das palavras


visto-me de palavras
de palavras ando
que de palavras me fui fazendo
sem saber se muitas
se poucas
apenas pelo prazer de

para o dia a dia
camisa garcia márquez
calças eugénio de andrade
sapatos sophia de mello breyner
um bruto carro
antónio lobo antunes

para a praia
polos marca vinicius
calções de banho drummond
chapéu faulkner
toalha miguel angel asturias

de inverno
impermeável proust
meias prévert
e você manuel bandeira
junto com zé gomes
aquecem os meus dias

óculos
esses não dispenso 
para ler as marcas da roupa que visto
então só mesmo se forem fernando pessoa 

(coimbra; baixinha)

a marca


lareira ao ar livre

conhecemo-los
das feiras
das roupas e dos acessórios
de marca
por fora que por dentro sem
ela são

de terra em terra
de feira em feira
apregoam a qualidade dos seus produtos
a baixo preço

“é mais caro o crocodilo
que a t shirt”
mas é ele que vende
que os olhos dos outros
compram

uma marca nova
uma marca de marca
é uma marca que deixou de ser

mas os olhos vestem-se de marcas
que vêem
nesta sociedade de marca
que ninguém já quer comprar
tão má fama tem

vêem-na a ser vendida
pelos ciganos?
jamais
têm de ter confiança
no que vendem

(coimbra)

o charlatão


que não disse
o que disse
embora todo povo ouvisse

comeremos
pequenas e saborosas
as bananas
jamais seremos porém
as bananas que comemos

do estado conselheiro
seria exemplo a seguir
que a tão alto cargo se guindou

que não disse
disse
aí chegou
a república
quase das bananas
que não dos mesmos

haja decência
ouvimos
mas como
se já não há paciência

célebre a frase
nos ouvidos ecoa
obviamente demito-o

a isto chegámos
só nos faltava o buraco
no cérebro
que da ilha nos querem
vender

fundiu-se