a prata lançada sobre as águas
o rebrilhar da criação
o fazer

dentro do tempo um homem sorri
é uma criança traquinas
que nunca cresceu

sou eu

ahcravo_DSC_4488_ contra luz

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (31)


POETA – ESCRITOR(A) – A PUBLICAR (desabafo)

ei-los que chegam como se não

ei-los que chegam como se não

viva oh gente que
como se aqui de repente
milagre realizado fora
onde de poeta e de louco
afinal apenas alguns

títulos como se apelidos
colados na pele
trazidos do berço
é este o tempo e o espaço
o lugar onde por fim

não se publica aqui?
o que não em papel
não publicado entendi
condenação do virtual
onde muitos mais
a custo zero
entenderão isso quando?

pequeno e médio em tudo
pasmo perante
a enormidade das pequenas coisas
das bravas gentes

ahcravo_DSC_6270_ribeira de pardelhas

luminosamente vêm chegando

(ria de aveiro; murtosa; ribeira de pardelhas)

postais da ria (29)


ti costeira, o pescador solitário

ti costeira, o pescador solitário

(para o josé luis peixoto)

como se súbito a luz
fiquei com a noção clara
de que não lerei
a tua obra completa

perder o futuro
é saber-se
e eu soube-me
nas tuas palavras

em galveias

ahcravo_DSC_4368_to costeira_2013

(torreira, 2013)

em 2014 o ti costeira já não deitou a bateira à ria

postais da ria (27)


o fim da maré é a hora do regresso

o fim da maré é a hora do regresso

dizem-se pescadores
registam-se e resistem como tal
vêm de barco e só por isso
a ilusão se mantém

mais não foram
que lavrar a lama
colher frutos
não semeados

é parco o que na mesa fica
muitos e grandes são
os que lhes comem gorda fatia
do que por direito deles seria

vêm de longe uns
nada sabem
porém comem

de perto outros
tudo controlam
e fartam-se de tanto

há beleza que baste
para iludir o real

a ria está povoada de medos

ahcravo_DSC_8821_bw
(ria de aveiro; torreira; cabrita de pé)

sou mais um


um por todos e todos

um por todos e todos

do muito andado
ficou o ser daqui
sem aqui ter nascido
que é esta a terra onde as raízes
mergulham

é esta a minha gente

o sangue que me correr nas veias
enquanto
carreia sal destas águas
e das outras onde tudo começou

ser eu deles
serem eles de mim
sentimos alguns
sentimos muitos
sentimos os que

por isso me dói
tudo e tanto
por isso não assisto
sou mais um

(ria de aveiro; torreira; corrida de chinchorros; s paio 2014)

postais da ria (10)


para a ria com amor

abraçar a ria
como se nela o mundo
um sorriso
o amor
todo

abraçar a ria
para além dos homens
ser maior que eles
na pureza
de amar
 
abraçar a ria
ser nela a criança de novo
na ria na ria
na ria

(torreira; procissão das bateiras; 2014; na bateira da esmeralda e o joão)